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Disparada da carne bovina testa limites da demanda

Informação | 02 de Dezembro de 2019

Na boca do povo, a disparada do preço da carne não é sustentável e já enfrenta resistências no atacado e até na China, apontada como a principal responsável pela escalada do boi gordo em novembro – o animal alcançou valor recorde. Entre analistas e traders, é consenso que a cotação está fora da realidade e há quem diga que um rápido movimento de ajuste nos preços deverá ocorrer ainda em dezembro, apesar da demanda de Natal.

Ontem, os contratos futuros de boi gordo negociados na B3 registraram forte desvalorização, o que foi interpretado como um presságio do que estaria por vir. Os papéis para dezembro – os mais negociados – recuaram quase 5%, cotados a R$ 215,25 por arroba. Trata-se de um nível bem aquém do registrado no mercado físico. Na quarta-feira, o boi gordo era negociado perto de R$ 230 a arroba no Estado de São Paulo, de acordo com o indicador Esalq/B3.

“Acho que já chegou o momento da ressaca”, avaliou a sócia-diretora da consultoria Agrifatto, Lygia Pimentel. Na última segunda-feira, em evento promovido pela Minerva Foods, o economista Alexandre Mendonça de Barros também usou o termo “ressaca” para se referir ao ajuste de preços que tende a ocorrer para equilibrar o mercado. Na ocasião, ele estimou que isso deve acontecer depois da virada do ano.

Para Lygia, os frigoríficos já não conseguem repassar a alta do boi, matéria-prima responsável por 80% dos custos de produção, aos atacadistas. Na semana passada, negociações engasgaram e o preço fechou em R$ 15,50. “E agora está saindo a R$ 15”, ressaltou ela.

Vale notar, porém, que esse ainda é um nível elevado para os padrões normais. De acordo com o consultor de agronegócios do Itaú BBA, César Castro Alves, o preço histórico da carcaça bovina é de R$ 11 o quilo. “Não tem como sustentar”, disse Alves, lembrando que 70% da carne bovina produzida no Brasil fica no mercado doméstico – a China responde por 35% das exportações.

Nesse cenário de ajuste das cotações da carne- ainda que para um nível acima da média história -, os preços do boi gordo terão de ceder mais, indicou o sócio-diretor da consultoria Athenagro, Maurício Nogueira. Pelos cálculos do especialista, o atual preço da carne remuneraria bem um frigorífico se a cotação do boi estivesse entre R$ 190 e R$ 195 por arroba. “Para pagar R$ 230 pelo boi, o preço da carne teria que subir muito mais”, acrescentou o agrônomo.

Como o atacado já está demonstrando resistência, o contrário deve ocorrer, acredita Michel Tortelli, da Finpec, que atua na engorda de gado em confinamento. Segundo ele, os próprios frigoríficos farão pressão nesse sentido, dado que as indústrias sem habilitação para exportar à China já trabalham com margens baixísismas. “Quem opera só no mercado interno está provavelmente com a corda no pescoço”, concordou Alves, do Itaú BBA.

Além disso, os próprios chineses começaram a fazer jogo duro para reduzir os preços. O preço do dianteiro bovino exportado para a China, que chegou a ser negociado por US$ 7,5 mil tonelada – patamar extremamente rentável -, recuou para US$ 6,5 mil, disse um executivo de um grande frigorífico. No mercado interno do país asiático, os preços também cederam ligeiramente na última semana. Nesse cenário, há relatos de que os preços do dianteiro bovino poderão cair a US$ 5,6 mil em 2020, o que ainda seria bom para os frigoríficos, mas insuficiente para sustentar a euforia do boi a R$ 230.

Para a indústria processadora de carnes, a acomodação dos preços da carne bovina é fundamental para recompor as margens. Em entrevista ao Valor, o diretor executivo da Wessel – especializada em hambúrguer -, Cleberson de Souza, disse hora para a outra”, afirmou ele, que só repassou a alta dos preços da carne nos contratos com varejistas e atacadistas.

Pelos sinais que sente no mercado, o diretor da Wessel, que trabalhou muitos anos na Marfrig Global Foods, acredita que a resistência do atacado aos preços da carne bovina deve chegar às cotações do boi gordo já em dezembro. “Acho que, quando a arroba assentar, vai ficar entre R$ 180 e R$ 190”, projetou ele.

A acomodação de preços, porém, não significa que a carne voltará aos níveis do primeiro semestre, ponderaram os analistas. “O patamar mudou”, disse Lygia, da Agrifatto, ressaltando que o preço médio do boi e da carne ficará mais caro em 2020 na comparação com este ano. O ciclo da pecuária, com maior retenção de vacas, também colabora para um animal mais caro, em média, acrescentou Lygia.

Para os pecuaristas eufóricos com o cenário – o preço do boi subiu 34% em novembro -, a cautela é uma boa conselheira, disse Alves, do Itaú BBA. Segundo ele, não se deve comprar bezerros esperando que o boi gordo continue sendo negociado a preços recorde nos próximos anos.

Fonte: Valor Econômico (29/11/19)

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