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Quarentenando na COVID-19: é a hora do campo

Informação | 14 de Abril de 2020

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Relutei, protelei e resisti em redigir este texto. Envio com os prazos queimados e peço desculpas ao pessoal da AG. Imagino que, da mesma forma que tantas pessoas, fiquei um pouco confuso em como agir nesta época em que o País só fala na pandemia do novo coronavírus (Covid-19). Não me refiro somente em como agir no sentido de proteger a minha família e a minha própria saúde, mas em como proceder em relação às minhas tarefas: quais ainda tinham sentido de serem realizadas ou vistas como prioridades? O solavanco na estrada nos faz ajeitar o corpo no banco.

Avaliei com minha esposa o que poderíamos fazer para melhor cruzar esses dias, ou semanas, ou meses. Optamos pelo recolhimento rural. Na vinda de Porto Alegre, já percebemos na carne o momento novo, com comércios fechados na estrada, com o atendimento distante nos postos de gasolina, com o acesso restrito no supermercado que fiz compras em São Gabriel. Entrada com fichas e número controlado de clientes. Na compra da bolacha “gajeta” na Padaria Moderna, éramos o único carro estacionado naquela quadra do Centro da cidade. Meu à la minuta no Restaurante Trevo ficou para outra oportunidade. Fechado também.

Estou, neste momento, em quarentena com a família em nossa propriedade rural (Palomas, Santana do Livramento/RS). Não sou cronista e tampouco tenho as habilidades de Veríssimo, Carpinejar ou Coimbra, mas, nesta edição especial, vou me arriscar a escrever o cotidiano e deixarei a pecuária como pano de fundo.

O campo vem sendo tratado, por parte da sociedade, como vilão do ambiente e, neste momento, virou refúgio e porto seguro para tanta gente. É curioso. É quase engraçado. Aqueles que faziam cara feia para o meio rural, hoje, queriam estar por aqui. Voltamos a ser vistos como ambiente limpo, seguro e de ar puro.

O meu apreço pelo campo, pelas atividades campeiras e por estar aqui sempre foi algo muito presente para mim. A decisão por cursar Medicina Veterinária teve por razão primeira a pretensão de poder viver um pouco o campo e, depois, pela afinidade com as próprias atividades profissionais e técnicas. A escolha do ofício foi uma tentativa de não fugir de uma escolha de forma de viver.

Nos últimos cinco anos, passei a ter maior rotina em nossa propriedade rural, mas ainda sou do perfil “pecuarista de fim de semana”, com todas as belezas e limitações de trabalhar dessa forma. Porém, nos anos anteriores, eu tinha menos oportunidades de estar por aqui e, sempre que conseguia desfrutar – mesmo que um dia só –, já me fazia bem. O tranco do cavalo não faz bem só para a coluna e o equilíbrio do corpo, mas também acomoda um pouco os neurônios que se desordenam com as tarefas, preocupações e conflitos do nosso trabalho diário. Muitos vêm para o campo buscando atender, também, à saúde mental, mas, agora, a busca maior é pela saúde do corpo, mesmo, tentando fugir dos centros urbanos e dos riscos de contaminação. Quando diríamos que algo assim poderia ocorrer? Lembro do tempo que a grita era outra: “Ai, eu tenho medo de tomar esse leite de vaca lá de fora, não é pausterizado”.

“Sei bem que tu sente falta do pé no estribo e rédea na mão, pois na cidade tudo é saudade pra quem tem jeito de chão”, diz os versos de um artista santanense (Fabricio Ocaña) no Facebook. Fechou com o meu sentimento e o de tanta gente que vive o campo ou a saudade dele. Com o isolamento social proposto, Ocaña gravou a música como se ele fosse seis músicos diferentes e, depois, reuniu tudo em um vídeo só. Cada músico com um instrumento e pilchas diferentes. Procure na internet e asseguro que apreciarás a forma que ele bem aproveitou o tempo de reclusão. Deixo uma imagem do “gaúchoconjunto” que mostra a criatividade e a elasticidade do ser humano. A velha história que “a dor ensina a gemer”. Dizem também: “Troteia ou sai da estrada”. Aprecio ditados.

As mudanças impostas pelo momento nos dão oportunidade de ocupar o tempo de forma diferente e de rever prioridades. De forma um pouco desorganizada, fiz algumas coisas enquanto preparava esse artigo: arranquei cedo com a Rádio Gaúcha (5h30min), depois segui na audiência do Nando Farinha na Rádio Pop Rock – Bagé (7h30min) e pude ouvir o empresário Claudir Weiand e o presidente da Farsul, Gedeão Pereira, comentando sobre os impactos e os desdobramentos do coronavírus na indústria e na agropecuária. Já recebi um convite para uma reunião semanal (virtual) do NESPro no final da manhã, grupo de estudos de pecuária de corte da UFRGS que estou recém ingressando.

Os que têm possibilidade do refúgio no campo neste período são afortunados, como eu. Sou grato por não estar tão contaminado pelo clima difícil que vivem as comunidades urbanas, sejam em cidades pequenas ou em grandes centros. Seguramente, não está sendo fácil para muita gente, e a ansiedade está no ar. Enquanto isso, fico feliz de poder propiciar aos meus filhos o que me ofereceram na minha infância: brincadeira na terra, gado de osso, galinha no terreiro, porco de cangalha, bodoque de bolinha de cinamomo e cavalo manso no potreiro. Que siga assim.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Abril, 2020)

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