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Meus Touros Eu Garanto: Valor agregado exige responsabilidade agregada

Informação, Leilões, Mercado | 11 de Dezembro de 2020

Meus Touros eu Garanto: Valor agregado exige responsabilidade agregada

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Os remates e as vendas de touros já estão encerrados, salvo algum retardatário que ainda fará algum leilão em dezembro. O ano está tão favorável nos preços do gado que até remate de touro, em dezembro vai dar certo. A turma está ampliando os rebanhos de cria, entourando vaca que era para o engorde e novilhas de compra. Logo, vão perceber que os touros disponíveis na fazenda são poucos. E vamos às compras de novo.

Trocando, hoje, uma ideia com o colega veterinário José Pedro (ex-estagiário, pois, recentemente, graduou-se e anda faceiro com a carteira do CRMV/RS por aí. E logo vai fazer carimbo. Ainda tem gente da época do carimbo, mas tudo bem), sobre dicas de um assunto para esta coluna mensal, ele foi direto e assertivo: “pós-venda de touros, pois, todos os anos, ocorrem problemas com touros dos leilões que participamos”. O assunto merece ser um pouco falado. Pedi mais ajuda e solicitei que ele deixasse um rascunho do que mais viu nesse ano ou do que lembrava de anos anteriores. Vou tentar, em forma de conversa, abordar essas questões. O touro tem pós-venda diferente dos demais bovinos, e convém pensar mais nele.

O vendedor de touros busca comercializar um reprodutor pelo valor de três, quatro ou cinco novilhos gordos. Muito bem. Tem sentido: o produto é resultado de altos investimentos em matrizes, sêmen diferenciado, programas de melhoramento, alimentação superior, promoção, marketing, etc. Bons touros, normalmente, são irmãos de outros animais que não passaram nos critérios de qualidade e seleção. Ficaram soldados pelo caminho. Mas, muitos bônus também trazem ônus. Se para o gado comercial os compromissos pós-venda são mínimos (ou nenhum), para o touro, a situação é bem diferente.

Os compromissos (ou garantias) no pós-venda são variados, e o comprador, na maioria das vezes, espera suporte do vendedor. O negócio não acaba no carregamento do touro no caminhão. E não acaba mesmo.

PROBLEMAS QUE VIRÃO

A lista de problemas ou ocorrências que podem surgir desde a venda do touro até sua chegada ao comprador e o início do seu uso é ampla. Em muitas situações, alongam-se até o diagnóstico de gestação, lá no outono do ano seguinte, quando o tal touro seria pago, talvez, num plano safra.

No momento do carregamento, ainda antes do transporte, podem surgir problemas que nem existiam ou não haviam chamado atenção no momento da venda: o touro piorou de um problema de casco ou articular, o touro brigou nos dias após a venda e está com uma “mão pra cima”. O tempo aqueceu, o carrapato pintou e o bicho virou uma jabuticabeira. O touro teve uma tristeza leve (Babesiose/Anaplasmose) que o levou a ter febre por alguns dias. Na hora de carregar estava tudo bem, mas o andrológico ficou defasado e o sêmen comprometido por bom tempo. Lembre que o Andrológico é um retrato instantâneo do momento do exame. A validade de 60 dias é só uma norma ou convenção. Pouco tem a ver com reprodução. Li outro dia que o andrológico é um snapshot (retrato do instante). Faz sentido.

Carregamos o touro. Parece que está tudo bem. Agora é pegar a estrada. O caminhão não tinha divisória e os touros que já vinham se “prometendo” há dias decidiram resolver a questão ali mesmo. Brigaram como gente grande em época de eleições. A estrada não era aquela maravilha e os touros tomaram alguns tombos pelo caminho. Faltam só 300 km para chegar.

Descarregamos o touro no destino. Já era noite. O touro não conseguiu ver bem onde estava. Podia ser uma mangueira, um piquete, um potreiro, ou até uma invernada maior. O touro sai costeando a cerca procurando os limites e a água. Mas não é que o touro inventa de ir perto do banho das ovelhas (situação que só no RS entenderão). O touro cai no banho das ovelhas que estava desativado, mas cheio de água. Traz o trator pra tirar o bicho dali. Ele não se afoga, mas sai meio esfolado e dolorido. Parece lenda? Aconteceu na nossa propriedade em Livramento. E só tínhamos um Valmet Oitentinha para a função.

Amanheceu. O touro já está na morada nova. Bom sal no cocho e aguada limpa. Agora, é aproveitar a primavera que logo chegarão as novilhas e vacas.
O touro sai bem manso, come uma plantinha da flor amarela que ele não conhecia. Não passa nada.

Início de entoure: o touro se afoba e nos primeiros dias “quebra a peça” (hematoma peniano). Nessa temporada, não cobre mais.

Início de entoure: o touro nem dá bola pras vacas enquanto elas estão numa pulação geral. Cio não falta. Nem todos tem boa libido. Nessa temporada, ele não tá a fim.

Início de entoure: o touro cobrindo a vaca bem tranquilo, leva uma marrada do outro macho, desce da vacas às pressas e “abre a paleta”. Esse não cobre mais ninguém por vários dias ou semanas.

Início de entoure: o touro está animado, cobre todo mundo, corre pra todo lado, é tanta animação que põe a mão no buraco. Quebrou. Neste temporada, esse não cobre mais.

Fim do entoure: chama o veterinário para fazer o diagnóstico de gestação. Desastre total. Meia dúzia de vacas prenhes. Se tinha bom sal mineral ou condição corporal adequada nas vacas é outro assunto. Vamos devolver esse touro ou não pagar. 

Mas Velloso, que pavor esse teu relato, que desorganização, que falta de sorte, que despreparo dessa turma!”. Respondo: sim e não. Nem todas situações são previsíveis, por mais precauções que sejam tomadas, os riscos seguem existindo. Ex: touros não deveriam ser entregues de noite ou no escuro, mas pense na complexidade de se fazer uma rota de frete num leilão, com muitos animais. O vendedor empenha-se em contornar esses obstáculos, mas muitos imprevistos ocorrem e muitos animais do fim da rota pegam o final do dia.

Posso ter pintado um quadro feio porque não sou bom pintor, mas não tenho dúvidas que muitos leitores já viveram ou souberam de situações similiares ao causo triste que relatei. Não? Nenhuma vez? Nenhum item? Então vou repensar esse negócio de trabalhar com touros ou de escrever artigos.

LIMIAR

O limiar para definição de onde termina a responsabilidade do vendedor e começa a do comprador é um parâmetro de difícil determinação. Muitos entendem que é impossível garantir que nada de ruim vai acontecer com o touro no exercício do seu trabalho. Outros querem todas as garantias e até ultrapassam a linha pouco visível, para alguns, do bom senso. Pode ser situação de exceção, mas existem, também, alguns casos de certo abuso do comprador de touros nas suas queixas pós-venda. Que dificuldade atender corretamente todo mundo quando nem todo mundo procede bem com a gente. Infelizmente, ou não, o vendedor de touros precisa confiar bastante no seu cliente e buscar atendê-lo da melhor forma possível.

Um dos indicadores do bom vendedor de touros é a recompra de clientes antigos. Esse indicador é alcançado pela boa qualidade do produto, mas também (e muito) pelo suporte oferecido ao cliente que teve algum tipo de problema com os touros adquiridos. A definição do que compete ou não ao vendedor de touros no assunto pós-venda não está escrita, e nem considero que escrever tenha grande valia. O mercado estabelece as suas praxes, e convém conhecê-las com clareza. Entender o que o comprador espera de atendimento em situações de problemas é uma necessidade ou obrigação do vendedor. “Mas, Velloso, atender tudo isso fica muito caro!”. Concordo em parte, pois faz parte do negócio de vender touros.

Já vi situações de vendedor de touros (com alguma ocorrência pós-venda) me falar: “Mas, Velloso, o touro nem foi dos mais caros que vendi”. Respiro. Penso. Falo mentalmente: mas o que tem a ver o preço do touro com as garantias esperadas? Como se somente produtos caros merecessem garantias e suporte pós-venda. Mais ou menos assim no Magazine Luiza: garantia de 1 ano para televisores acima de 60 polegadas.

TOURO DE CENTRAL

Para touros comercializados para fins de coleta de sêmen, a complexidade da tarefa é maior ainda. O comprador espera que o touro seja um bom doador (que congele sêmen de boa qualidade). Lembre da história do snapshot. O touro com exame andrológico “em mãos” não é necessariamente um touro que congela sêmen. A responsabilidade ou compromisso do vendedor torna-se maior ainda, pois ele necessita assumir o risco que o touro poderá não qualificar para a função proposta. O negócio talvez seja desfeito. Volta o touro para origem. As garantias precisam estar bem claras na comunicação do vendedor e do comprador. Quem não se comunica considera que o outro saiba qual é a praxe do mercado.

Já vivemos situações variadas em relação a doadores de sêmen. O touro precisa qualificar em relação à qualidade seminal, mas, também, qualificar nos parâmetros do MAPA para ser um doador que irá comercializar doses. Observe que a complexidade vai aumentando. Mais documentos e atestados são necessários. Nem todos os touros qualificam quando realizamos a confirmação da paternidade por DNA. Em alguns casos são simplesmente falhas operacionais em nível de campo e o pai não corresponde ao constante no registro genealógico (troca do touro no descongelamento da dose no momento da IA, erro na anotação, erro na transcrição, etc). Mas, também temos situações de outras naturezas menos nobres.

Existem situações novas que o comprador quer ainda mais do touro adquirido para congelar sêmen. Quer que ele congele bem, que ele congele partidas grandes e que ele obtenha taxas superiores de prenhez na IATF. Esses são os touros pagadores de conta para quem produz e comercializa sêmen, mas querer que o vendedor garanta todas estas etapas me parece transferir muita responsabilidade. Sabendo que o touro faria tudo isso com tanto sucesso, seria melhor não o ter vendido.

PLANEJAMENTO

Desanimei o novo vendedor de touros? Espero que não. Trouxe o tema, até de forma meio caricata ou exagerada, porque as situações expostas aqui ocorrem. Mais em alguns anos e menos em outros, mas são situações e conflitos reais. Todo o negócio é baseado na satisfação do cliente, e, na venda de touros, não é diferente. Estar preparado para atender o cliente é necessário. Pode ser com touros de reposição (reservados para este fim), pode ser com crédito no próximo leilão, pode ser com ressarcimento do valor da venda, pode ser com doses de sêmen se aplicável, pode ser com uma equipe para fazer IATF no cliente, pode ser com um empréstimo de um touro por uma estação, podem ser muitas coisas. O importante é que a medida resolva o problema do cliente e não o satisfaça parcialmente. A gente percebe quando o cliente diz “está bem”, mas o tom da voz ou a comunicação indireta nos diz que “não está muito bem”.

Alguns vendedores contratam seguradoras e passam a ter o custo (do prêmio) como parte dos custos da operação de venda de touros. Os animais passam a estar cobertos por seguros para acidentes, problemas reprodutivos e morte. Se facilitar, contemplam até espelho retrovisor e para brisas. Outros entendem que o percentual de problema é menor do que o custo do seguro, e eles mesmo tornam-se a seguradora para o cliente.

O ano é bom. A temporada de venda de touros foi muito boa. O pecuarista está retendo matrizes e precisará mais touros em sua fazenda. Agora, é conosco: “o meu touro eu garanto” diz um cliente de sucesso nesse ramo faz muitos anos.

Nota de rodapé:
A Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha está muito orgulhosa em receber a premiação TOURO DE OURO 2020, pelo 7º ano consecutivo, na categoria ASSESSORIA GENÉTICA. Muito obrigado a tantos pecuaristas que indicaram o nosso nome e que entendem as provocações que fazemos com as palavras neste espaço. Vibramos muito com o nosso trabalho. Acreditamos muito na pecuária. Te agradecemos de verdade!

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Dezembro, 2020)

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