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COVID: o empurrão que faltava aos leilões virtuais e certificados

Informação, Leilões, Mercado | 15 de Maio de 2020

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

As vantagens dos leilões virtuais em relações aos leilões presenciais são inúmeras: não necessidade de transporte do gado para um recinto, venda com o peso da fazenda (sem quebras de transporte e manejo), menor stress para os animais (bem-estar), menor pressão ou riscos comerciais ao vendedor, menores custos para o vendedor e para toda a operação, etc.

Nem todo leilão virtual é necessariamente certificado. Entende-se por “leilão virtual” aquele que ocorre através da transmissão de filmagens dos lotes, e por “leilão certificado” um remate, usualmente virtual, onde os lotes são revisados, classificados e certificados por um técnico, havendo, assim, padronização das informações disponíveis e também um ente que garante a “especificação” do produto (raça, cruzamento, manejo alimentar, status reprodutivo, peso médio – com informação dos pesos mínimos e máximos, vacinações realizadas, etc.). Desta forma, pode-se dizer que todo leilão certificado é virtual, mas nem todo leilão virtual é certificado. Os leilões certificados estão um passo à frente dos leilões tradicionais, pois o seu formato busca reduzir as possíveis dúvidas e conflitos na venda de gado em remates através de um processo claro, transparente e com um responsável técnico (certificador) para cada lote vendido. Somado ao diferencial da certificação, uma mudança conceitual muito importante é a venda pelo valor do quilo (R$/kg) e não pelo valor da cabeça. Esta mudança é fundamental, mas também é um dos pontos de maior resistência pelos envolvidos, especialmente pelos vendedores.

Em viagens internacionais propiciadas pelo meu trabalho, tive a oportunidade de conhecer o modelo de leilões certificados no Uruguai e nos Estados Unidos (EUA). Isto ocorreu em torno do ano 2010 e fiquei instigado que deveríamos tentar algo similar no Brasil. Nos EUA, fiquei impressionado com o volume de animais nos eventos da empresa Superior Livestock, com remates que levavam alguns dias ofertando 30, 50, 100 ou até 200 mil animais. Não é conversa, pois manuseei o catálogo desse leilão de 200 mil animais. Era um impresso do tamanho das antigas listas telefônicas. Além dos volumes inimagináveis no Brasil, as informações e as diferentes certificações traziam um detalhamento ao produto que levavam a venda do gado para outro nível de transação comercial. No Uruguai, pude participar presencialmente (nas salas de lances em Tacuarembó) de alguns leilões certificados. Fiquei motivado com as similaridades com o Rio Grande do Sul e com a possibilidade de iniciar esse modelo aqui. Posteriormente, participei também de leilões similares no Paraguai e Argentina. Me parecia muito simples e necessário tentar esse formato.

Nos anos de 2012 e 2013, busquei por Donário Lopes de Almeida, então Presidente do Canal Rural, para propor a inclusão dos leilões certificados entre os produtos da empresa. Eu insistia que poderia ser uma forma de o Canal Rural operar mais com gado comercial e não tão concentrado em equinos e gado elite. Passadas algumas reuniões, o Canal Rural aceitou o desafio e contratou a nossa empresa para a coordenação técnica deste projeto. Iniciamos atividades em abril de 2014. Representando o Canal Rural, trabalhou muito nessa iniciativa o leiloeiro Alexandre Crespo. O Canal optou por batizar os Leilões Certificados de Lance Rural e a denominação existe até hoje para transmissões de leilões pela internet. Ao longo de um ano, realizamos seis leilões certificados e o trabalho foi interrompido. Não estava funcionando como esperávamos.

Muito bem, creio que praticamente todos envolvidos com a comercialização de gado entendem e concordam com as vantagens dos leilões virtuais e, especialmente, dos leilões virtuais certificados. Mas, estas vantagens perdem o sentido se os leilões virtuais não realizarem boas vendas, considerando a liquidez do evento (% de lotes vendidos) e os valores alcançados pelos lotes. Assim foi mais ou menos o histórico das primeiras iniciativas de leilões virtuais no RS com gado geral: bastante entusiasmo com o novo modelo, mas muitos eventos comerciais com resultados bem abaixo do esperado.

Balde de água fria para quem acreditava e trabalhava pelos leilões virtuais. O nosso trabalho com o Canal Rural (Lance Rural Leilões Certificados) foi uma tentativa bem conhecida dos pecuaristas gaúchos, pois a televisão nos deu muito alcance e visibilidade. Mas, não fomos os únicos a trabalhar para desenvolver esse modelo. Diversas empresas leiloeiras e produtores fizeram suas tentativas com maior ou menor sucesso.

Observando hoje, com o distanciamento de mais de seis anos do trabalho, fica um pouco mais fácil pensar que fatores podem ter nos levado ao insucesso. Um deles, seguramente, foi a não adesão das empresas leiloeiras mais representativas no mercado naquele momento. O leilões certificados enfraqueciam ou geravam algum risco para o modelo tradicional de remates em sindicatos rurais ou praças particulares. Estávamos propondo algo que poderia reduzir uma fonte de receitas de entidades e empresas. Também poderíamos iniciar a atuação em áreas de domínio regional de empresas já estabelecidas. É compreensível a resistência encontrada na época.

Estudando o histórico dos leilões certificados no Uruguai, identifiquei um ponto de partida diferente do nosso. Ocorreram diversos surtos de aftosa no país em 2001. A movimentação e concentração de animais em recintos de leilões ficou impossibilitada. A comercialização de gado ficou restrita a negócios diretos entre os pecuaristas ou via corretores. Já que o modelo tradicional de leilões ficou inviabilizado naquele momento, iniciaram a realização de leilões televisionados com lotes filmados nas fazendas e com certificação. Organizavam salas de lances em hotéis no interior e no hipódromo Maroñas, na capital, para reunir os pecuaristas e para transmitir o leilão. Nem todos tinham televisão a cabo e muito menos acesso à internet. A necessidade do momento foi maior que a resistência ao novo modelo. Os leilões se iniciaram naquele momento e nunca mais pararam. A importância deles já vai além da venda de animais, pois se tornaram a principal fonte de cotações de gado de reposição para a pecuária uruguaia. As vendas semanais de todos leilões são tabuladas e disponibilizadas publicamente. Agora mesmo, consultei na página acg.com.uy (Asociación de Consignatarios de Ganado) as cotações atualizadas até 20/04/2020.

Em 2014, quando tentamos o Lance Rural, não tínhamos surtos de Febre Aftosa ou Vaca Louca no RS. Não tínhamos uma força maior que conduzisse os pecuaristas para as vendas virtuais. Mas, hoje, temos. A COVID-19 não restringe a movimentação de animais, mas limita a movimentação de pessoas e proíbe aglomerações (público). Assim, iniciamos a temporada de terneiros no RS: sem público nos parques de exposições e recintos de remates. Já são várias as Feiras de Terneiros divulgadas no formato virtual. Alguns remates estão ocorrendo e, para minha surpresa, ainda com gado em pista (nos recintos!). O pessoal não pode ir no remate, mas o gado pode. Em alguns eventos, ainda está se optando levar os lotes para um local de venda e transmissão do que filmá-los na fazenda. Os motivos são os mais variados.

A COVID-19 vai nos deixar esse legado. Lembraremos que ela foi o responsável pela popularização de leilões virtuais para gado comercial. O próximo passo será a consolidação dos leilões certificados. Essa etapa ficará por conta do mercado.

Ingressei recentemente na pós-graduação na UFRGS, sendo um novo integrante do NESPro (Núcleo de Estudo em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva). Este grupo já estudou o comportamento das Feiras de Terneiros no RS, identificando quais são os fatores que afetam os preços dos animais. Agora, o NESPro já está trabalhando para tabular informações sobres as Feiras Virtuais de Terneiros, e logo teremos informações de qualidade sobre o mercado nesse cenário novo. Novos momentos trazem novas perguntas.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Maio, 2020)

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