Foto: Divulgação/Assessoria
No outono e inverno gaúchos são fortes (e importantes) as Campanhas do agasalho. As pessoas são estimuladas a doar roupas para aquecerem outras vidas que estão precisando. Hoje mesmo, aproveitei o domingo chuvoso e separei uma sacolada de boas roupas. Algumas não me servem mais (prosperei nas medidas com a idade) e outras simplesmente uso pouco. Espero que esteja em tempo de vestir e aquecer algum conterrâneo do tamanho 40 ao 44. Camisa 3 ou 4 diziam os antigos. Acho que não se usa mais esse padrão.
Doar roupas é um ato de desapego. Não é nada tão grandioso, mas nos obriga a avaliar e decidir sobre o que temos nos armários. De certa forma, é aceitar alguma mudança. Não contar mais com aquela peça ou calçado reservado para um momento específico ou especial. Este raciocínio guarda alguma relação com a pecuária. Em alguns momentos temos que desapegar de algumas práticas ou decisões que não têm nos ajudado a produzir mais ou melhor.
Em dezembro de 2018 redigi um texto intitulado "O Poder do Hábito na Pecuária de Corte". Sigo acreditando muito no conceito de que a força de bons hábitos repetidos com consistência nos leva a melhores resultados. Entenda-se hábitos como planejamento, cumprimento de cronogramas, realização e avaliação das tarefas do dia a dia do campo etc. O velho ciclo PDCA (Plan, Do, Check e Act) segue valendo e não tem data de vencimento. Talvez seja a ferramenta de gestão com maior impacto nos negócios.
Dualidade na pecuáriа
No campo, vivemos uma dualidade conflitante. É necessário valorizar o conhecimento, a vivência, a tradição e o conservadorismo de quem conhece os pastos, a terra, os animais, o clima.e os ciclos daquele local. Mas, do outro lado do ringue, é importante que essa experiência não nos congele, não nos deixe muito apegados a práticas defasadas. Daí a minha reflexão sobre a importância do desapego. Dizia um comercial dessas lojas de internet: desapega, desapega!
Venho me tornando apreciador das palavras: dualidade é a coexistência de dois princípios, naturezas ou características opostas em um mesmo ser, objeto ou situação. É o que vivemos na pecuária. O pecuarista, em toda a sua vida de produtor, tem limitadas safras de terneiros para vender ou estações de monta para emprenhar as vacas. Essa finitude deve nos pressionar a fazer o melhor possível a cada ano. Deve nos fazer fiéis e leais a. bons hábitos (ou processos). Porém, essa finitude não deve nos paralisar em tentar novos procedimentos, não deve nos congelar em rotinas que nos afastem do desapego do que fazemos daquele jeito há tanto tempo: as vacas prenhes têm de ficar nesse campo, as novilhas devem ser recriadas de tal forma, a estação de monta tem de começar em tal mês, a raça que utilizo é esta e assim é, e assim por diante, em exemplos sem fim que consomem o limite de caracteres do texto.
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