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Touros RS: porque o Brangus vendeu tão bem?

Informação | 03 de Janeiro de 2016

Por Fernando Furtado Velloso
Médico Veterinário – CRMV RS 7238
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha



Encerramos mais uma temporada de leilões de primavera no RS. Os resultados foram bastante animadores para a maioria dos leilões e tornou-se mais evidente a diferenciação de alguns rebanhos, leilões e raças. Conforme dados do SINDILER, foram vendidos no estado 5.350 touros de diferentes raças em leilões por uma média geral de R$ 9,7 mil. É muito bom resultado, mas melhor ainda para as raças sintéticas que alcançaram as maiores médias de vendas. No caso da Brangus, a média geral dos touros ficou em R$ 10,3 mil, superando em 6% a média geral do mercado e obtendo mais de ½ terneiro adicional por touro vendido.

Porque o Brangus está valorizado?
Está é um pergunta recorrente entre produtores e profissionais da imprensa rural. Pois bem, trago aqui algumas das justificativas que vejo para esta situação ocorrer de forma mais evidente nos últimos anos.

BASE DO REBANHO DE CRIA NO RS
O rebanho gaúcho passou por um processo saudável de padronização nos últimos anos. Podemos dizer que nos últimos quinze anos, mas mais visivelmente talvez nestes últimos 5 anos. É fácil hoje encontrar diversos rebanhos de gado comercial (produtores de terneiros ou de ciclo completo) com raça ou cruzamento bem definidos. Situação pouco frequente num passado nem tão distante, onde rodeios padronizados restringiam-se basicamente a núcleos de seleção (cabanhas). Esta padronização ocorreu muito com o uso de touros Angus, levando a uma evidente “britanização” do rebanho de cria. Desta forma, as matrizes jovens ou novilhas de nosso gado tem grande participação de fêmeas bem apuradas Angus. Esta é uma percepção pessoal, pois não temos dados oficiais que estratifiquem o rebanho gaúcho por grupos raciais, mas creio que a maioria dos produtores concorde que este fenômeno de “britanização” ocorreu no RS.
Quando tínhamos um rebanho de cria composto por várias raças e com boa participação de sangue zebuíno a opção mais lógica de touro a ser buscado era o Angus. E assim foi. Nosso gado ganhou em padronização, precocidade e qualidade de carne.
No momento atual, onde muitos rebanhos estão bem “britanizados”, torna-se natural a busca por touros sintéticos, pois a heterose contribui com a produtividade da pecuária e porque um “pouco de orelha” também é buscado por muitos pecuaristas, especialmente os que estão em áreas mais sujas, campos mais fracos e regiões mais quentes. Entra em campo a necessária maior adaptação ao meio.

CARRAPATO
O carrapato é uma “bronca” antiga dos criadores de raças europeias e sintéticas, mas a “grita” parece que se tornou bem mais alta nos últimos anos. As queixas não são somente em função dos custos e manejos necessários com o controle do parasita, mas da real dificuldade de controlar minimamente o problema. São diversos os relatos de problemas de resistência aos princípios ativos, redução drástica do período de proteção dos medicamentos, da produtividade do gado, da saúde geral dos animais, e até do aumento das perdas por Tristeza Parasitária. Pois bem, neste cenário um pouco assustador em relação a este problema, o uso da raça Brangus torna-se uma das alternativas e ferramentas disponíveis, pois é sabido que os animais cruzados com Bos Indicus tem maior resistência ao parasita.

FÊMEAS F1
O volume de fêmeas F1 (Angus x Nelore) produzido anualmente é impressionante. Atualmente, um pequeno percentual destes animais é retido para uso em reprodução, mas é consenso entre os profissionais de inseminação e criadores de que está ocorrendo aumento na retenção destes animais para a cria. O uso do Angus nestas fêmeas é desencorajado pela baixa adaptação de um animal ¾ Europeu na regiões que fazem cruzamento (Sudeste, Centro-Oeste, Norte, etc). Por outro lado, o uso de touros Nelore pode ser um desperdício de heterose e desempenho animal para produtores que possuem um sistema mais intensivo de produção. A opção mais indicada de cruzamento para estas fêmeas é um touro sintético, pois o F2 será praticamente um meio sangue em sua composição racial, preservando adaptabilidade ao meio e também o tipo de animal buscado por mercados diferenciados, sejam confinadores ou frigoríficos.
Alguns produtores vem usando a raça Senepol como alternativa para fêmeas F1, porém o Brangus tem vários diferenciais que o colocam como opção preferencial: trabalho de melhoramento genético da raça Angus, facilidade de engorde (precocidade) e base de população controlada no Brasil e em outros países.

BOA “CARONA” NO SUCESSO DA CARNE ANGUS
As raças Angus e Brangus andam de mãos dadas, mesmo que alguns criadores não queiram ver desta forma. Todo o trabalho (nacional e internacional) de promoção das marcas “Angus” e “Carne Angus” fortalecem também o mercado para o Brangus. O crescimento do mercado de carne de qualidade no Brasil, o Programa Carne Angus Certificada e a demanda de confinamentos e frigoríficos por animais Cruza Angus (ou Brangus) também geram demanda e valor adicional aos reprodutores Brangus. Vejo que esta carona é um processo muito natural: o Brangus pega carona no trabalho de mercado da Carne Angus, e o Angus pega carona na adaptabilidade do Brangus aos mais diversos ambientes. O uso de reprodutores Brangus mantém o pecuarista como fornecedor que atende as especificações deste segmento de mercado chamado “Carne Angus” e o negócio se fortalece como um todo.
No RS é tecnicamente recomendável a “dobradinha” Angus e Brangus como reprodutores. O uso de touros das duas raças pode ocorrer de forma simultânea na mesma propriedade em diferentes lotes de matrizes conforme a composição racial (mais ou menos britanizadas), ou em épocas diferentes conforme as mudanças do perfil do rebanho de cria com o passar do tempo.
Em 2015, em função dos clientes e leilões que assessoramos ficou bastante evidente a importância que algumas características na valorização de reprodutores Brangus: informações de programas de melhoramento genético (Avaliação Genética, DEPs), bom temperamento, rebanhos e animais com gerações avançadas, correção de prepúcio e fácil pelechamento (adaptação). Nada de muito novo? Verdade. O “simples bem feito” segue tendo muito valor. Vida longa aos touros Angus e Brangus de qualidade!

 * Publicado no informativo da ABB - BRANGUS REPORTER, Edição Dezembro/2015

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