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Fórum Mundial de Angus na África do Sul : revisando conceitos

Científicos | 10 de Março de 2010
por Fernando Furtado Velloso
Médico Veterinário - Gerente de Operações
Associação Brasileira de Angus - Março/2005
 


A África do Sul sediou recentemente (16 a 24 de março), o IX Fórum Mundial de Angus na bela cidade de Cape Town. Evento que ocorre a cada quatro anos, e que nesta edição contou com delegações de praticamente todos os países do mundo que criam Angus. Tive a honra e o prazer de representar a Associação Brasileira de Angus neste importante encontro e conhecer um pouco mais sobre a realidade da raça em diversos países.  É impressionante notar o crescimento que o Angus está vivendo em vários países. Em 2004 foram controlados aproximadamente 800.000 novos animais em diferentes categorias de registro (PO, PC, etc). Este dado já nos dá uma idéia da expressão que a raça tem na pecuária moderna, pois o crescimento anual do rebanho de Angus no mundo é bastante superior ao rebanho total de muitas raças taurinas. É importante citar que, atualmente, os principais criadores de são os EUA e Argentina, mas que muitos países vem com uma história recente de muito crescimento na raça, como é o caso da Austrália e Brasil. 

Esta liderança da raça não é gratuita e nem conseqüência de investimentos pesados em marketing, mas simplesmente o atendimento as orientações do mercado. Nosso negócio nos sinaliza há muito tempo para três coisas: necessidade de produção mais eficiente no campo, produção de acordo com os desejos do consumidor e, se possível, especialização para fuga do mercado de commodities. O Angus consegue atender a estas demandas, pois é uma raça extremamente eficiente (precoce, fértil, longeva), que atende aos desejos do consumidor (carne de qualidade com alta maciez) e possibilita a participação de programas ou alianças que valorizam carne de qualidade e a diferenciam das commodities. Foi possível visualizar neste fórum que todos as associações de Angus mundo a fora estão alinhadas neste conceito, pois possuem suas iniciativas na área da carne, seja com programas para produção ou certificação de carne com “marca” ou pela certificação e rastreabilidade de animais Angus. Alguns dos programas que podem ser citados são: Certified Angus Beef da American Angus Association, Yellow Tag na Red Angus Association of America, Angus Pure na Nova Zelândia, e o Programa Carne Angus Certificada no Brasil. 

Tivemos a oportunidade de falar um pouco sobre a pecuária de corte no Brasil e a participação do Angus neste cenário. Foi incrível notar o grande interesse que todos tinham em conhecer mais sobre nosso país e que não restam dúvidas de que seremos lideres mundiais no negócio da carne vermelha. 

O tema Avaliação Genética foi o que mais tempo teve dedicado no Fórum. Geneticistas dos EUA, Austrália e África do Sul fizeram uma série de palestras abordando tendências genéticas, marcadores moleculares (DNA), seleção para animais que utilizam a alimentação de forma mais eficiente, etc. Pudemos visualizar, baseados em trabalhos científicos em importantes centros de pesquisa, os expressivos avanços em melhoramento genético que o Angus alcançou nas últimas décadas. Comprovadamente o Angus desenvolveu-se muito em sua performance para ganho de peso (DEP Desmame, DEP Final), mas preservou sua importante característica de facilidade de parto e tamanho maduro moderado. Como desafio para as associações e “melhoristas” ficou a necessidade de reduzir a lista de DEP´s/EBV´s e disponibilizar informações que sejam de mais fácil compreensão pelo produtor comercial. A seleção que a raça faz em todo o mundo está voltada para o produtor comercial, mas precisamos traduzir os dados de performance para que, efetivamente, o produtor seja capaz de escolher os reprodutores adequados para seus objetivos. A Austrália já possui um método bem prático e hoje classifica os reprodutores avaliados em seu Sumário de Touros de acordo com o mercado que eles são mais indicados (ex: Touros para o mercado doméstico, Touros para o mercados Japonês, Touros para o mercado Coreano, etc). É uma forma simples de bem orientar o uso de genética adequada para diferentes mercados com diferentes especificações. 

A necessidade de uma avaliação genética internacional integrada foi um dos temas mais polêmicos do encontro. Resumidamente, o que se propôs foi da utilização da base de dados de todas associações de Angus para a “publicação” de um sumário de touros integrado. Desta forma, poderíamos ter uma base de dados muito grande e aproveitar os dados de progênie de um reprodutor em diferentes países. Todos os países possuem animais de ótima genética. A dificuldade é encontrá-los e comparar os dados de performance de diferentes avaliações. Somente os EUA manifestaram desinteresse na participação neste trabalho, tanto a associação de criadores de animais vermelhos (Red Angus) quanto à de animais pretos. As justificativas apresentadas foram embasadas em limitações técnicas (diferentes métodos de avaliação, diferentes bases de dados, etc), mas ficou claro para todos os presentes que novamente o “Tio Sam” não vê a globalização como uma estrada de duas mãos. De qualquer forma, este trabalho será desenvolvido e a coordenação ficou a cargo da associação australiana. 

Da Austrália também foram apresentados importantes resultados de pesquisa do cruzamento do Brahman com diferentes raças (Angus, Hereford, Shorthorn, Charoles, Limousin, Santa Gertrudis e Canchim) nos estados do Norte daquele país. As conclusões que podem ser retiradas deste experimento nos mostram que o Angus ofereceu enormes benefícios nos cruzamentos com zebuínos nas regiões tropicais e subtropicais em relação às outras raças através de: menor duração da gestação (aumentando a taxa de concepção e repetição de cria), menores pesos ao nascer (evitando os problemas de parto), altos ganhos de pesos (dispondo de bezerros pesados ao desmame). A conclusão mais importante é que o cruzamento Angus x Brahman foi o único que atingiu os mais altos níveis de exigência de qualidade de carne (maciez e marmoreio) e peso de carcaça, podendo assim acessar os mercados que praticam os melhores preços ao produtor australiano. 

A África do Sul e os cidadãos de Cape Town foram ótimos anfitriões. Como esta foi minha primeira oportunidade de conhecer o continente africano, confesso que mudei muito o conceito que tinha e a imagem que fazia desta distante terra. A pecuária de corte vem evoluindo bastante nos últimos anos na África do Sul e o Angus vem tomando um papel importante nesta cadeia. Ainda hoje são citados os conceitos do Dr. Jan Bonsma que sempre afirmava: “Man Must Measure” (o homem precisa medir) e os africanos tem medido muito o que ocorre com seus rebanhos. Os resultados apresentados sobre Stayability (longevidade produtiva) e Eficiência Alimentar do Angus na África do Sul eram baseados em mais de 85.000 EBV´s nos últimos 20 anos. Informação muito valiosa e consistente em um país que muitas vezes não lembramos em primeiro plano.
Nas visitas que fiz as fazendas próximas a Cape Town pude visualizar as difíceis condições que o Angus precisa vencer na África do Sul. Os rebanhos de cria são manejados sem suplementação alguma e as áreas são tão pobres (solo, vegetação, precipitação) que em muitas situações são necessários mais do que 20 hectares para uma vaca. Mesmo assim, os fazendeiros visitados têm boa eficiência em sua operação, entourando as novilhas antes dos dois anos e mantendo as vacas de cria com boa condição corporal e altas taxas de prenhez. Foi gratificante ver o Angus em condições tão adversas e dando tão bem conta do recado. Os touros utilizados em inseminação são de diversos países, mas predomina o uso de genética americana. Um ponto extremamente importante que notei nos criadores é a preocupação de selecionar animais com estrutura correta. O fazendeiro sul africano primeiro olha para os cascos e aprumos do animal, se não forem bons, não há necessidade de avaliar o resto da besta. Bastante lógico, pois quem cria em condições tão difíceis precisa de genética de bons “caminhadores” e bons “pastejadores”. 

Antes de retornar ao Brasil foi com satisfação que encontrei um touro brasileiro na bateria de uma central sul africana de inseminação. Refiro-me ao nosso conhecido “Pancho 444” que figurava ao lado de reprodutores americanos, australianos e ingleses. Trouxe comigo a clara sensação que precisamos mudar nossa postura em relação à genética que compramos. Outros países do mundo já buscam genética no Brasil. Porque não fazemos o mesmo invés de seguir tentando chegar a “América” a nado? Algo para pensar.

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