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O preparo da comercialização de touros: foco nas informações técnicas

Genética, Informação, Leilões, Mercado | 14 de Agosto de 2021

Por Fernando Furtado Velloso 1 , Rodrigo Soares Wagner 2 , Taís Garcia Teixeira 3 e Júlio Otávio Jardim Barcellos 4

O presente artigo propõe uma abordagem que se concentra no preparo da comercialização de touros. Dividimos o tema em dois momentos, sendo que no primeiro apresenta-se a contextualização do impacto produtivo de um touro no rebanho e a grande demanda por reprodutores na pecuária brasileira. Na sequência, o foco está na comunicação das informações técnicas acerca do produto, pois o touro vem incorporando tecnologia com a evolução da pecuária. Ainda assim, percebemos que a comunicação desses atributos para o mercado é muito variada, ou mesmo falha, em muitos momentos.

Estima-se que a demanda anual de reprodutores no País seja de aproximadamente 300 mil touros, número bem superior à produção de touros registrada e avaliada das diversas raças selecionadas no Rio Grande do Sul e no Brasil. Um dos aspectos muito discutidos é a perda de mercado dos touros para a inseminação, mas, na prática, ainda é de baixo impacto, permanecendo o touro para monta natural como muito relevante no contexto da produção. Se considerarmos os dados da Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), os quais nos mostram que somente 20% das matrizes de cortes são inseminadas, restam “apenas” 80% do rebanho de cria para os touros trabalharem em monta natural. Logo, o potencial mercado para touros está aberto e compete aos selecionadores demonstrarem a diferenciação de um touro selecionado e participante dos programas de melhoramento para um touro comum (ou não registrado).

O touro é um dos poucos insumos com impacto cumulativo na produção animal. O cliente do vendedor de touros precisa perceber que a decisão de compra desse produto tem fortes impactos de longo prazo na produtividade e na qualidade do rebanho. Veja o exemplo na Tabela 1. 

Tabela 1 - Impacto produtivo cumulativo do touro 

Compra do touro    Vida útil média   
(5 anos)  
Nascimento da última  
geração de filhos 

Possível permanência de  
duma filha na cria (8 anos) 

2021 2026 2027 2035


Seguramente, merece cuidadosa atenção uma escolha que afetará a composição e a produtividade de um rebanho até 2035. Dessa forma, os vendedores de touros devem comunicar melhor os atributos de seus animais para que o mercado identifique e valorize esse produto.

O touro está para a pecuária como a semente está para a agricultura. Porém o impacto virá em várias safras, e não somente em uma. Uma situação que não é rara de ser observada é a de animais de alto valor genético e com altas diferenças esperadas nas progênies (DEPs) vendidos por menores preços que touros negativos ou sem dados. Podemos constatar que, possivelmente, estamos falhando em algum ponto na comercialização. Do lado do comprador, isso mostra que existem muitas oportunidades. Ainda é possível adquirir animais melhoradores, com informações técnicas completas e boas DEPs, com preços próximos aos valores médios do mercado.

Há, possivelmente, um caminho interessante para o vendedor buscar uma estratégia para qualificar tecnicamente seus produtos, reportando adequadamente as informações técnicas e DEPs, adotando, assim, uma postura esclarecedora e orientadora para seus clientes. Ressalta-se a relevância de assistência qualificada para explicação das características dos touros, das DEPs e da orientação da seleção de um produto adequado para atender à necessidade do cliente. É esperado que, no futuro, o conceito de valorização do “produto touro” deve reforçar mais a tecnologia e o potencial genético melhorador embarcado, e menos as características fenotípicas ou apenas visuais.

Pacote tecnológico

O Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro) pesquisa a comercialização de reprodutores faz alguns anos, tendo já publicado artigos científicos e teses sobre o tema, especialmente sobre características que afetam a valorização dos touros (raça, peso, estatura/frame etc.). Em 2020, os leilões de reprodutores tiveram que obrigatoriamente migrar para o modelo virtual em função da pandemia do coronavírus, e os catálogos de venda ganharam mais importância para a consulta de informações e realização de escolhas pelos clientes. Dessa forma, um novo estudo foi iniciado pelo grupo, com o intuito de caracterizar o produto touro ofertado nos leilões em 2020, considerando como fonte de informação os catálogos dos vendedores. A pretensão do estudo é melhor compreender as características dos touros ofertados no RS (via leilões) e assim também estimar o nível tecnológico desse produto em função de suas informações técnicas (tradicional, moderno e avançado).

O estudo já em andamento irá quantificar as informações disponíveis acerca dos touros desde as mais básicas e usuais (como idade, peso, perímetro escrotal) até as tecnologias mais modernas disponíveis (Genômica e CAR – Consumo Alimentar Residual, por exemplo). A Tabela 2 mostra parte das possíveis informações a serem disponibilizadas em um catálogo de leilão e que nos levam a considerar um touro com menor ou maior nível tecnológico.

Um produto com constante incorporação de tecnologia e grandes diferenças entre um touro básico ou um touro moderno precisa ser bem comunicado em seu manual técnico, ou seja, nos catálogos de venda. O estudo irá tabular informações de aproximadamente 50 leilões realizados no segundo semestre de 2020 no RS, com mais de 4 mil touros ofertados. Naturalmente, a predominância da oferta é das raças Angus, Brangus, Hereford e Braford, pois são os grupos genéticos predominantes no Sul do Brasil.

Tabela 2 - Informações para disponibilizar no catálogo de leilão

Grupo de informações   
Exemplos de dados possíveis 

Do animal  Idade (com data de nascimento) 
Peso ao desmame
Peso ao ano/sobreano
Peso no leilão (com data de pesagem ou estimativa) 
Perímetro Escrotal 

Da genealogia  Informa somente o pai 
Informa o pai e avô materno 
Informa quantas gerações

Da avaliação genética    Disponível (sim ou não) 
Informa o Programa de Melhoramento 
Apresenta os dados em DEPs, DECAS ou Percentis
Informa certificações superiores (CEIP, Dupla Marca, Touro Jovem, etc) 
Informa somente dados básicos de crescimento ou outros (Resistência ao carrapato, tipo de pelame, etc) 

Dados de Carcaça Disponível (sim ou não) 
Informa a medida ou a DEP
Informa em todos os lotes ou somente em lotes destaque

Genômica e outro Disponível (sim ou não)
Informa somente testes específicos (ex: Homozigoto Preto) ou também marcadores para características produtivas 
Informa em todos os lotes ou somente em lotes destaque

Os resultados preliminares do levantamento já nos permitem considerar que existe uma ampla diversidade entre os vendedores sobre a quantidade de informações disponibilizadas nos catálogos. Na sua maior parte, os dados são bastante limitados e nos levam a entender que o produto tem baixo nível tecnológico ou que as informações técnicas sobre os animais não são fornecidas na sua totalidade. Essa dor faça as melhores escolhas e, de certa forma, faz com o que poucos atributos interfiram na definição das escolhas e variações de preços dos animais. É rotineiro comentar que os compradores de touros não têm boa compreensão sobre os dados técnicos dos reprodutores. Todavia, a carência de informações nos catálogos – que não dispõem de orientações claras e pormenorizadas – não ajuda a mudar esse cenário e tampouco auxilia a tomada de decisão com mais consistência e assertividade. Um caminho viável é a maior busca por apoio técnico ou de consultorias para a escolha de um produto que é tão importante ao criador.

Apesar de o estudo estar ainda em desenvolvimento, já despontam algumas necessidades na maioria dos casos:

• Investir tempo e trabalho em gerar catálogos e fichas técnicas mais completas;
• Planejar e desenhar bem o material para a fácil leitura e compreensão do comprador;
• Preparar materiais de apoio para orientar o cliente na interpretação dos dados e escolha dos lotes (p. ex.: guias simples de leitura).

Avaliamos que essas medidas são diferenciais na comercialização de touros por serem importantes, decisivas e úteis ao agregar muito valor ao cliente, e, hoje, ainda podem ser consideradas diferenciais. Se os atributos técnicos não forem claramente divulgados e expressos, todo o trabalho para ofertar ao mercado um animal diferenciado não será devidamente valorizado, limitando o possível retorno financeiro projetado pelo vendedor. Outro aspecto que deve ser mencionado é a percepção sobre o ambiente digital como recurso que facilita o acesso on-line, por meio dos dispositivos móveis, como celulares e tablets. Essa facilidade favorece a busca para quem prefere esses meios como forma de localizar informações para determinar a compra de touros.

Num passado recente, há 15 ou 20 anos, percebíamos que os touros de outros países – especialmente dos Estados Unidos – possuíam muito mais tecnologia e informações técnicas que os nossos, pois algumas técnicas “modernas” já estavam disponíveis e bem disseminadas entre os criadores de lá. Podemos citar como exemplos as medidas ultrassonográficas de carcaça, os índices bioeconômicos e os marcadores moleculares (genômica), entre outros. O pacote tecnológico disponível e adotado pelo vendedor de touros americano era mais completo do que o nosso. Atualmente, muitos produtores de touros no Brasil adotam pacote tecnológico muito similar ao americano, incorporando praticamente todas as ferramentas disponíveis para fins de melhoramento genético. Porém, como regra geral, ainda disponibilizamos sistematicamente – e, especialmente, nos catálogos de vendas – informações bastante incompletas sobre os dados coletados nos animais e informações geradas pelos programas de melhoramento e outras modernas técnicas de seleção.

Comentamos, muitas vezes, que o comprador não está preparado para usar esses dados e que o mesmo não os valoriza. Porém não estamos preparando o nosso cliente para o uso dessas informações tão importantes para a comercialização e para os ganhos produtivos no campo.


1 Médico-veterinário e mestrando em Zootecnia na UFRGS/NESPro
2 Engenheiro químico e mestrando emAgronegócios (Cepan) na UFRGS/NESPro
3 Jornalista e doutoranda emZootecnia na UFRGS/NESPro
4 Professor no Departamento de Zootecniada UFRGS e coordenador do NESPro


* Publicado na AG - A Revista do Criador, edição de agosto/2021

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