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O Braford e a Heterose (por Ricardo P. Duarte)

Genética | 31 de Janeiro de 2014

Ricardo P. Duarte

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Ricardo P. Duarte - Cabanha Touro Passo 

A Cabanha Touro Passo não é criadora de Braford, apesar de eu presidir o Núcleo Fronteira Oeste de Criadores na ocasião da formação da raça e estar entre os oito ou nove integrantes do grupo que participava das discussões e planos para sua construção. Em consequência, não apenas uma testemunha da criação da raça Pampiana-Braford, mas, para todos os efeitos da sua história centralizava os acontecimentos que marcaram o seu nascimento.

Sempre afirmo que o modelo do tipo bovino New Type, produzido nos EUA para as raças Hereford e Angus, teria anulado os estímulos à criação das raças Pampiana-Braford e Brangus se aqui tivesse chegado alguns anos antes, porque teria destruído o principal argumento de sua necessidade, corrigindo o tamanho do gado como o fez posteriormente. A raça Pampiana-Braford foi idealizada para o povoamento de campos do Rio Grande do Sul, suprindo necessidades que a raça Hereford apresentava em relação ao meio na década de 1980. Em primeiro lugar o tamanho pequeno de então, fruto do quase nanismo em que se transformara por uma filosofia de seleção equivocada. Só depois o demais: maior rusticidade em relação ao pastoreio em campos pobres e resistência ao carrapato.
De todos os modos, inventar o Braford no Brasil visou naquele momento (1983) incrementar a população bovina local. Não tanto do Rio Grande do Sul, que nas regiões serranas e missioneiras o zebu já estava incorporado aos rodeios comerciais de longa data, mas principalmente na Fronteira onde o gado europeu de qualidade carniceira, introduzido no estado pela facilidade da inexistência de acidentes geográficos significativos nos limites de Brasil e Uruguai, sofria grande pressão com cruzamentos indiscriminados. Criar o Braford foi uma forma de impedir que os criadores, fugindo dos problemas de tamanho do Hereford de então, destruíssem por completo sua genética extirpando dos nossos campos as suas excelentes qualidades. O esquema 5/8 Hereford e apenas 3/8 zebu, por si só, afirma a vontade de manter a dominância da genética Hereford. Adicionar menor quantidade de genes zebuínos tentava colocar algumas qualidades específicas do zebu, sem interferir em demasia nas virtudes do gado Hereford na construção do animal resultante.
Na primeira metade do século XX uma famosa atriz americana teria escrito a Albert Einstein propondo que se unissem para produzir um filho, pois, sendo ela tão bela e ele tão inteligente, pensava poderem gerar um ser que reunisse essas duas qualidades; o cientista teria declinado do convite porque receava que a criança saísse com a beleza dele e com a inteligência dela.
O grupo idealizador da Pampiana-Braford teve mais sorte do que juízo: o Braford apresenta construção física com volumes de carnes semelhantes às do Hereford e não do zebu. A nova raça, então, instalou-se e expandiu-se pela facilidade de manejo nos rodeios numerosos das grandes estâncias e, por sua resposta positiva - principalmente em fertilidade, dada pela rusticidade e resistência ao carrapato – ocupou os espaços deixados pela dispersão dos Herefords.
A raça Braford, no entanto, é fruto de um bi-mestiço matematicamente idealizado em 5/8 Hereford e 3/8 zebu, cumprindo nossas necessidades de produzir um animal bovino pensado para a região onde estávamos naquele momento e até hoje estamos.
Buscando na raça Hereford, de acordo com as teorias morfológicas de fertilidade, animais de pouca barbela e couro apegado a um pescoço cilíndrico, aventei aos meus companheiros dessa aventura genética a possibilidade de termos animais diferentes desse visual porque uma das características mais marcantes do Nelore, contando pontos para seu julgamento nas pistas, é a barbela bífida em bandeira. A pergunta que fiz sobre como os animais se mostrariam nesse particular não tinha condições de ser respondida naquele momento. Agora, quando criadores e jurados tentam fixar um tipo físico da raça é preciso definir como os animais devem se apresentar aos olhos, em razão da pele ser o mais extenso órgão de seu corpo e ter a responsabilidade de controle térmico, conservando-os aquecidos no inverno e refrescados no verão.
Pela maior extensão de pele, os zebuínos, com glândulas sudoríparas que os beneficiam sobremaneira no verão, sofrem demais, no entanto, no inverno, requerendo maior volume de alimento para manterem estado. Portanto, qualquer desvio morfológico nos animais influi na economia dos criadores e precisa ser considerada pelos jurados no momento de um certame. Não tenho conhecimento de qualquer citação na literatura mundial que acuse a presença dessas glândulas na raça Braford.  Se o Braford não tiver glândulas sudoríparas não adiantará selecionar animais com grandes sobras de couro a dar-lhes barbela e papada semelhante ao zebu, dando-lhe também, em consequência, maior volume de prepúcio, por exemplo, e maior área de pele exposta ao frio no inverno. É preciso comparar o aumento de pele com a presença ou não de glândulas sudoríparas.
No que tange à genética, verificando da presença ou não dessas glândulas, há que saber se podem acontecer com genes de zebuínos Nelore, Guzerá, Brahman, etc., que podem atuar de forma diferente na mistura com o gene Hereford.
Vozes esporádicas afirmam eventualmente que um bovino Braford para o Brasil Central deveria inverter o grau de sangue para 5/8 zebu 3/8 Hereford. Acredito; mas não seria então um animal da raça Braford como está registrada no Ministério da Agricultura. A Associação Brasileira de Hereford e Braford deveria preocupar-se em criar essa variedade e registrá-la para manter o controle dos futuros rodeios surgidos Brasil acima. É preciso recordar disso quando os criadores de Braford multiplicam em número e ampliam o círculo comercial com vistas a vender touros ao Brasil Central.

Fato
Perguntei a um excelente criador de Braford de Uruguaiana e vencedor de inúmeras exposições da raça, como estava a sua cabanha que eu não vira nos últimos certames. Respondeu-me que abandonara a atividade porque quase todas as pessoas para quem costumava vender touros haviam se transformado em cabanheiros e estavam concorrendo no mercado, vendendo mais baratos animais com menor grau de cuidado genético.
Impossível não perceber a injustiça contra um criador pioneiro, que recorreu todo o processo de graus de sangue preconizado pelo nosso grupo para chegar ao 58/38, cometida por alguém que sirva uma vaca pura com um touro ¾ para expor nos bretes de remates animais com maior heterose. Medida comercial simples, que destrói o trabalho de um verdadeiro geneticista; medida também irresponsável, porque os incautos usuários desses touros certamente desconhecem que produtos de heterose não podem garantir geneticamente os resultados deles esperados.

O problema
Assim como no campo é dada facilidade à aventura genética para novos criadores, permanecem nas exposições resquícios de um equívoco em seu nascedouro.
No início dos cruzamentos o grupo do qual eu fazia parte, enfrentando a realidade de que os criadores gaúchos em geral adquiriam touros zebuínos vindos do centro do país sem discriminação de raças em que concorriam tanto Nelore como Guzerá e Gir (e até mesmo cruzados entre si), aceitou que animais Hereford puros fossem servidos por zebuínos de qualquer raça, entendendo que o móvel de nosso plano era a melhoria dos produtos da raça Hereford. Um ou dois anos depois, a adesão do criador Rubens Vasconcellos com seus animais “Santa Clara” à nova raça  - que até então se chamava apenas Pampiana -, incluía no rol de possibilidades genéticas a Mocho Tabapuã.
Na Fronteira, apesar de o Professor Pedro Surreaux, conselheiro de nosso grupo, ser apologista da raça Guzerá, é certo que a maioria dos criadores progressistas concorrentes ao projeto, valendo-se desde logo da inseminação artificial em suas vacas, tiveram tendência comum de utilizar apenas a raça Nelore, mais numerosa e eficiente, que logo, pelo desenvolvimento da pecuária no Brasil Central, se tornou possivelmente o melhor zebu do mundo. Aceita no início a miscigenação com diversas possibilidades raciais, a lógica conduzia os cabanheiros para uma natural homogeneização da Pampiana-Braford no binômio Hereford/Nelore e firmava-se na Fronteira o trabalho genético dos criadores de Braford porque o país que possui o melhor zebu do mundo poderia ter em consequência o melhor Braford do mundo. Mas com a multiplicação de criadores, no sucesso da nova raça, surgiram na década de 1990 imediatistas dedicados a encurtar distância e tempo na genética. Simultaneamente, a integração com criadores do outro lado do rio Uruguai, e a criação da Federação Braford do Mercosul, incentivou alguns criadores ao aproveitamento da raça zebuína Brahman, responsável, nos Estados Unidos, pelo nome internacional da raça, esforçando-se para manterem-se próximos aos parâmetros estrangeiros, americanos ou argentinos.
Fruto disto, na maioria das vezes concorrem em exposições animais Braford formados a partir de Nelore e outros a partir de Brahman, mesmo sem aumentar o problema com alguns escassos indivíduos feitos a partir de Mocho Tabapuã, por si só também um bi-mestiço.

Por que, “problema”?
Porque, fruto de uma indecisão no início da formação da raça e da falta de atenção dos técnicos no seu desenvolvimento, os jurados das exposições são obrigados a julgar como iguais a animais diferentes. Pelo menos até o momento em que a Associação Brasileira de Hereford e Braford, ou o Ministério da Agricultura, que detém a autoridade sobre o assunto, encare a necessidade de homogeneizar a concorrência, evitando que um three-cross concorra com um bi-mestiço, e estes com um animal puro de sétima geração. Porque a utilização de touros produzidos com sangue Nelore sobre ventres feitos com Brahman, e vice-versa, implica em última análise na introdução de uma terceira raça em mestiçagem e consequente hibridismo a favorecer o preparo e desenvolvimento dos animais.

Soluções
Depois de vinte e sete anos de marcação dos primeiros animais meio sangue para construção da Pampiana-Braford (Estância Nova Aurora, 07 de outubro de 1983), é hora de tomar medidas técnicas para organizar a definitiva implantação da raça, com o fechamento dos livros de registro ao ingresso de novos animais.
Há número suficiente de criadores e de ventres Braford no Rio Grande do Sul para permitir o fechamento do registro para animais meio sangue. Enquanto aberto o registro facilita oficialmente a inclusão de novas fêmeas na raça e alguns criadores pouco criteriosos conseguem, com dois ou três cruzamentos genéticos apenas, obter touros para vender, atrapalhando o trabalho sério dos cabanheiros estabelecidos.
Quanto à heterose, geraria uma grande polêmica e desgaste político manter em separado os rodeios que se utilizem de uma ou outra tendência genética, impedindo a convivência comercial entre seus proprietários. Temos de conviver com a realidade do universo criado até o momento, mas será preciso manter o registro futuro somente para animais oriundos de padreação com touros Braford 58/38, com o que se promoverá gradativa diluição dos genes diferenciados na raça.

Desdobramentos na raça Hereford
O número de ventres Braford supera de muito aos ventres Hereford puros no Rio Grande do Sul. Os ventres Hereford PO são bastante mais reduzidos ainda. Copiando a tendência imediatista dos criadores que encurtaram caminho na raça Braford, começa um movimento entre criadores de Hereford pedindo a inclusão de animais PC nas pistas de exposição onde concorrem apenas puros de origem. É uma tentativa evidente de substituir uns e outros nos registros de mérito, fazendo com que no futuro os criadores prescindam de animais Puros de Origem, optando pelos Puros Por Cruza da criação daqueles que não se conformam, hoje, em ver premiados, seja em troféus, seja em termos financeiros, os cabanheiros que mantiveram intacto o Puro de Origem na nossa terra.
Eis aqui, novamente, o exemplo de uma medida comercial simples que destrói o trabalho de um verdadeiro geneticista.


1  Artigo no Suplemento de Agropecuária do Jornal do Comércio de 11 de setembro de 1984 trazia a entrevista com o Presidente da então Associação Brasileira de Hereford e Polled Hereford, Luiz Carlos Velloso Brum, dizendo que “a Associação vai começar, a partir desta primavera a tatuar ventres cruza, F1 e, possivelmente F2”, relatando com entusiasmo “a adesão do criador Rubens Vasconcellos, da Santa Clara, que vai trabalhar junto com a Associação. (...) Agora a Cabanha Santa Clara vai se incorporar à Pampiana sendo que os animais, por sugestão da Associação, serão denominados raça Pampiana, variedade Santa Clara”. (nota do autor)

Publicado em 04 de junho de 2010 
 

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