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O Angus é a pecuária canandense: é preciso ver para crer.

Científicos | 10 de Março de 2010
Uma perspectiva baseada no World Angus Fórum 2009. 

por Fernando Furtado Velloso
Médico Veterinário - Gerente de Operações
Associação Brasileira de Angus - 2009


O World Angus Fórum 2009 (WAF) foi sediado este ano no Canadá e ocorreu recentemente em julho em Calgary (Alberta). O WAF é o maior evento mundial da raça e ocorre a cada quatro anos: a edição anterior ocorreu na África do Sul (2005) e o próximo ocorrerá na Nova Zelândia (2013). Em função deste importante evento da raça Angus tive oportunidade de conhecer melhor a pecuária canandense, o Angus canadense e trago aqui algumas reflexões sobre o que ouvi, vi e percebi. O fórum ocorrido no Canadá provavelmente foi dos mais grandiosos dos últimos anos: mais de 800 congressistas dos mais diversos países do mundo (e bota variado nisso), aproximadamente 1.000 animais em julgamento entre pretos, vermelhos, juniores (expositores jovens) e Futurity (animais jovens e inéditos). A agenda do fórum foi muito completa e contou com jornadas técnicas (palestras e discussões), julgamentos, programa internacional de embriões, leilão, refeições sempre com Carne Angus Certificada, danças típicas indígenas e um “baile” com música country (e por lá arrastamos o pé também). 

Os grandes temas da jornada técnica foram sobre as questões relativas à genética, especialmente sobre a variabilidade genética encontrada em diferentes linhagens da raça Angus, as possibilidades de melhoramento em função desta variabilidade e alguns defeitos genéticos que tem sido encontrados na raça (ex: curly calf). Aqui já surge espaço para uma primeira reflexão: o Angus tem grandes possibilidades de ganhos genéticos, pois a raça tem muitas linhagens (variabilidade) e esta pode ser muito bem explorada, porém em nosso país temos utilizado intensivamente algumas linhagens e genéticas de poucos criadores argentinos e americanos. Assim limitamos o espaço para ganho genético e pouco desenvolvemos a genética nacional e o nosso negócio (mas este é tema para outro texto, pois a conversa é longa e polêmica). 

A exposição foi uma grande oportunidade de conhecer muitos criadores e criações canadenses, pois tínhamos algo próximo de 1.000 animais à disposição para revisão e farto material informativo de cada cabanha. Foi possível avaliar como eles usam o “show” como uma importante ferramenta de divulgação de suas empresas: o canadense sabe bem como explorar os dias de exposição para fazer o “marketing” de suas cabanhas. Não há possibilidade de você chegar perto de um animal sem ser abordado pelo proprietário já com o cartão de visita à mão e com um sorriso de quem quer fazer negócios. O próximo passo é receber muita informação sobre os objetivos de seleção da criação, os principais animais produzidos, folders, catálogos, disponibilidade de embriões, etc. A participação de expositores somente com stands e sem animais chamou-me a atenção também. Criadores que não acreditam no show de animais de argola exploram as exposições também e divulgam seus programas de seleção e leilões com stands bem montados e com farta informação. Uma lição para aprendermos, pois podemos aproveitar melhor nossos dias em expo-feiras agropecuárias. Talvez os paulistas estejam a frente neste item, pois investem mais no marketing de suas criações. Talvez também porque viajam mais ao exterior. 

O programa internacional de embriões foi um tema a parte e a grande inovação deste fórum. Diversos países enviaram ao Canadá em 2007 embriões de Angus que representavam a sua genética nacional. Estes animais nasceram em 2008 e foram apresentados no fórum com 1 ano de idade. Todos foram criados nas mesmas condições de manejo e o espaço dos “embriões internacionais” foi dos locais mais visitados nos pavilhões de animais expostos no Fórum. O Brasil foi representado por uma terneira da Cabanha Catanduva e deixo aqui os meus cumprimentos ao trabalho dos amigos veterinários Dimas Rocha (ABA) e Bernardo Todeschini (MAPA/RS) que enfrentaram e resolveram todos os trâmites legais para realizar a primeira exportação de um embrião de Angus do Brasil para o Canadá. Acompanhei de perto esta jornada e despachar este botijão não foi uma tarefa fácil. 

A participação do Brasil no fórum foi tímida e estivemos representados por um grupo pequeno: Fábio e Fabiana Gomes (Cabanha Catanduva e Delegados da ABA), Alan Amadori e Ivo Tadeu Biachini (criadores de SC) e a equipe da SEMEX Brasil. Aqui cabem os parabéns ao empenho da Cabanha Catanduva em estar presente neste evento e o “puxão de orelha” aos tantos cabanheiros de Angus no Brasil que não se fizerem presentes. Se nosso negócio é o Angus e esta é a “copa do mundo” da raça como podemos não estar lá? Queremos ser do grupo de elite ou da segunda divisão? Os paysanos argentinos estavam com forte delegação. Foram até patrocinadores do evento. Provavelmente importarão genética canadense e nos venderão por bom valor os filhos... 

A expressão do Angus vermelho no Canadá é uma peculiaridade. Provavelmente é lá que esta variedade tem mais expressão no mundo e de lá temos a grande fonte de genética de Red Angus. Na exposição do fórum quase metade dos animais eram vermelhos e temos algumas explicações para isto: é forte a base de raças como Hereford, Charolês e Simental na composição do gado de cria canadense e estes criadores tem preferência pela variedade vermelha para uso em cruzamento. Por mais estranho que soe, o novilho “fumaça” (cinza) resultante do cruzamento de Charolês com Angus preto é um produto preterido no mercado canadense. Assim sendo, o Red Angus é muito utilizado nos programas de cruzamento e fortalece-se a cada ano. 

No Brasil, e especialmente no Sul do Brasil, a genética Canadense é criticada ou rotulada como genética de animais muito grandes (exigentes) ou voltada somente para o “show”. De fato, existem criadores que buscam animais de frame grande e o negócio das exposições é bastante forte neste país, mas minha percepção mudou muito com esta visita e pude perceber claramente que o rótulo que damos a genética canadense não é o mais apropriado. A preocupação com a eficiência dos rebanhos é grande, a busca de vacas “econômicas” é uma constante, o entendimento médio sobre melhoramento é alto entre os criadores e a disponibilidade de reprodutores que devem nos servir muito bem é uma realidade. Nas visitas as centrais de inseminação identifiquei alguns touros que muitos brasileiros podem até achar pequenos demais. Este exemplo nos mostra que muitas vezes repetimos “frases prontas” ou conceitos antigos. 

Em relação à pecuária canadense foi possível ter melhor compreensão através de diversas visitas que fizemos em um tour pós-fórum. Nossas visitas foram limitadas ao estado de Alberta, mas foi possível entender o “formato” mais usual do sistema de produção deles: produção muito intensiva, alta mecanização e automação, integração agricultura-pecuária, mão de obra baseada na família e com empregados em raras exceções ou em módulos maiores. Esta situação dos proprietários com a “mão na massa” é a raiz das grandes diferenças da nossa pecuária e da deles. Como é o dono que executa todas as funções com o gado ele não aceita manter uma vaca que tenha problemas de parto (pois ele terá que trabalhar de noite ou no frio), ele não aceita uma vaca de mau temperamento (pois é a vida dele que está em risco!), ele identifica com facilidade que animais ou famílias que desempenham melhor no campo ou no confinamento e assim segue-se uma lógica favorável a uma adequada seleção. De outra parte, o rigor dos invernos (com temperaturas inferiores aos 20 graus negativos) faz com que o planejamento e a eficiência na produção de alimento sejam fundamentais e apesar do tempo ser contra o negócio ele leva a uma grande profissionalização da atividade. 

O Fórum Mundial de Angus foi um grande evento e os canadenses foram grandes anfitriões. Meus agradecimentos a empresa SEMEX, a mais importante provedora de genética bovina canadense, que viabilizou a minha participação nesta viagem.

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