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Quero produzir touros. Será mesmo? (Por Fernando F. Velloso)

Informação | 14 de Setembro de 2015


Por Fernando F. Velloso (Med. Vet, Assessoria Agropecuária) 


O ingresso de novos produtores na atividade de genética é uma constante. Os motivos são vários: afinidade pelo assunto, curiosidade, alguns por acharem bonito ou até chique. O entusiasmado novo selecionador já fica matutando o adesivo Da cabanha e o nome em espanhol (La Cabaña, Criadero Talicosa, El Toro e por aí vai). Brincadeiras à parte, a ideia deste texto é refletir sobre o processo de entrada (e saída) de pecuaristas na atividade de seleção de bovinos.

Nos últimos 15 anos, tive a possiblidade de acompanhar os movimentos de ingresso e desistência de diversos criadores no universo da produção de touros, especialmente na raça Angus. A justificativa mais citada é a potencial maior rentabilidade comparada com a pecuária comercial. Em segundo plano, muitos justificam que farão um projeto diferenciado em relação a tudo que já existe no mercado.

Em função de nosso trabalho, auxiliamos muitos novos investidores que buscavam suporte para formar um plantel. Muitos confiaram em nossa experiência para a aquisição de animais, mas raros queriam discutir o planejamento do projeto. De forma bem simples, listo aqui alguns itens que devem ser considerados na decisão de ingressar ou não na produção de reprodutores (leia-se genética):


Perspectiva de longo prazo
Os projetos de genética demandam tempo. Um plantel novo ou recente no mercado tem mais de 10-15 anos de trabalho. Esta questão precisa ser bem compreendida pelos investidores, pois muitos não têm disposição ou recursos para aguardar o tempo necessário. Do nascimento da fêmea “RP 01” do seu afixo até a venda do primeiro touro “crioulo” são necessários no mínimo quatro anos, na melhor hipótese. Após esse período, vão se acumulando dados e experiência para selecionar geração após geração as melhores matrizes, acasalamentos, etc. Com algumas gerações de bom trabalho, o rebanho vai ganhando diferenciação e melhor posicionamento no mercado. Custa tempo e não há outra forma. Os produtores que estão habituados com o dinamismo e giro rápido da recria/engorda ou dos cultivos agrícolas devem avaliar se realmente é verdadeira a disposição, para dar tempo ao projeto do plantel.


Investimentos para formação do plantel
Os custos com associações, registros genealógicos e serviços técnicos são preocupações recorrentes entre os investidores em genética, porém, estes itens são os de menor representatividade nos investimentos de um plantel. As rubricas mais pesadas em um projeto de reprodutores são a aquisição de matrizes e o custo de produção dos touros.
Como referência de valores, as matrizes registradas PC custam 20 a 40% a mais que uma matriz comercial. No caso de fêmeas PO, os investimentos são maiores e iniciam em 50 a 100% mais que uma fêmea comercial, mas podem alcançar valores bem superiores. Logo, a formação de um rebanho com 100 matrizes registradas custará 120 a 200 matrizes comerciais. Não são poucos os plantéis onde 100 matrizes custaram de 300 a 400 vacas gerais. Assim sendo, temos um estoque bem mais caro que na pecuária comercial, mas não deve ser visto como problema, pois a ideia é trabalhar com “valor agregado”. A venda de matrizes e touros com valores superiores ao gado comercial terá de retornar o investimento.


Custos de produção do touro
A produção de touros demanda mais recursos que a de novilhos e o principal custo é a alimentação. Com novilhos o objetivo é em dois anos produzir animais entre 450-500 kg. No mesmo período, devemos produzir touros com 600-700 kg, pois o tourinho de 500 kg já foi sucesso. Estes 150 kg adicionais do reprodutor para o novilho são o maior custo no projeto e não as taxas, emolumentos, serviços, etc. Como um complicador, o touro tem data certa para estar pronto, pois precisa alcançar o peso meta na temporada de venda (primavera), devendo nascer no período apropriado e estar embalado no balcão também na época certa. Fora da temporada, existem possibilidades de vendas, mas perdendo a janela ótima do mercado.


Incorporação contínua de tecnologia
O touro é um produto com “tecnologia embarcada” e o criador deve estar disposto a investir tempo e recursos nas ferramentas tecnológicas disponíveis para seleção. Os programas de melhoramento (Avaliação Genética – DEPs), a ultrassonografia de carcaças, a participação em Testes de Progênie e Provas de Desempenho, o uso de marcadores moleculares, etc, são alguns exemplos de atividades que o selecionador deverá se envolver. Fora as citadas, outras tantas surgem e vão sendo incorporadas no programa de seleção, mesmo que algumas não se consolidem e sejam interrompidas.
O investimento em touros pais superiores via inseminação e monta natural é também uma premissa de tecnologia a ser contemplada no planejamento dos plantéis. Não há como pretender um rebanho diferenciado usando sêmen comercial ou comprando touros de repasse “médios” ou “baratos”.


Trabalhos de controles, sistemas de informação
Os rebanhos controlados requerem mais trabalho de “escritório” do que os comerciais. As tarefas de controle de nascimentos, pesagens, planilhas, comunicados para registro genealógico, softwares para o rebanho e outros são exemplos das diversas atividades rotineiras. Pode parecer um item simples, mas a vivência no campo nos mostra que muitos não estão preparados ou dispostos a cuidar devidamente destas tarefas. Os casos de rebanhos que “perdem” gerações de animais em função da falta de controles e documentos é algo bastante frequente entre novos investidores.


Promoção, Marketing e Comunicação
A área de reprodutores prevê obrigatoriamente envolvimento com promoção, marketing e comunicação. Pode parecer uma tarefa simples, pois se pode terceirizar para uma agência e pronto. Infelizmente, não é tão fácil assim e para que a sua cabanha seja mais conhecida e reconhecida são necessários mais que folders e anúncios. Uma página na internet é tão necessária quanto a placa na frente do campo, mas pouco valerá sem atualização contínua de informações e sem conteúdo verdadeiramente importante para o cliente. Para muitos, as tarefas de promoção da cabanha são prazerosas, mas para outros não. O importante aqui é compreender a afinidade com o assunto e a disposição para fazer ou contratar quem faça bem feito.


Relacionamento com os clientes
A venda de reprodutores pressupõe uma relação comercial bem diferente da usual com gado para engorda ou abate. Normalmente, a preocupação com o gado geral acaba no carregador do caminhão, mas na venda do reprodutor ela continua. Existem orientações necessárias, mais documentos envolvidos, possíveis problemas pós-venda a serem tratados. Um tema que surgirá invariavelmente será a participação ou promoção de leilões. Este é um assunto tão importante que até merece capítulo à parte.

Acompanhei (infelizmente) diversos projetos que adquiriram matrizes, marcaram fêmeas-base, fizeram as primeiras avaliações genéticas, mas que não chegaram a produzir nem vender os próprios touros. Na maioria das vezes, as causas não foram o mercado ou o clima, mas a desconsideração dos diversos itens abordados até aqui.

Dito tudo isso, pode até se concluir que é desanimador ingressar no mercado de reprodutores. Muito trabalho e muita complicação. Esta não é ideia do texto e de minhas considerações. Sou um entusiasta desta atividade e vejo os itens apresentados aqui como grandes desafios e requisitos que o investidor deve considerar. Se existem mais dúvidas e receios do que a convicção que esta é a atividade a ser investida, não se apure. Dedique tempo para conhecer criadores, fazendas e para ouvir as experiências deles. No mínimo, será suficiente para compreender a complexidade da produção de reprodutores e para valorizar animais diferenciados e bons projetos de seleção. Se a decisão é entrar de cabeça e produzir genética de qualidade, vamos arregaçar as mangas e iniciar o trabalho. Existe um grande universo a ser conhecido, muita troca de experiências para ser feita, países a serem visitados, amigos a serem feitos e, ao adormecer, sentir a realização de construir um plantel e um legado para quem seguirá.


* Publicado na Revista AG, Coluna "Do Pasto ao Prato", Edição de Agosto/2015  

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