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Produção de touros: negócio para especialista

Genética, Informação | 15 de Março de 2020

Produção de touros: negócio para especialista

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Na pecuária de corte, algumas pessoas dividem os produtores em dois grupos: o do pecuarista comercial, dedicado a produzir terneiros, à recria ou a animais para abate; e o do pecuarista produtor de touros, envolvido com rebanhos de gado “puro”, das cabanhas, dos programas de melhoramento
genético, das exposições, dos grandes leilões, das notícias nos jornais. Enfim, um mundo mais real e outro mais glamoroso. 

Não se fala disso muito abertamente, mas existe, também, a percepção de que não somente as atividades desses pecuaristas são diferentes, não é somente o gado que difere (comercial e elite), mas de que o produtor também ganha algum status ou posição social diferente quando deixa de trabalhar com gado geral e passa a trabalhar com genética. Ele não é mais um generalista, mas sim um especialista. Ele, agora, é uma marca. Não é mais uma porteira sem logotipo.

Tentarei abordar, neste texto, alguns dos motivos que percebo no querer ou na decisão de alguns pecuaristas em migrar da pecuária comercial para a produção de touros ou, o mais complicado, naqueles que decidem ingressar na pecuária diretamente na produção de touros, mais ou menos como quem quer aprender a pilotar diretamente na cabine de um Boeing. Não há necessidade de perder tempo com aeromodelismo ou planadores, vamos direto para o alto e avante!

Onde come uma vaca comum, come uma vaca PO

Pois bem, trago esse tema porque é assunto recorrente em minha atividade profissional nos últimos 15 ou 20 anos. Normalmente, a frase é assim: “Velloso, estou te contatando porque vou montar uma cabanha. Gostaria de discutir algumas questões contigo, mas já estou decidido e preciso apoio para comprar algumas vacas registradas”. Observe que o pecuarista não quer mais discutir essa decisão. Ele quer pilotar o Boeing, e logo. Os motivos ou argumentos para partir para a produção de touros normalmente são os mesmos: “Tu vês, onde come uma vaca comum, come uma vaca PO. E tem mais: ao invés de vender um novilho gordo de dois anos, vou vender um touro pelo valor de três a quatro novilhos”.

A priori, as afirmações não estão erradas, mas o entusiasmo leva o criador a dar peso somente às possíveis vantagens do negócio, esquecendo que a compra de uma vaca PO custa, normalmente, o valor de dois ou mais exemplares de gado geral. E esquecendo também que se vende um touro pelo
preço de três ou quatro novilhos, mas que esse touro deverá pesar 50% ou mais que o peso do novilho para abate, e que muitos machos PO nascidos não se tornam touros, ficam pelo caminho. Mas isso são detalhes. Já dizia a marchinha do Carnaval de 1947: “Que me importa que a mula manque, eu quero é rosetar!”. Desculpas por usar exemplos com marchinhas, mas estou redigindo no pré-Carnaval. De qualquer forma, o cidadão está decidido. Argumentar contrário seria perda de tempo.

Mas produzir touros não pode ser bom negócio?

Seguramente que sim. É a atividade com a qual trabalho diretamente, e conheço muitos produtores de touros que são exitosos na produção e na comercialização de reprodutores. Conseguem colher mais faturamento e resultados por trabalharem com um produto de valor unitário mais elevado que no gado comercial. Possuem custos maiores, mas os compensam e os superam, com a venda de produtos de maior valor também, sejam os touros ou a “genética” como um todo (terneiras, matrizes, embriões, sêmen etc.).

A reflexão deste texto é consequência das tantas vezes que me deparei com novos clientes entusiasmados, e até meio afobados, para montarem as suas cabanhas, sem o entendimento das implicações que esse negócio tem e do perfil necessário ao investidor que pretende tornar-se um bom vendedor de touros.

Para os novatos na pecuária, perfil tão comum de novos investidores, oriundos da indústria, empresários, profissionais liberais de sucesso, a opção por ingressar na pecuária com a produção de touros é, provavelmente, o aprendizado mais caro disponível no mercado. Os investimentos e custos
serão do nível “elite”. Os resultados serão, certamente, do nível gado geral em pecuária “sofrível”. Mais ou menos como trabalhar no Uber X dirigindo uma Dodge Ram 3500. Não vai ser fácil fechar essa conta.

As atividades relacionadas a manejo, sanidade, reprodução e nutrição do rebanho devem estar minimamente dominadas e incorporadas na rotina da fazenda para que se possa cogitar trabalhar com reprodutores, mas não é sempre assim que acontece. Muitos novos investidores entusiasmam-se
com as possibilidades da pecuária voltada para a genética e, literalmente, pulam alguns estágios necessários para o aprendizado.

O bom produtor de touros tem que ser um bom pecuarista

É bastante simples compreender: somente será um bom produtor de touros aquele que, antes, for um bom pecuarista. Parece tão básico, mas os princípios mais básicos são meio esquecidos no dia a dia. Se a fazenda e o plantel não tiverem bons indicadores técnicos e produtivos, não há como se realizar um bom programa de seleção, e, portanto, será difícil ofertar bons touros e em quantidade.

Faz parte do processo de seleção normal de qualquer plantel a realização de descartes. E para que o programa funcione, ou seja, para que exista avanço genético no rebanho, os descartes devem ser voluntários (decididos pelo pecuarista), e não involuntários (decididos pelos nossos erros).  quando a pecuária está ainda com baixo nível de eficiência, muitos descartes ou perdas ocorrem involuntariamente por falhas no sistema de identificação, doenças, mortes, vacas vazias por falta de condição corporal ou erros de manejo etc. Dessa forma, boa genética pode estar saindo do rebanho sem sabermos, e genética comum pode estar ficando no rebanho porque resistiu às falhas de nosso processo.

Mas por que abordar esse tema? O objetivo não é criticar de forma solta os novos produtores de touros, mas fazer um alerta sobre as implicações e sobre o perfil necessário para este novo cabanheiro. A produção de genética pressupõe projetos de longo prazo, maiores investimentos em animais
e tecnologia, maior envolvimento do proprietário, afinidade com controles de rebanho, planilhas, relatórios e, por fim, habilidades nas áreas de marketing e comercialização menos necessárias no gado geral. Tudo isso é factível, mas o grande número de criadores que abandona seus plantéis, fazem liquidações e se desligam das associações de raça anualmente me faz pensar que essa avaliação prévia é pouco considerada.

Observe que concluo este texto sem citar nenhuma raça. Não é por acaso. A regra é geral e irrestrita. Não importa se estamos falando de uma raça europeia, sintética, composta ou zebuína. Vale para todas. Não falo nome de uma raça porque os tempos andam sombrios. A caneta anda escrevendo mais pesada, mais medrosa de usar algumas palavras proibidas. A patrulha está meio geral. Até no Carnaval. Mas, Velloso, insisto: onde come uma vaca geral, come uma PO. R.: De acordo: eu quero é rosetar.

Nota aos apreciadores do tema: acompanhe, nas próximas edições da Revista AG, informações sobre o Top 100 – Os Maiores Vendedores de Touros do Brasil. Ali estarão as fazendas que fazem acontecer o negócio touro.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Março, 2020)

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