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Touros da blasfêmia, o uso de dados técnicos para fins comerciais

Genética, Informação | 15 de Setembro de 2020

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Para iniciar o texto sem confusão ou uso indevido de uma expressão, busquei de pronto o significado da palavra blasfêmia. O Google me trouxe o seguinte: palavra, expressão ou afirmação que insulta ou ofende o que é considerado digno de respeito ou reverência. Com o conceito em mãos, vamos adiante na reflexão que proponho: a conexão do mundo técnico e comercial na produção e comercialização de touros.
 
Assim como o Facebook nos traz, de tempo em tempo, lembranças boas de fatos e fotos de alguns anos atrás, farei algo parecido por aqui. Há sete anos, escrevi e publiquei o artigo “Creia irmão, a resposta está nos sumários”. Pesquise pelo título na internet e achará com facilidade o texto de outubro de 2013. Fiz agora, achei, o reli, e segue me parecendo que a mensagem é bem clara: os programas de melhoramento medem e comparam o desempenho dos filhos de vários touros em uso no país. Reúne-se toda informação, chacoalha-se, tira-se um pouco de sujidade das amostras e, então, sabemos quem está contribuindo com genética mais produtiva no campo ou não. A proposição do texto era chamar atenção para boas informações que estavam sendo desperdiçadas.
 
Setênios
 
A teoria dos setênios diz que a nossa vida tem importantes mudanças a cada sete anos, e, provavelmente, muito do que acontece ao nosso entorno também. Pelo menos, na forma com a qual nos relacionamos com nossa realidade e nossas expectativas. Há sete anos, o texto trazia também a abordagem sobre alguns desafios que tínhamos naquele momento, especialmente para a raça Angus:
 
a) Buscar a ampliação do uso de touros nacionais (a dita genética nacional), pois já sabíamos que os pais nacionais figuravam entre os líderes dos sumários para diferentes características, mesmo sendo usados em menor proporção (aproximadamente 70% importados e 30% nacionais);
 
b) Gerar informação dos touros Angus usados em cruzamento com matrizes Nelore, pois o que interessava à maioria dos pecuaristas era saber quem eram os melhores touros para cruzamento e não para uso na raça pura.
 
Nesses dois itens, avançamos pouco, mas avançamos. Infelizmente, a participação dos touros nacionais em uso na inseminação segue basicamente a mesma (ao redor de 30%), mas, numericamente, aumentou muito o uso de genética nacional, pois o mercado de inseminação cresceu a passos largos. Na avaliação genética de touros Angus em cruzamento, foram dados passos tímidos nestes sete anos e as poucas informações novas são advindas de projetos privados das centrais de inseminação (vide XBlack da empresa ABS).
 
Exatamente neste momento que estou redigindo este texto (agosto), estão sendo lançados vários Sumários de Touros. Nos zebuínos, a publicação destes novos sumários tem ocorrido na ExpoGenética, evento que veio correndo por fora na cancha e vai desbancar a ExpoZebu. Nos taurinos, tradicionalmente usava-se o palco da Expointer para lançamento dos sumários aqui do Sul. Nessas publicações, estão os melhores Touros Pais, os novos Touros Jovens, os Touros Líderes para diferentes características (maternais, de crescimento, de carcaça, adaptação, etc), e as Vacas Líderes, que são as melhores mães, as fêmeas avaliadas mais importantes de cada raça. Neste ano de Covid, os dois eventos migraram para os meios virtuais e as informações, talvez, estejam até sendo mais valorizadas.
 
Na parte técnica, tivemos bons avanços no melhoramento animal: a maioria dos selecionadores é participante de algum programa, ocorreu um bom incremento na adesão das medidas de ultrassom para carcaça, a genômica está presente nas avaliações genéticas ou está sendo inserida, novas tecnologias e características estão sendo incorporadas como eficiência alimentar, adaptação, resistência ao carrapato, etc.
 
Na área comercial, as informações dos programas de melhoramento vêm sendo, ano a ano, mais valorizadas. Os animais com CEIP ou Dupla Marca têm preferência clara dos pecuaristas. Os lotes destaques dos leilões de reprodutores são os Touros Jovens (TJs), os animais mais bem avaliados na sua safra. Os touros comprados ou contratados por centrais de inseminação são os TJs ou outros animais muito bem avaliados para alguma característica especifica, resistência ao carrapato, etc.
 
Ainda neste agosto, a nossa empresa assessorou o 1º Leilão de Fêmeas – Angus Rio da Paz. O animal mais valorizado foi a matriz Emi da Rio da Paz, vendida por R$ 180 mil. Emi não foi grande campeã em nenhuma exposição, mas é atualmente a Vaca Angus # 1 do Brasil, estando na primeira posição das Vacas Líderes do Promebo em 2019 e 2018. O valor de comercialização pode não chamar atenção no mundo nelorista, mas no mercado da raça Angus é um grande feito. É a fêmea mais valorizada na raça em 2020. É a demonstração clara que entramos em um novo setênio no mercado de reprodutores. Desculpas aos apaixonados por exposições, animais de argola, pelo belo toso e penteado feito por especialistas americanos ou magos argentinos, mas o mercado não está migrando para animais avaliados: ele já migrou. O disco de vinil está retornando ao mercado da música, mas será nicho para apreciadores e colecionadores desta arte. Na minha visão de óculos, sempre meio embaçado pelas máscaras necessárias, vejo o presente e o futuro do gado de pista como produto retrô. Um homem de meia idade pode se atrever a fazer previsões.
 
Mas Velloso, e o título e a blasfêmia? Calma, apurado leitor. Tudo está misturado nesse caldeirão que é produzir e vender touros.
 
Neste ofício de selecionar e comercializar touros me deparei, nos últimos 20 anos, com diversas discussões acaloradas que o técnico e o comercial não podem se misturar. É aproximar o sagrado e o profano. É brincar com o que não se brinca. Criança não pode chegar perto de eletricidade e do forno do fogão. É como se a área comercial fosse uma sala que somente pode ser acessada pelos sacerdotes do saber e da ética. Ou, em outra ótica, como se os profissionais que atuam no campo não tivessem bons filtros de bom senso para ponderar o que é técnico, o que é comercial, e quando estes mundos são afins ou não.
 
Compreender bem o porquê desta situação nunca compreendi. O pecuarista que se dedica ao gado registrado busca maior valorização do produto. Quer vender um “bovino touro” pelo valor de 2, 3, 4... 10 “bovinos bois para abate”. Esta é uma das lógicas de produzir touros
 
Mas, se as informações técnicas dos programas de melhoramento genético permitem que os animais sejam mais valorizados, mais procurados, vendidos por melhores preços, por que devemos separar esses mundos?
 
Em recente estudo da Asbia (Associação Brasileira de Inseminação Artificial) foi publicado que em torno de 1,8 mil touros foram coletados pelas diferentes centrais de inseminação do país somente em 2019. É um número pequeno de animais para o país inteiro, mas deveria ser um alvo do produtor de touros: ser um dos fornecedores para esse mercado que pode pagar cinco ou dez vezes o valor de um touro comercial. Vamos seguir acompanhando os leilões virtuais em 2020 e observar quantos bons touros estão sendo melhor vendidos para este segmento. E como naturalmente são animais com boa avaliação genética.
 
Como tantos gaúchos aprecio frases e a coragem dos que seguem lutando: “Serei como cavalo inglês: só vou morrer na cancha.” (Leonel de Moura Brizola, 1998)

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Setembro, 2020)

Touros da blasfêmia, o uso de dados técnicos para fins comerciais

Foto: Divulgação/Assessoria

Touros da blasfêmia, o uso de dados técnicos para fins comerciais

Foto: Divulgação/Assessoria