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Os diferenciais são móveis - Aguarde sem agir e sente atrás da fila

Genética, Informação | 14 de Maio de 2018

Os diferenciais são móveis - Aguarde sem agir e sente atrás da fila

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Recentemente fui convidado pelo professor José Luiz Rodrigues (conhecido por Prof. Juca) a realizar uma apresentação na disciplina de Deontologia e Marketing da Faculdade de Veterinária (UFRGS). Fiquei muito orgulhoso em receber o convite, pois o professor Juca é um profissional que admiro muito e seria uma boa oportunidade de retornar à casa que me formou veterinário há 18 anos. O pedido era para falar um pouco sobre a minha trajetória profissional com ênfase nos aspectos relacionados ao marketing.

Preparando a apresentação, fui sentido certa satisfação pessoal pelas oportunidades que tive, por lembrar de tantos profissionais que me ajudaram, pelos momentos relevantes da pecuária e de minha profissão que pude viver: o crescimento da raça Angus e do seu uso em cruzamento, do início do Programa Carne Angus e do Terneiro Angus Certificado, da busca incessante por touros superiores, do início do serviço de assessoria a leilões de reprodutores taurinos, das tantas viagens internacionais em torno de vacas e touros, da tentativa dos Leilões Certificados, do trabalho na área de exportação de bovinos vivos e, finalmente, da abertura da Crio Central Genética Bovina.

Ao preparar o conteúdo e, principalmente, ao falar para os alunos, ficou novamente claro para mim um conceito que acredito muito estar relacionado ao marketing: os diferenciais são móveis. O que é diferencial, hoje, provavelmente não o será em um futuro próximo. Compete-nos avaliar se vale a pena persegui-los ou não. Para os estudantes, comentei que a minha decisão de fazer um intercâmbio na Austrália tinha sido uma decisão acertada em meu período de faculdade, pois me deu fluência em inglês e compreensão mais ampla do que pode ser a pecuária. Na época de minha graduação, o ultrassom para uso rotineiro em bovinos era um fato novo no Brasil e alguns colegas investiram na aquisição do equipamento e na capacitação para seu uso, na busca de um diferencial na prestação de serviços. A fluência em inglês, alguma vivência internacional e algum equipamento específico (vide ultrassom) eram diferenciais importantes quando me formei. Creio que hoje já não são mais e estão na linha basal ou média do perfil dos novos profissionais do mercado. Aqueles diferenciais moveram-se para outras habilidades, competências e tecnologias.

Fiz essa introdução porque o conceito aplica-se aos produtos e serviços que pude trabalhar neste período: bovinos de corte, reprodutores, carne de qualidade etc.

Faz pouco tempo que a venda de terneiros padronizados em raça ou cruzamento, no RS, era um bom diferencial para melhor remuneração (o padrão era ser despadronizado). O início do Terneiro Angus Certificado mostrou isto: os animais selecionados e certificados como Angus valiam mais nas feiras de terneiros. Faz sentido, pois o produto era escasso e buscado pelo mercado. Somado a isso, oferecia-se uma diferenciação adicional através da certificação.

A produção de novilhos precoces também era um grande diferencial, pois a maioria dos animais eram abatidos com mais de 36 meses. Para animais jovens, havia oportunidades de melhor remuneração dos frigoríficos e até se abriam concessões para carcaças mais leves, pois esse produto era buscado e oferecia ao mercado carne de melhor qualidade.

Para os reprodutores, ter certo peso, desenvolvimento e bom perímetro escrotal era suficiente para um posicionamento no mercado. Nos dias de hoje, a disponibilidade de dados de avaliação genética (participação de programas de melhoramento) e avaliações de carcaça são exigências básicas dos compradores. Aqueles que não têm animais com esses dados estão se posicionando abaixo da média na percepção geral do mercado de genética.

As carnes de raças europeias, por si só, eram consideradas superiores em um mercado em que o produto médio era tão despadronizado. É de consenso meio geral que a carne brasileira de 15 anos atrás era bastante sofrível em qualidade e que avançamos muito nesse quesito. Logo, o que era diferenciado faz poucos anos hoje pode não ser mais.

A conclusão à que quero chegar, ou a lógica que quero construir, é que o que consideramos diferencias competitivos em certo momento poderão deixar de sê-lo em pouco tempo. Profissionais e empresas que não se atualizam tornar-se-ão medianas ou abaixo da media. Novas exigências surgem ou são geradas a cada ano.

Oferecer diferenciais em nossos produtos pode ser uma alternativa, mas pode ser também uma opção que agrega custos ao processo de produção. Ser diferenciado é o certo e ser comum é o errado? Opa, “debreia” companheiro! Talvez sim, talvez não. A beleza da coisa é que tudo é muito dinâmico e que devemos estar atentos aos sinais do mercado, suas demandas e exigências.

Pode estar escrito de forma meio confusa, mas estamos falando de marketing. Sentar no fundo da sala de aula pode ser ruim (ou não).

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Maio, 2018)

 

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