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RAÇAS: modas, religiões, paixões e mercado

Genética | 08 de Março de 2014
As raças de gado em qualquer lugar do mundo são tema de grandes discussões (acaloradas muitas vezes) entre pecuaristas e técnicos. Defendem-se raças como defendemos time de futebol, ideologia política e religião. Parece brincadeira, mas quem é do meio sabe que é bem mais ou menos assim.

Como ocorre a definição do uso de uma raça?

Porque no Brasil a raça Nelore é predominante e no sul do país temos o Angus como a raça líder? Porque nos Estados Unidos o Angus é dominante? Porque no Uruguai e Argentina predominam o Hereford e Angus e o zebuíno quase não tem expressão? Porque na Austrália aparecem com destaque além de Angus e Hereford os sintéticos Santa Gertrudis e Droughtmaster? E na Europa, porque raças tão diferentes? Pois bem, vamos avançar nestas questões e outras relacionadas às raças neste texto.

Não há como contestar que a natureza é soberana e que algumas raças são bem mais eficientes em certos ambientes. Nas condições subtropicais do Brasil (combinação de calor e umidade) o Nelore é insuperável. Foi inicialmente selecionado para sobreviver a agora vem sendo selecionado para ser resistente e muito produtivo. Em algumas situações os animais cruzados e sintéticos desempenham bem nas mesmas condições que o zebuíno, mas em sistemas de produção especializados (ex: cruzamento terminal) ou propriedades mais tecnificadas. Fala-se muito em tolerância ao calor, mas o problema para as raças europeias não é só a temperatura, mas a presença de umidade (nosso caso). Rebanhos Angus, Hereford, Simental e outros são bem eficientes no México e África do Sul, mas lá é seco meu amigo, desértico em alguns locais. Repetidamente vemos ciclos de tentativas de introdução de raças não adaptadas em certas regiões.  A lógica acontece e estes projetos não avançam. São modismos de curta duração e quando se olha para trás não se entende como ocorreu. Tipo blazer com ombreira (era bonito demais).

Com o segundo posto de importância no ranking de escolha de raças está o mercado, pois os pecuaristas que estão nesta atividade com propósito produtivo e comercial miram sempre a rentabilidade. Aí entram grandes diferenças entres os países já citados. Os Estados Unidos tem um sistema de classificação de carcaças que diferencia muito os animais conforme a qualidade da carcaça (maturidade, peso, gordura, marmoreio, relação músculo: gordura, etc) e assim a escolha da raça passa a ter mais importância, pois o mercado está solicitando uma especificação de produto e esta será alcançada com a combinação de raça e sistema de produção. O direcionamento dos Estados Unidos para a produção e valorização de carnes Choice e Prime respondem por grande parte do crescimento da raça Angus. Na Austrália, onde o mercado internacional é o principal destino da carne de qualidade (Japão e Coreia) a grande exigência por carcaças pesadas e marmorizadas direciona a escolha de raças pelos confinamentos e consequentemente pelos criadores. Para o mercado doméstico as especificações são distintas (carcaças mais leves e menos gordas) e assim outras raças podem ser usadas, porém ocorre especialização do produtor para o mercado A ou B. No Brasil a grande maioria da carne produzida (aprox. 85%) é destinada para o mercado doméstico e os padrões exigidos são baixos ou inexistentes. A classificação de carcaças para fins de compra dos animais ainda não é o mais usual e o sistema mais corrente é o pagamento por peso de carcaça ou até por peso vivo. Naturalmente que esta situação não pressiona o pecuarista a buscar genética para isto ou para aquilo do ponto de vista de composição de carcaça e qualidade de carne. O Uruguai possui mais anos de praia que o Brasil no mercado internacional de carne e para sustentar a posição de exportador de carne de qualidade teve que padronizar seu rebanho em Hereford e Angus. De outra parte, em sistemas pastoris (com períodos de restrição alimentar) a cria destas raças é mais eficiente que com as continentais.  Na Europa as raças de corte tem uma função bem distinta das nossas, pois são selecionadas para cruzamento com raças de leite e assim justificam-se raças como o Limousin, Blonde D`Aquitane, Belgian Blue e tantas outras com hipertrofia muscular, pois o objetivo é adicionar músculo em matrizes leiteiras grandes suficientes para parir um bezerro de qualquer genética. A matriz do rebanho europeu é o inverso da nossa e a grande população de bovinos é de gado de leite e a carne vem daí. Esse é um dos motivos para o Angus na Escócia ou Inglaterra ser tão grande quanto um Charolês. Os subsídios da pecuária europeia também geram algumas distorções na escolha das raças.

O sistema de produção é um determinante importante da eleição de raças. Em sistemas muito extensivos, onde a rusticidade (leia-se “tolerância à fome”) é fundamental a raça quase pouco importa, pois estando adequadas ao ambiente as diferentes raças desempenharão de forma muito similar, ou seja, produzirão muito pouco.  O rebanho de cria formado por raças ou biótipos menores sofrerá um pouco menos e reproduzirá um pouco mais, porém o nível geral de produção da fazenda ainda será muito baixo. Já na situação oposta, onde o sistema é intensivo (e o acelerador está no fundo com apropriada ou alta disponibilidade de alimento) a raça passa ter grande importância, pois algumas desempenham bem e respondem ao insumo recebido e outras medianamente ou até abaixo do mínimo desejado. No momento que o pecuarista usa de ferramentas como a suplementação ou confinamento ele passa a dar mais valor para a genética, pois a diferença existente entre as raças aparece, saltam aos olhos, seja em fazendas mais ou menos organizadas. Naquelas propriedades onde os indicadores zootécnicos são bem medidos e utilizados a questão fica mais evidente e a definição por uma raça ou outra se dá de forma mais rápida e consistente. Assim como acontecem nas propriedades acontecem nos países e naqueles que a pecuária é mais intensiva e profissionalizada a questão das raças é mais bem estabelecida. A cria nestes países também é mais intensiva. Quando os EUA passou a colocar as fêmeas em reprodução com 1 ano os problemas de parto surgiram como uma grande questão e assim aumentou a população de animais Angus (e Red Angus) e diminui a participação do Hereford e diversas raças continentais. A afirmativa faz tanto sentido que até hoje nos EUA a característica mais valorizada para a compra de touros Angus é a facilidade de parto.

Os modismo e paixões estão sim presentes na escolha das raças, mas estes vêm ficando cada vez mais em segundo ou terceiro planos. Criar a raça que a família criava no passado, a raça que considero mais bonita ou outras justificativas vai ficando com pouco sentido. Algumas raças com pouco criadores vão ficando “pequenas”, pois mesmo com grandes qualidades genéticas em sua origem, estes grupos raciais não conseguem competir (no mercado e no campo) com raças que vem fazendo trabalho contínuo de seleção e melhoramento.  Ano a ano as distâncias em população selecionada e uso de tecnologia vão tornando menores as raças menores. As raças tem suas cores e trejeitos, mas não esqueça que a mão do homem (através de suas associações) é que faz uma raça forte, eficiente no campo e apropriada para o mercado. Tanto é verdade a importância do homem neste processo que a África do Sul desenvolveu raças voltadas para adaptação naquele ambiente. Poderia lá estar dominante o Nelore ou os sintéticos (Brangus, Braford, etc), mas a competência dos homens envolvidos produziu novas raças como o Bonsmara, o Senepol, etc.

Aos que esperavam que eu iria aqui defender alguma raça, desculpas pela frustração. Sou um entusiasta do assunto raças, genética e melhoramento animal, porém cuido para a que a sujeira dos óculos não distorça muito a visão prática que devemos ter sobre este assunto. Tudo tem um porque e é bom demais pensar e estudar estes porquês.

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