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Rankings e Sumários

Genética | 30 de Abril de 2011
William Koury Filho*
Publicado na Revista AG Abril/2011 

A proposta deste artigo é exercitar a compreensão entre o resultado do ranking de reprodutores da raça Nelore e sua relação com as avaliações genéticas. Um dos pontos em comum entre ambos é terem se transformado em acirradas competições, na busca frenética do Topo, do TOP e do POP. 

A escolha pela raça Nelore para esta reflexão foi por esta oferecer dois sumários em que os reprodutores, objeto de estudo, apresentam alta acurácia nas estimativas de DEPs.
Na última atualização do colegiado de jurados promovido pela ABCZ, em fevereiro, saudáveis colocações foram apresentadas. Ao chamar a atenção sobre os riscos do gigantismo, o Dr. Enoch Filho apresentou exemplos do problema em inúmeras raças bovinas e até em outras espécies animais. Ainda mais preocupante foram as colocações do dr. Antônio Rosa, que expressou o risco do rebanho chamado de “elite” se descolar da pirâmide que representa a pecuária de corte no País.
O alerta dos pesquisadores diz respeito a duas situações freqüentes. Primeiro: técnicos e criadores,
nos bastidores, criticam vacas de mais de uma tonelada, embora tais matrizes, muitas vezes, sejam progenitoras de animais destacados nas pistas. Segundo: vários profissionais relatam publicamente que, no momento de acasalar, trabalham com duas linhas bem distintas: uma para pista e outra para o pasto.
Diante do exposto serão apresentados alguns questionamentos e esclarecimentos sobre pistas de julgamento e avaliações genéticas.

Conhecendo as DEPs

As DEPs utilizadas neste estudo são informações públicas e podem ser obtidas nos sites da ANCP e ABCZ. Aqui, em razão de ser mais didático apresentar como os touros estão perante o programa, a qualidade genética não está representada por valores das DEPs. Foram utilizados os “TOPs”, que é o percentil que o animal ocupa em relação à população, a base avaliada.
Interpretar o TOP é bem simples: se o animal é 0,1% significa que é melhor em cada 1000, se é 1%, melhor a cada 100 outros animais considerados na base do programa, se 10% ainda está na frente de 90% da base avaliada. Se é de 51 a 100%, significa que está entre os piores para a característica ou índice. Os valores dos TOPs, que são diretamente associados às DEPs, foram destacados por diferentes cores, metodologia que facilita a leitura de qualidades e limitações genéticas de um
animal numa rápida batida de olho.
Os TOPs de 0,1 a 1% foram destacados pela cor azul, e significa que são excepcionais para a característica em questão; de 2 a 10% pelo verde, significando que são muito bons; de 11 a 29%
pelo branco, dizendo que são bons; de 30 a 50% de amarelo, alertando sobre a característica; e de 51 a 100% pelo vermelho, indicando animal abaixo da média. Somente foram consideradas
DEPs com acurácia acima de 50%. O alerta fica sobre o cuidado ao interpretar DEPs específicas, pois a característica em questão pode não ser um problema para raça ou para o rebanho em
particular (Tabelas 1 e 2). A primeira DEP apresentada é a Maternal (MP120), avaliada através do peso aos 120 dias de idade, no qual se estima a produção de leite que deverá ser transmitida para os descendentes, manifestado no “ambiente materno” das filhas do touro e refletindo nos netos. Touros com valores altos nas DEPs são os mais indicados para produção de fêmeas de reposição boas de leite.

Em média, os líderes de sumário estão amarelos para esta característica, TOP 42% PMGZ e TOP 50% na ANCP. As DP240 e DP210, analisadas pelos pesos padronizados aos 240 e 210 dias, avaliam a capacidade de crescimento dos bezerros. São indicadas DEPs elevadas, pois não se consegue um “boi”, ou prenhez precoce, sem que se tenha um bezerro bem desmamado.
Nesse quesito, os touros mencionados estão muito bem. Destacados em verde, são em média TOP 3% e 10%, respectivamente no PMGZ e ANCP.
Para os pesos padronizados aos 420 e 450 dias, que expressam o potencial de ganho em peso no período pósdesmama, animais com DEPs elevadas são os mais indicados. Para essas características, os reprodutores citados possuem também média muito boa, 4% PMGZ e 12% ANCP.
O Perímetro Escrotal aos 420 e 450 dias (DPE420 e DPE450), além de fácil mensuração, possui herdabilidade de média a alta magnitude, e apresenta associação genética favorável com precocidade sexual e fertilidade. Para esta característica os líderes do ranking, em média, amarelaram no PMGZ (TOP 31%) e avermelharam na ANCP (TOP 65%).
Os índices genéticos neste estudo são: IQG (índice de qualificação genética) – PMGZ e MGT (mérito genético total) – ANCP. Ambos buscam o melhor balanço entre as DEPs estimadas, mas ainda são empíricos e definidos sem a realização de estudos específicos para retorno econômico (Tabelas 3 e 4).
Para o IQG, os líderes de sumário são muito bons, em média TOP 3%, e para MGT bons, TOP 24%. Baseado somente nos índices, a interpretação de que está tudo bem pode ser equivocada, levando a crer que ranking e avaliações genéticas estão caminhando harmoniosamente na mesma direção. As DEPs de pesos para efeito direto evidenciam que esses reprodutores apresentam grande potencial para crescimento, bem como nos índices, principalmente o IQG. Outro ponto que cabe interpretação é a estrutura dos dados que compõe o arquivo analisado pelos programas,pois o resultado das DEPs pode levar a interpretações equivocadas de alguns touros, principalmente os de sêmen mais raros. Tais reprodutores podem ter tido acasalamentos privilegiados, assim como pré-seleção das progênies informadas para os centros de processamento das avaliações genéticas.

Composição de Peso

Para melhor interpretação das características genéticas dos touros líderes de sumário, serão apresentados resultados de outro grupo de DEPs analisadas pela ANCP (Tabela 5).

DEPs morfológicas (ANCP–SAM®)

Primeiramente, é preciso entender um pouco sobre as DEPs morfológicas. Os dados de EPM (Estrutura, Precocidade e Musculosidade) à desmama são ajustados para 210 dias de idade, e os de sobreano para 550 dias. São informações coletadas com o padrão de qualidade ANCP – SAM, que já analisou mais de 100 mil escores visuais. 

1) Estrutura Corporal (E) ao Desmame e Sobreano (Ed e Es) são DEPs
que sinalizam o tamanho. DEPs mais elevadas indicam que o touro deverá gerar produtos “grandes”, enquanto os valores baixos correspondem às estimativas de progênies de menores tamanhos. 

2) Precocidade (P) são DEPs analisadas pela relação entre a profundidade de costelas e altura dos membros, considerando ainda a prega da virilha. Maiores profundidades de costela e virilha mais baixa apontam para o biotipo que tende a ser mais precoce em acabamento e sexual. Animais com DEPs mais elevadas são indicados, principalmente, para sistemas de produção a pasto. 

3) Musculosidade (M) são DEPs obtidas por escores baseados na distribuição, volume e comprimentodos músculos. Animais com DEPs mais elevadas são indicados, tendo em vista à produção de progênies com maior rendimento de carcaça. As DEPs morfológicas devem ser interpretadas em conjunto, com uma visão simultânea do que se espera na progênie para E (tamanho), P (comprimento de costelas) e M (arqueamento de costelas e evidência de massas musculares). A interpretação do “desenho” das progênies dos reprodutores na cocheira e no campo pode ser uma grande ferramenta para ajudar o entendimento do desempenho dos diversos biótipos em diferentes sistemas de produção. 

Os escores de EPM atribuídos ao indivíduo são sempre relativos ao seu grupo de manejo, onde eles podem se enquadrar como cabeceira, meio ou fundo para cada uma das características de E, P e M. Assim, animais que não expressam tamanho recebem notas baixas para E; se não expressam costelas profundas, notas baixas para P; e caso não expressem arqueamento e evidência de massas musculares, o escore de M será baixo. Podemos concluir que, em média, as progênies dos touros na fase de desmama apresentam: tamanho bom Ed 22%, pouca profundidade de costela e virilha mais alta Pd TOP 56% e Md mediana, TOP 31% e amarelo. Já na fase de sobreano, em que não dispõem do leite materno, e que já passaram por um período de seca, os animais demonstram serem menos adaptados ao sistema de produção ao apresentarem desempenho ainda piores. Para Es são em média TOP 32%, destacado em amarelo, para Ps 70% em vermelho e para MS também em vermelho, TOP 64%.
DEPs de carcaça Os dados de ultrassonografia seguem um padrão de qualidade internacional preconizado
pela AVAL, parceira da ANCP. 

1) Área de Olho de Lombo (DAOL), obtida em idade de 576 dias. Está relacionada com o rendimento da carcaça. Animais com DEPs médias a altas são preferidos. Os líderes do ranking apresentam média TOP 53%, cor vermelha. 

2) Acabamento de Carcaça (DACAB) a DEP do touro a ser preferido vai depender do sistema de produção. Os touros líderes do ranking apresentam média TOP 72%, cor vermelha.

Conclusões
Fica evidente que, em média, os campeões do ranking são bons para DEPs de crescimento relacionadas ao tamanho e ao peso, mas deixam a desejar na funcionalidade, adaptabilidade e retorno econômico, tais como nas DEPs maternais, de perímetro escrotal, morfológicas e de carcaça.

Últimas reflexões
Retornando a colocação feita no simpósio da ABCZ sobre o risco do gado de “elite” se descolar da pirâmide produtiva, é oportuno lembrar casos de outras raças bovinas para que não aconteça com o Nelore.
Quem não se recorda de alguma raça taurina continental, que impressionava com indivíduos enormes e pesadíssimos nas exposições. Embora fosse um “belo” show, não tinha grande função na pecuária brasileira. Se limitava a atender uma pequena população em volta das pistas de julgamento.
Observa-se, atualmente, uma crescente procura e aumento nas médias de preços dos touros CEIP. Programas como a Conexão Delta G, CFM e Qualitas, mesmo sem registro da associação, apresentam eficiência produtiva e econômica. Os resultados estão sendo clientes satisfeitos e fidelizados. Muitos rebanhos Nelore PO também estão em evidência no mercado, ofertando reprodutores funcionais e produtivos, porém, diferentes da genealogia dos campeões de pista. O que faz uma raça forte é a possibilidade de sua genética atingir uma boa fatia do rebanho comercial, uma base de aproximadamente 70 milhões de matrizes, sendo 45 milhões Nelore e aneloradas. Um bom exemplo, além do Nelore funcional, é a raça Angus, que possui características e funções tão bem fixadas, que conquista cada vez mais um mercado exigente. Se a genética de pista não gerar reprodutores eficientes a campo, seu mercado ficará restrito a uma pequena fatia de “colecionadores”. Criadores e investidores deverão somar forças para que o rebanho chamado de “elite” não se desconecte da pirâmide produtiva.

*Zootecnista e diretor da brasilcomZ.
Colaboraram LucianoBitencourt e Fernando Cancella.
Fontes: www.brasilcomz.com ; www.boicombula.com.br ; www.abcz.org.br  e www.ancp.org.br  

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* As tabelas podem ser melhor visualizadas e ampliadas em: 
http://www.assessoriaagropecuaria.com.br/index.php?secao=conteudo&tipo=1&mostraconteudo=139 

* O artigo pode ser obtido em PDF em: 
http://www.assessoriaagropecuaria.com.br/index.php?secao=conteudo&mostraconteudo=138&tipo=2

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