Últimasnotícias

Inseminação Artificial: Só emprenhar ou produzir mais e melhor?

Genética | 08 de Novembro de 2014

Por Fernando Furtado Velloso 

Entre as atividades de nossa empresa, o suporte técnico para produção e aquisição de reprodutores tem sido uma tarefa de grande envolvimento nos últimos anos. Assim, dedicamos bom tempo revisando e buscando touros para diferentes perfis de necessidade: pecuária comercial, rebanhos registrados (genética) e até para centrais de inseminação ou pecuaristas que buscam um touro para coleta de sêmen.

Nos últimos anos, o crescimento da Inseminação Artificial a Tempo Fixo (IATF) expandiu em muito o uso da inseminação artificial em pecuária comercial e contribuiu com incremento em produtividade dos rebanhos. Porém, trouxe também a supervalorização de touros “aprovados em IATF”, ou seja, animais com dados de campo que comprovem a efetividade em prenhez por IATF. As centrais até desenvolveram selos de qualidade usados em IATF para comunicar o cliente sobre touros já usados nessa técnica reprodutiva e também buscando a preferência ou valorização comercial. Até aqui, tudo bem, mas o “contraveneno” foi que essa característica passou a ser até mais valorizada pelo mercado do que a qualidade e características genéticas dos indivíduos. Dessa forma, a inseminação passa a ser mais uma ferramenta para emprenhar os animais do que para gerar aumento de produtividade e melhoramento genético. Não há dúvidas de que o impacto econômico da taxa de prenhez em pecuária de corte é muito alto, mas pode estar havendo demasiada desconsideração na busca do reprodutor adequado para o tipo de necessidade do produtor.

A genética Angus é a que mais vende sêmen no Brasil na atualidade e também a mais utilizada nos programas de cruzamento. Em uma raça com tamanha distribuição mundial (dita cosmopolita) é natural esperar grandes variações na genética de seus indivíduos e isso ocorre naturalmente. Nessa mesma raça, encontramos variações de frame que vão desde o 3 (muito pequeno) ao 9 (quase gigante), rebanhos selecionando para
mais gordura e muitos nos EUA buscando menos gordura, etc. Assim, temos várias “raças” dentro da mesma raça. O que tento dizer é que os touros Angus não são tão iguais como pensamos e que existem animais ou tipos mais apropriados para cada perfil de sistema de produção.
Logo, eleger um reprodutor simplesmente por ser “IATF Provado” é simplificar demais, pois se desprezam muitos touros com real potencial para agregar quilos extras na produção ou configurados para situações específicas. 

A escolha do touro (genética) adequado para cada necessidade não é uma caixa preta e a cada dia temos mais instrumental técnico para a tomada de decisão. Os seguintes grupos de informações permitem compreender a “especificação do produto” e o seu melhor uso (vide figura). 

Grupo de informações

Função  

Genealogia (pedigree)

Permite através das linhagens (famílias) entender melhor a característica genética do animal

 

Rebanho de origem

Informa o critério e direção de seleção do rebanho de origem do reprodutor (sistema a pasto, intensivo, “elite”/exposição, nível de pressão de seleção, etc)

 

Avaliação Genética

 

 

 

Apresenta em forma de DEPs (Diferenças Esperadas da Progênie) o mérito genético dos animais para diferentes características

 

Dados de carcaça (Ultrassonografia)

Informa a composição da carcaça do indivíduo e seu potencial para produzir músculo, gordura e marmoreio. Tem mais valor técnico se apresentado em forma de DEP

Frame (tamanho)

Permite estimar o tamanho adulto de seus filhos e assim os requerimentos alimentares e o peso de carcaça

 

Biotipo (avaliação visual)

Através da avaliação visual dos animais deve-se complementar os dados objetivos com o seu biótipo, assim sabemos se um animal é grande ganhador de peso por sua qualidade ou pelo tipo de sua estrutura (ex: pernaltas). O visual também nos indica a potencial adaptação e tipo de pelo (pelame) dos animais.



A devida avaliação das características expostas permite entender qual “mérito” cada animal possui e se este é apropriado para um determinado uso. As necessidades em genética no Brasil são muito distintas e cada vez mais específicas. Podemos exemplificar com algumas situações bem usuais: 

a) Região Sul – genética para uso em matrizes europeias e com retenção de fêmeas. Facilidade de parto, habilidade materna e tamanho adulto são características de alta importância;

b) Cruzamento Sistema Extensivo (Angus x Nelore) – características maternais com baixa importância, mas necessária atenção ao biótipo mais precoce, que permita terminação a pasto; 

c) Cruzamento Sistema Intensivo (Angus x Nelore) – na engorda em confinamento, pode-se explorar mais da genética superior para ganho de peso, porém, extremos em tamanho podem nos trazer animais “intermináveis”, mesmo em uma raça precoce. 

Somadas as situações A, B e C, temos ainda outra variável que faz mais complicada a correta eleição de genética para cruzamento: a engorda de bovinos inteiros ou castrados, pois no lugar de três situações do exemplo passamos a ter seis bem distintas. 

Os animais muito precoces (e castrados) terminam muito leves no confinamento e produzem cortes pequenos. Essa situação até atende as necessidades de alguns programasou marcas de carne voltados para as boutiques ou churrascarias, todavia, são inadequados para os frigoríficos exportadores e para o mercado internacional, em que o tamanho das peças tem grande importância. Por outro lado, os animais muito tardios não atendem as especificações mínimas de cobertura de gordura para o mercado nacional de carne de qualidade ou o mercado internacional mais exigente. Essa já era a minha percepção e pude confirmar recentemente em conversa com o amigo Roberto Barcellos, da Beef & Veal, e, hoje, o profissional mais atuante no segmento de marcas de carne. 

Bem no período que estou redigindo este artigo, ocorre a feira de alimentos SIAL na França, e lá está sendo promovida a Carne Angus brasileira para todo o mundo. É um bom avanço e mais passos dados para acessarmos mercados diferenciados, entretanto, precisamos estar mais atentos ao tipo de genética que usamos para que o sistema de produção seja eficiente e o produto final esteja como buscam esses mercados.


* Publicado na coluna "Do Pasto ao Prato", Revista AG (Ed. Novembro, 2014)



INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL: Só emprenhar ou produzir mais e melhor?

Foto: Divulgação/Assessoria

Só emprenhar ou produzir mais

Foto: Divulgação/Assessoria

INSEMINAÇÃO ARTIFICIAL: Só emprenhar ou produzir mais e melhor?

Foto: Divulgação/Assessoria