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Como produzir o Touro Jovem Angus nº1? (Ou em outra raça)

Genética, Informação, Mercado | 15 de Abril de 2019

Como produzir o Touro Jovem Angus nº1? (Ou em outra raça)

Foto: Divulgação/Assessoria

Envolvido em nossas tarefas rotineiras com reprodutores e, atualmente, mais com doadores de sêmen ou candidatos a tal, troquei, em 21 de março, várias mensagens com o nosso colega e cliente Ney Conti, da empresa Zebu Fértil. Em uma delas, revisando documentos de novos touros Angus que terão sêmen coletado, falávamos da falta do recebimento do Relatório Final de um tourinho jovem. Aí, o Ney comentou: “Quem sabe ele já sai como nº 1 da safra 2017”. Na hora, achei excesso de otimismo e até brinquei: “Que vontade tem o pato de voar”. A resposta veio pronta: “Uai, enquanto não sair o relatório, há chances”. Brincando em nosso grupo de WhatsApp “CRIO & Zebu Fértil”, percebi que ele estava somente 100% certo, pois, se fomos buscar um touro jovem em um bom rebanho que seleciona e multiplica seus animais de acordo com os relatórios do programa de melhoramento genético, é, sim, candidato a produzir o touro nº 1 da sua safra. Simples assim. Real assim.

Pois bem, em função dessa breve discussão em um de tantos grupos de WhatsApp, decidi escrever sobre esse assunto que tange a uma pergunta tão recorrente entre produtores de touros: como produzir o touro jovem nº 1?

Aos menos íntimos com esse assunto, tento explicar: a cada safra nascida (ou geração, como também chamamos), os dados de desempenho dos animais são inseridos no programa de melhoramento genético, e as informações são processadas para retirarmos os efeitos ambientais (pasto, ração, localização etc.) e identificarmos a diferença genética dos animais. Ao final, após as avaliações de desmame e pós-desmame, saberemos quem são os animais daquela safra que são superiores geneticamente em nossa fazenda e também na raça como um todo. Até que chegaremos à relação dos melhores touros jovens daquela geração (neste ano, são os safra 2017) e saberemos quem é o touro jovem nº 1 e que rebanho o produziu. Esta relação de touros jovens é, normalmente, uma das principais fontes de touros candidatos a doadores de sêmen nas centrais de inseminação. No caso da raça Angus, partimos de um universo inicial de 5.000 terneiros por safra até chegarmos em uma listagem dos 100 melhores touros jovens e, finalmente, no famoso e badalado nº 1 da geração. Nada mais justo, ele participou de uma corrida com muitos concorrentes e, por mérito (genético), ficou posicionado no ponto mais alto da sua geração.

Está feita a introdução, alguns dos motivos que me fizeram escolher o tema e até um pouco de como essa corrida acontece, mas vamos ao ponto: como produzir o touro jovem nº 1?

1. Acreditar no Programa de Seleção

O programa de seleção de um rebanho é muito parecido com um Sistema de Gestão pela Qualidade. Padronizam-se os processos, definem-se e medem-se indicadores, são feitos ajustes, e o processo reinicia. É a tal da busca pela melhoria contínua, pela excelência, chame-a como quiser. No melhoramento genético, a lógica é a mesma. Definimos quais são as características que queremos selecionar e melhorar (peso ao nascer, peso ao desmame, AOL etc.), medimos e decidimos como multiplicar os melhores e descartar os piores. Para fazer isso, é necessário ter disciplina e, principalmente, acreditar no programa de seleção, pois só agiremos criteriosamente se acreditarmos em nosso programa e na importância das características que queremos mudar.

2. Aplicar o Programa de Seleção

Participar de um programa de melhoramento genético é muito diferente de aplicar os conceitos dos programas a cada safra de animais. Receber as informações constantes nos relatórios de avaliação genética e usá-las como insumo principal para a tomada de decisões é a verdadeira aplicação do programa, mas é a maioria que o faz. Dirão: “Ah tá, Velloso, vais me dizer que o pessoal faz toda essa função de avaliações, pesagens, escores visuais, ultrassonografia de carcaças, genômica e não usa para selecionar os animais?”. A resposta é: Sim, incrédulo irmão da igreja do melhoramento. Muitos leem os livros sagrados, mas não realizam, no dia a dia, as decisões condizentes com seus mandamentos. Como assim? É que, apesar de tantas informações objetivas disponíveis, seguem usando como doadora a vaca tal, que ganhou a exposição tal, que o expert tal disse que era um exemplar “impressionante” na raça, independentemente do que os números dizem. Ou, apesar de tantos números negativos nos relatórios, tomam a decisão de não descartar alguns animais, pois são filhos de tal, têm a cabeça muito bonita e uma “pureza” racial impecável (me dedicarei, talvez um dia, em redigir um artigo para falar da tal “pureza” racial e me prepararei para as reações amigáveis dos puristas). Pois bem, há muita gente que participa dos programas de melhoramento, mas não os aplica. Logo, não estão ajudando para que o processo de melhoria contínua aconteça, pois, sem usar os indicadores nas decisões, o avanço é prejudicado. Não será fácil produzir o touro jovem nº 1 desse jeito.

3. Ousar um pouco no Programa de Seleção

Quem não arrisca não petisca, e alta rentabilidade pressupõe riscos maiores. São chavões antigos e conhecidos, mas não há como dizer que não são verdadeiros. O processo de seleção em bovinos é lento, pois temos um intervalo muito grande entre gerações. Logo, fazer algumas tentativas e assumir certo nível de risco é necessário para se diferenciar na manada (refiro-me aos outros rebanhos). O uso de touros jovens superiores “crioulos” com um ano em inseminação artificial, a busca de pais novos e de pedigree aberto em outros países e a coleta de embriões de fêmeas jovens de famílias provadas são formas de arriscar um pouco e tentar acelerar o ganho genético do rebanho. Os que seguirem usando somente touros provados e aprovados pelo mercado produzirão bons touros, sem sombra de dúvida. Mas tirem os tourinhos da chuva se pretendem produzir o touro jovem nº 1.

Neste ofício de assessorar produtores a selecionar bovinos em seus rebanhos, pude conhecer alguns nºs 1 e, recentemente, passei a conviver com alguns deles em nossa central de coleta de sêmen para diferentes empresas de genética. Da raça Angus, estão em coleta conosco os touros nº 1 das Gerações 2015 e 2016 (Santa Cecília 3216 Complemento e São Xavier 2285 Mike Tyson); do Brangus, está no piquete o touro nº 1 Ger. 2015 (Primavera S487 Supremacia); e, do Braford, recebemos, na primavera passada, o touro Caty S432 Índice (nº 1 no programa Conexão Delta G). É redundância dizer que o mercado valoriza esses animais e que eles são ferramentas importantes para alavancarmos os níveis de produtividade dos rebanhos comerciais e também dos rebanhos puros dos selecionadores.

Para os curiosos, o touro do início desta conversa chama-se S2 1712 Cambaretã, nome guarani que quer dizer Terra de Negro. Aos apreciadores de bons touros e suas histórias, memorizem esse nome.

E se eu fizer tudo isso e não der certo? E se o touro nº 1 não chegar? Fique tranquilo. Seu rebanho seguramente será muito melhor no final desta maratona do que quando iniciou.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Abril, 2019)

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