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Carne vermelha, um benefício de múltiplas dimensões

Informação | 07 de Maio de 2021
Pesquisadores da área de Zootecnia, Julio Barcellos e Taís Garcia Teixeira, defendem os benefícios nutricionais da proteína animal e reafirmam a confiabilidade das certificações sanitárias e ambientais da pecuária brasileira

*Por: Julio Barcellos e Taís Garcia Teixeira
*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Nos tempos atuais, os diversos meios de comunicar e de dissertar sobre um tema possibilitam a mais democrática das liberdades, pois basta ter uma rede social para emitir uma opinião, com “propriedade” de um douto, mesmo sem as mínimas qualificações para tal. Todos e todas podem expressar-se; aos receptores das mensagens-opiniões cabe compreenderem e até aceitarem como uma verdade o que está sendo dito. Opinar é um direito; contudo, manifestar uma opinião, a partir de uma interpretação, muitas vezes sem qualquer respaldo do conhecimento provado, pode produzir uma ilusão ou uma falsa compreensão. Pior do que isso, pode gerar uma corrente de seguidores, multiplicadores do falso conhecimento – pela simples opinião.

A universidade, espaço milenar para desconstruir as falsas teorias, lugar das grandes verdades científicas, sempre lutou e, mesmo nos dias de hoje, luta para que o conhecimento, provado, validado, resultante dos métodos de verificação, de análise, de consolidação, sejam a verdade, não absoluta, não eterna, mas aquela crível pela maioria da sociedade. Neste ambiente da academia, mesmo que democrático, é pouco aceitável negar a ciência e os seus fundamentos. Até porque as convicções e verdades são transitórias e as inovações, a interdisciplinaridade e o somatório de diversos conhecimentos resultam em novas verdades. Dizia um velho professor: “O grande inimigo da verdade não é a mentira, mas a convicção de que ela é uma verdade absoluta”.

A partir deste contexto, existem muitas opiniões sobre o consumo de carne vermelha, em especial a bovina, sobre seus eventuais prejuízos à saúde humana, mas há, em contraponto, muito conhecimento acumulado em boas universidades, inclusive aqui na UFRGS, sobre seus reais benefícios.

O homem, por sua natureza, é um ser hominívoro, “come de tudo”. Seus hábitos alimentares eram baseados em raízes e tubérculos. Sim, um vegetariano à moda antiga, pré-histórico. Os animais, antes de sua domesticação, serviam como meio de transporte, fonte de óleos e gorduras e, a partir de suas peles e lãs, como fonte de abrigo. Com o domínio do fogo, o homem passa a consumir a caça, faz a domesticação dos animais, desenvolve as criações, ultrapassa a linha da sobrevivência e desenvolve atividades desde a transumância até os tempos do agronegócio. Contudo, mesmo decorridos alguns milênios, a carne constitui-se no principal alimento que envolve, desde os aspectos nutricionais básicos até as relações atávicas entre o homem e a natureza. As comemorações, da história antiga até os tempos atuais, são realizadas com um binômio – fogo e carne.

Então, se o ser humano aprendeu a comer carne, aumentou seu consumo, evoluiu o tamanho do cérebro e chegou aos maiores patamares de longevidade nos países desenvolvidos, é pouco crível afirmar que a proteína vermelha – a carne bovina – não tenha contribuído para isso. Vale dizer que os países desenvolvidos apresentam maior consumo de carne bovina – aproximadamente de 25 a 40 kg/habitante/ano, acrescidos das carnes de aves e suínos – do que os em desenvolvimento, apenas por diferenças no poder aquisitivo. Portanto, encontrar evidências de possíveis correlações entre o padrão do consumo de carnes e a proliferação de doenças na humanidade é uma opinião interessante. A capital da longevidade no Brasil, por acaso é vegetariana? Talvez essa pergunta também pudesse ser carregada de uma opinião!

Em outubro de 1964, um jornal trazia na sua primeira página: “Governo promete carne fresca segunda-feira”; na semana seguinte corrigia: “Carne só volta aos açougues em 1965”. Imaginem hoje uma notícia dessa natureza? Lá, formavam-se filas nos açougues para comprar um bife, independentemente de ter ou não poder de compra pela população, pois simplesmente não havia carne bovina – o Brasil era importador, sua população consumia menos do que um bife (250 g) por semana. A carne bovina vinha da Europa, congelada, inclusive uma foi chamada de carne de Chernobyl. Isso, felizmente mudou para melhor (Figura 1).


No contexto atual, o Brasil é o segundo maior produtor e o primeiro exportador de carne bovina no mundo. Essa atividade, denominada pecuária de corte, está sustentada em criações de gado subordinadas aos principais sistemas de certificação e controle de qualidade do “pasto ao prato”, com auditagens permanentes por mais de 180 países importadores. A produção segue padrões alimentares saudáveis – o boi brasileiro já foi adjetivado de verde, pois ele é um dos poucos no mundo alimentado exclusivamente a pasto. Os métodos de criação, cada vez mais, atendem às bases de percepção dos consumidores e de suas exigências de valores, agora, intangíveis nos alimentos. Conhecer como os animais são criados e tratados são anseios dos consumidores. Assim, as certificações para as Boas Práticas de Produção, que atendem a questões do bem-estar animal, da preservação ambiental, da rastreabilidade e do bem-estar das pessoas, são frequentes nas fazendas de pecuária brasileiras.

Os protocolos sanitários e o serviço de inspeção municipal, estadual ou federal são de reconhecimento internacional, e somente após ultrapassar essas etapas é que a carne processada pela indústria frigorífica está apta para ir ao consumidor. Esses controles continuam na manipulação pelo varejo, e em todas as etapas, sempre com os olhos do Estado, atentos para prevenir enfermidades, assegurar um alimento saudável, pois nutricionalmente é indiscutível quanto às suas contribuições.

De outra parte, é preciso salientar o fato de que o bovino, é um herbívoro, da subordem dos Ruminantia – família Bovidae – com a capacidade de transformar a celulose das forragens, por meio das fermentações bacterianas no rúmen, em uma proteína completa, com os principais aminoácidos essenciais aos humanos. Transformar as fibras vegetais, em abundância no Brasil, em alimento à sociedade é uma necessidade e virtude. A presença do gado nas vastas planícies e campos brasileiros estabelece uma integração do animal com o seu ambiente e com o homem. O controle e a manutenção da vegetação e da fauna silvestre em seus biomas interagem positivamente pela presença do herbívoro. Portanto, há um benefício ao equilíbrio rural pela presença dos animais pastejadores. A opinião de que suas emissões de metano são vilãs ao aquecimento global demonstra, aquilo que está no início desta abordagem, apenas nada mais do que uma opinião, pois carece de conhecimento. A agricultura é a atividade que menos contribui para o efeito estufa e, como parte dela, a pecuária menos ainda.

Por fim, a universidade tem o papel fundamental de contribuir com os valores científicos, a partir de diferentes abordagens, hipóteses e teorias, para que, só por meio da educação, da liberdade de pensamento e de atitudes, seja possível entregar à sociedade opiniões robustas e carregadas dos pressupostos que lhe assegurem, ao menos parcialmente, as verdades.

  • Júlio Barcellos é professor do Departamento de Zootecnia e coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro).
  • Taís Garcia Teixeira é doutoranda do PPG em Zootecnia e integrante do NESPro.


Fonte: Publicado no Jornal da Universidade - UFRGS (06/05/21)

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