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Genômica e precocidade sexual: O zebu voando baixo

Informação | 10 de Abril de 2016

Genômica e precocidade sexual: O zebu voando baixo

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Cumprimentos e saudações aos passageiros do avião da pecuária. Ele já andou meio devagar, mas agora anda voando bonito. Tive oportunidade de participar de dois encontros técnicos importantes no mês passado em Uberlândia (MG): a reunião do grupo GERAR (Zoetis), somente de veterinários que trabalham com IATF, e o “XX Novos Enfoques na Produção e Reprodução de Bovinos”. Saí muito satisfeito de ambos os eventos e gostaria de compartilhar alguns conhecimentos adquiridos e percepções pessoais na coluna deste mês.

Pois bem, em ambos os encontros foram apresentados muitos dados, de pesquisa e de campo, sobre a Precocidade Sexual no Nelore e uso da tecnologia da genômica (marcadores moleculares) para este fim e outras aplicações práticas na raça Nelore.

Já abordei o assunto genômica nesta coluna como a ferramenta mais moderna disponível para a seleção de bovinos, mas gostaria de reforçar alguns conceitos básicos das justificativas e possiblidades de uso: a) a genômica aumenta consideravelmente a acurácia das DEPs para várias características (correspondendo aos dados de 10 a 20 progênies em alguns casos), b) antecipa as informações genéticas dos animais; c) permite a avaliação de características de difícil mensuração (habilidade materna, maciez da carne, etc). No caso da raça Nelore, os marcadores moleculares (Clarifide Nelore) foram desenvolvidos no Brasil e com apoio e suporte técnico da ANCP. Para a raça Angus, o produto é “importado” e chama-se Global Angus, reunindo informações genéticas de reprodutores da raça em vários países (EUA, Canadá, Austrália, Nova Zelândia, Brasil e Argentina).

Esta ferramenta foi inicialmente desenvolvida e provada no gado de leite. A técnica permitiu a redução pela metade da idade dos touros pais ativos na raça holandesa. Se o Progresso Genético (ΔG) depende do Intervalo entre Gerações (GI), quanto menor o intervalo, melhor; e isto ocorre com a maior renovação dos touros pais. Lembre-se do artigo de minha coluna duas edições atrás: Mirem-se nos exemplos daquelas vacas leiteiras.

A precocidade sexual no Nelore (ou a falta dela) sempre foi considerada uma limitação para a intensificação dos sistemas de produção com zebuínos. Acreditava-se que independente da condição alimentar as fêmeas zebuínas não teriam condições de reproduzir em acasalamentos em jovem idade (1 ano), pois a genética e a fisiologia dos animais não os permitia. Esta condição e afirmação estão ficando no passado. Muitos criadores estão dedicados a identificar e selecionar fêmeas “precoces” em seus rebanhos e estão tendo muito êxito. No primeiro desafio ou estação reprodutiva as taxas de prenhez de fêmeas acasaladas com 1 ano (12 a 14 meses) são muito variáveis (20, 30, 40%), mas estes resultados vão melhorando a medida que a esta característica vai sendo selecionada. Já não é incomum criadores alcançando 60 a 70 % de prenhez em fêmeas Nelore de 1 ano. 

A seleção pela Probabilidade de Parto Precoce (ou DEP 3P) vem aumentando muito a eficiência reprodutiva dos rebanhos e traz de carona a correlação positiva com outras características de interesse econômico: mais precocidade sexual traz mais “stayability” (permanência no rebanho de cria), mais acabamento; mais Área de Olho de Lombo (AOL), e mais Produção Acumulada (kgs produzidos no rebanho). Logo, a seleção para animais mais precoces não é somente a busca da intensificação da cria, mas a melhoria em desempenho de todo o rebanho.

Na apresentação de dados de campo nos dois eventos citados, a Agropecuária Fazenda Brasil (AFB) mostrou o seu trabalho na seleção de animais mais precoces. Além da melhoria obtida na eficiência reprodutiva do “núcleo precoce”, foi possível mostrar a boa correlação de maiores MVPs Fertilidade (marcadores moleculares) nos animais precoces (que emprenharam com 1 ano) e menores valores dos MVPs no grupo de animais que somente emprenhou aos 2 anos. Aqui consigo reunir os dois assuntos citados no título: Genômica e Precocidade Sexual. São duas tecnologias disponíveis, em desenvolvimento e em comprovação para a “pecuária de precisão”.

Outras aplicações da genômica foram abordadas nestes encontros técnicos: a apartação de touros com o uso da genômica (classificando candidatos a descarte em lotes grandes de touros); na identificação e seleção de touros “cara limpa” em lotes de gado comercial em confinamento. Por mais inusitado que pareça e até questionável por muitos (seleção de touros em lotes de gado comercial?), é algo que já está se discutindo e se fazendo.

No dia que redigi este texto a American Angus Association publicou nota divulgando a nova calibração dos dados de genômica na raça nos EUA, com sua base de dados superando os 108 mil animais avaliados. Ainda em março, a IBBA (International Brangus Breeders Association) anunciou o teste genômico i50K, introduzindo a raça na era da genômica.

Enfim, o gado de leite já tinha dado o recado. Os neloristas não querem perder tempo e estão voando baixo na aplicação de tecnologia. Parafraseando um amigo “coach”, deixo o seguinte alerta aos produtores e usuários de touros: em melhoramento genético você está avançando ou regredindo, não há como ficar boiando imune as correntezas. Troteia ou sai da estrada! 

* Publicado na Revista AG, Coluna "Do Pasto ao Prato" - Edição Abril/2016

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