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O sêmen do touro ou da palheta da Inseminação?

Reprodução | 09 de Novembro de 2013
Por Fernando Furtado Velloso
 
A discussão se a melhor alternativa para reprodução é o uso de touros (monta natural) ou inseminação artificial (IA) pode parecer já bem batida, pois diversos trabalhos demonstram que o custo de uma prenhez por inseminação normalmente é menor que o custo de uma prenhez por monta natural. Dito isto, podemos encerrar o assunto? Creio que não, pois quando fazemos somente esta comparação financeira consideramos que as propriedades rurais são iguais e estas não são. O trabalho em assessorar produtores de touros é a minha atividade por muitos anos e poderão pensar que estou defendendo a minha atividade. Tentarei neste artigo trazer algumas questões que são desconsideradas em muitos comparativos “Touros x IA”. 
Abrangência da Inseminação Artificial: conforme dados da ASBIA, existe uma estimativa que menos de 10% das vacas de corte do Brasil são emprenhadas via inseminação. Foram vendidas em 2012 aproximadamente 7 milhões de doses de sêmen de raças de corte para um universo de mais de 55 milhões de vacas de cria. Desta forma, não podemos desconsiderar a importância dos touros em nossa pecuária, sendo estes responsáveis por mais de 90% dos animais nascidos por ano. A inseminação traz grande contribuição ao melhoramento genético de nosso rebanho, porém os grandes responsáveis pela produção de carne seguem sendo os touros (e muitos são filhos de IA).

Vantagens da Inseminação Artificial: são inegáveis os diferentes ganhos produtivos obtidos através da inseminação, e especialmente através da IATF (Inseminação Artificial a Tempo Fixo).  Os benefícios atingem melhor taxa de prenhez, concentração da parição, uniformidade de lotes, maiores pesos ao desmame, etc. Um trabalho do pesquisador Cutaia (Argentina), comprova que a IATF permite desmamar terneiros 35 kgs mais pesados em comparação ao uso de touros. Este peso adicional é consequência da idade e genética, porém a genética sozinha corresponde a 14 kgs, ou seja, a mais de R$40,00 por animal vendido no desmame. Este trabalho foi feito com um rebanho definido da raça Angus e os ganhos podem ser bem maiores se pensarmos em cruzamento.

Vantagens do Touro: é característico ainda em nossa pecuária o baixo nível tecnológico de muitos rebanhos de cria e são de nosso conhecimento as limitações de pessoal (disponibilidade e capacitação), de estrutura das fazendas, instalações, de nível de controle dos rebanhos, etc. Ou seja, grande parte de nosso gado de cria está em condições extensivas, e pode-se usar o termo extensivo tanto para as áreas quanto para o sistema de produção. Neste contexto o uso do touro acaba-se tornando a opção mais viável e em muitas situações a única alternativa que de fato irá funcionar. Esta situação é que invalida em muitos casos comparar o custo da prenhez por IA ou por touro, pois parte-se da premissa que é viável realizar (com boa eficiência) a inseminação em todas as fazendas. O bom touro trabalha dias úteis e feriados e ainda não desenvolvemos melhor detector de cio do que ele.

A combinação da IATF + Touros: provavelmente o melhor modelo nos dias atuais é combinação da realização de uma IATF e repasse com touros. Mesmo em propriedades com as limitações já apresentadas é possível contratar uma equipe técnica para realizar o programa e assim ampliar o número de animais com cios induzidos e acesso a bom material genético. Os custos dos hormônios envolvidos em um programa de indução e sincronização de cio reduziram muito nos últimos anos e o menor número de touros necessários ao rebanho permite a aquisição de melhores reprodutores. Faz poucos anos que os custos da IATF eram comparados ao desembolso para realizar o Desmame Precoce (técnica que permite altas taxas de prenhez), porém atualmente os protocolos hormonais (próximos de R$10,00 por matriz) se tornaram muito acessíveis e competitivos.

Nem tudo que reluz é ouro: pode-se partir do raciocínio que todo o touro de central de inseminação é superior ao touro usado em monta natural. A lógica tem sentido, mas não corresponde integralmente a verdade. Existem nas centrais doadores de sêmen jovens (não provados) e alguns que são somente animais de bom tipo, premiados em exposições, etc, mas que não entregarão produção superior. Lembre-se que a inseminação é somente uma técnica que permite usar genética superior, mas não é todo o sêmen comercializado que atende a este quesito.  Sendo assim, usar amplamente inseminação com touros não provados pode ser um grande risco e até trazer resultados bem inferiores ao uso de bons touros em monta natural. 

Sou entusiasta da técnica e da tecnologia, porém é nossa obrigação enquanto profissionais de assistência técnica compreender a adequação do que é o melhor a ser feito e o que pode ser feito. A máxima de que o “bom” é melhor do que “ótimo” em muitas vezes segue valendo, pois no caso de emprenhar vacas o bom já é um grande avanço em nossos indicadores médios. Os touros têm grande função e impacto em nossa pecuária e para que eles possam fazer boa dobradinha com a inseminação artificial devem ser reprodutores bem selecionados, leia-se: registrados, preferencialmente com avaliação genética (Dupla Marca, CEIP, superiores em sua geração) e com correção estrutural (o nosso olho dirá). Para que não fique à impressão que defendo somente a bandeira do uso de bons touros em monta natural, assumo que nos plantéis que trabalho temos sempre como um grande meta a inclusão de nossos touros nas baterias das centrais de inseminação. 

Em recente jantar em Rivera (Uruguai) com o amigo, e filósofo da pecuária Juan Marco Berruti, chegamos quase a conclusão de que o sêmen do touro produz melhores terneiros do que o sêmen do mesmo touro dentro da palheta. Bom, isso já é conversa de bar e um pouco de causos e folclore para a nossa vida.
(Outubro, 2013)

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