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Dias da Campo: ganha mais o anfitrião

Informação | 10 de Setembro de 2017

DIAS DE CAMPO: Ganha mais o anfitrião

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha



Frequento dias de campo desde que tive conhecimento deles. Sempre fui mais “da rua”, do que fala na sala de aula ou do escritório e esses eventos são bons motivos para pegar a estrada. No início de minha faculdade (anos 1990) a divulgação dos dias de campo era feita por cartazes e pelos jornais (a página rural do Correio do Povo me noticiou vários eventos dessa natureza). Pois bem, participando e auxiliando na organização de vários dias de campo percebi que os benefícios são bem maiores para o anfitrião do que para o visitante. Ainda assim, é um dos poucos casos da verdadeira relação ganha: ganha, pois essa expressão vem sendo banalizada para casos que não se  aplica. 

O produtor rural decide abrir as porteiras de sua propriedade para promover o seu produto, o seu leilão, a sua atividade. Estufa o peito e diz: neste ano vamos fazer um dia de campo, já tenho tudo pensado. Já defini a data e agora vamos à divulgação. Se for estreante nesse tema, ele mal sabe na “encrenca boa” em que se meteu. Pensava em só fazer um almoço para os convidados e uma mostra dos animais e depois percebe o tamanho da responsabilidade e do desafio.

A realização de um dia de campo (bem feito) gera um envolvimento muito grande e traz muitos benefícios ao promotor que não eram esperados. Na preparação do grande dia, nos deparamos com tarefas relacionadas à propriedade (fica feio receber a turma com aquele portão quebrado), às informações do trabalho (histórico, situação atual, perspectivas), aos diferenciais do produto, as informações dos animais que serão apresentados, sobre as pessoas envolvidas (família, funcionários, consultores, etc.) e vai-se dando conta que convém revisar muito do que já foi feito para que seja bem comunicado aos visitantes. Na tarefa de preparar as coisas e as informações para quem vem de fora, é feito um importante trabalho que vinha sendo adiado.

A apresentação da propriedade em uma “palestra” traz uma preparação e possivelmente uma autoavaliação que pode ser terapêutica.
Vamos a alguns exemplos:

Na simples tarefa de comunicar o “quem faz o que” na fazenda, percebe-se que essas atribuições podem não estar bem claras para a família e os funcionários. O ato de comunicar as funções de cada um em uma palestra no dia de campo pode legitimar e deixar mais claras as responsabilidades de cada pessoa ou, até mesmo, gerar a necessidade que a estrutura de cargos e funções seja mais bem discutida e definida para todos. Se alguém comentar no dia posterior ao evento: “eu não sabia que era encarregado do pós-venda dos nossos touros”, convém dedicar algum tempo ao tema recursos humanos da fazenda.

Na preparação de dados da fazenda, percebe-se que algumas informações não estavam sendo atualizadas (ou analisadas) em relação à estrutura do rebanho, à evolução do estoque, da carga animal, aos indicadores de desempenho animal, etc. Passamos a nos fazer perguntas: por que decidimos fazer tal coisa em tal época? Ou por que NÃO fizemos tal coisa em tal época?

Quando são apresentadas informações sobre custos ou resultados financeiros de uma operação, ou até da propriedade globalmente, encaramos mais desafios ao termos disponíveis os números corretos, ao reanalisar demonstrativos financeiros, ao perceber que algumas coisas nem foram tão caras e que outras sim foram muito. Observaremos, talvez, o muito que foi investido em uma área (ex: cercas) e o pouco em outras (ex: capacitação de pessoal, cursos, etc.). Talvez não mudemos a forma de trabalhar e de usar os recursos financeiros, mas provavelmente teremos mais convicção e clareza em compreender como estamos administrando o negócio.

Aos dedicados à produção de genética (reprodutores), a preparação do dia de campo pode ser uma grande oportunidade para avaliar tecnicamente e com sinceridade questões relacionadas ao programa genético, aos avanços obtidos, às informações genéticas disponíveis de meus animais, ao posicionamento comercial de meu produto, etc. Preciso informar sobre a pressão de seleção dos machos (quantos tornam-se touros), sobre o uso da inseminação artificial, da transferência de embriões e de como isso está impactando o meu produto final. Perguntarão quais os critérios de seleção usados no rebanho e é preciso comunicá-los claramente. Se não está bem definido, é um bom momento para pensar nisso.

Os questionadores perguntarão e preparar-se para todo tipo de dúvida é uma boa tarefa também para qualquer produtor. Por que cria e não engorda? Por que faz creep-feeding? Quanto custa por terneiro desmamado? Por que Angus e não Brangus? Por que PO e não PC? Qual o melhor: o PO ou o PC? Por que faz (ou não faz) ultrassonografia de carcaça? Se faz, o que faz com os dados? Toma decisão com a informação ou só publica números no catálogo do leilão? Faz feno ou silagem? Nenhum dos dois? Por quê?

O grande dia chegou, já se veem de longe as filas de carros e camionetes serpenteando a estrada que chegará na sede. Parece que foi confirmada a presença do padre, do secretário da agricultura e do prefeito. Ainda está em tempo de fazer uma listinha para citar as autoridades presentes. Não podemos esquecer de agradecer o secretário de obras que fez um reparo na nossa estrada.

Foi trabalhoso, mas valeu. Recebemos bem as pessoas, reencontramos vizinhos, amigos e familiares com quem há muito não falávamos. Ficou até o final só aquela turma forte que não gosta que os eventos acabem.

Agradecer e reconhecer aquilo que vinha sendo protelado e não dito para os familiares e colaboradores foi dito em alto e bom tom publicamente. Se o resto foi médio, só esse agradecimento e a confraternização de nossa equipe já valeu pelo dia de campo. Vamos agora preparar o próximo!

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Setembro, 2017)

 

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