Por Fernando Furtado Velloso
Entre as atividades de nossa empresa, o suporte técnico para produção e aquisição de reprodutores tem sido uma tarefa de grande envolvimento nos últimos anos. Assim, dedicamos bom tempo revisando e buscando touros para diferentes perfis de necessidade: pecuária comercial, rebanhos registrados (genética) e até para centrais de inseminação ou pecuaristas que buscam um touro para coleta de sêmen.
Nos últimos anos, o crescimento da Inseminação Artificial a Tempo Fixo (IATF) expandiu em muito o uso da inseminação artificial em pecuária comercial e contribuiu com incremento em produtividade dos rebanhos. Porém, trouxe também a supervalorização de touros “aprovados em IATF”, ou seja, animais com dados de campo que comprovem a efetividade em prenhez por IATF. As centrais até desenvolveram selos de qualidade usados em IATF para comunicar o cliente sobre touros já usados nessa técnica reprodutiva e também buscando a preferência ou valorização comercial. Até aqui, tudo bem, mas o “contraveneno” foi que essa característica passou a ser até mais valorizada pelo mercado do que a qualidade e características genéticas dos indivíduos. Dessa forma, a inseminação passa a ser mais uma ferramenta para emprenhar os animais do que para gerar aumento de produtividade e melhoramento genético. Não há dúvidas de que o impacto econômico da taxa de prenhez em pecuária de corte é muito alto, mas pode estar havendo demasiada desconsideração na busca do reprodutor adequado para o tipo de necessidade do produtor.
A genética Angus é a que mais vende sêmen no Brasil na atualidade e também a mais utilizada nos programas de cruzamento. Em uma raça com tamanha distribuição mundial (dita cosmopolita) é natural esperar grandes variações na genética de seus indivíduos e isso ocorre naturalmente. Nessa mesma raça, encontramos variações de frame que vão desde o 3 (muito pequeno) ao 9 (quase gigante), rebanhos selecionando para
mais gordura e muitos nos EUA buscando menos gordura, etc. Assim, temos várias “raças” dentro da mesma raça. O que tento dizer é que os touros Angus não são tão iguais como pensamos e que existem animais ou tipos mais apropriados para cada perfil de sistema de produção.
Logo, eleger um reprodutor simplesmente por ser “IATF Provado” é simplificar demais, pois se desprezam muitos touros com real potencial para agregar quilos extras na produção ou configurados para situações específicas.
A escolha do touro (genética) adequado para cada necessidade não é uma caixa preta e a cada dia temos mais instrumental técnico para a tomada de decisão. Os seguintes grupos de informações permitem compreender a “especificação do produto” e o seu melhor uso (vide figura).
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Grupo de informações |
Função |
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Genealogia (pedigree) |
Permite através das linhagens (famílias) entender melhor a característica genética do animal |
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Rebanho de origem |
Informa o critério e direção de seleção do rebanho de origem do reprodutor (sistema a pasto, intensivo, “elite”/exposição, nível de pressão de seleção, etc) |
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Avaliação Genética
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Apresenta em forma de DEPs (Diferenças Esperadas da Progênie) o mérito genético dos animais para diferentes características |
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Dados de carcaça (Ultrassonografia) |
Informa a composição da carcaça do indivíduo e seu potencial para produzir músculo, gordura e marmoreio. Tem mais valor técnico se apresentado em forma de DEP |
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Frame (tamanho) |
Permite estimar o tamanho adulto de seus filhos e assim os requerimentos alimentares e o peso de carcaça |
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Biotipo (avaliação visual) |
Através da avaliação visual dos animais deve-se complementar os dados objetivos com o seu biótipo, assim sabemos se um animal é grande ganhador de peso por sua qualidade ou pelo tipo de sua estrutura (ex: pernaltas). O visual também nos indica a potencial adaptação e tipo de pelo (pelame) dos animais. |
A devida avaliação das características expostas permite entender qual “mérito” cada animal possui e se este é apropriado para um determinado uso. As necessidades em genética no Brasil são muito distintas e cada vez mais específicas. Podemos exemplificar com algumas situações bem usuais:
a) Região Sul – genética para uso em matrizes europeias e com retenção de fêmeas. Facilidade de parto, habilidade materna e tamanho adulto são características de alta importância;
b) Cruzamento Sistema Extensivo (Angus x Nelore) – características maternais com baixa importância, mas necessária atenção ao biótipo mais precoce, que permita terminação a pasto;
c) Cruzamento Sistema Intensivo (Angus x Nelore) – na engorda em confinamento, pode-se explorar mais da genética superior para ganho de peso, porém, extremos em tamanho podem nos trazer animais “intermináveis”, mesmo em uma raça precoce.
Somadas as situações A, B e C, temos ainda outra variável que faz mais complicada a correta eleição de genética para cruzamento: a engorda de bovinos inteiros ou castrados, pois no lugar de três situações do exemplo passamos a ter seis bem distintas.
Os animais muito precoces (e castrados) terminam muito leves no confinamento e produzem cortes pequenos. Essa situação até atende as necessidades de alguns programasou marcas de carne voltados para as boutiques ou churrascarias, todavia, são inadequados para os frigoríficos exportadores e para o mercado internacional, em que o tamanho das peças tem grande importância. Por outro lado, os animais muito tardios não atendem as especificações mínimas de cobertura de gordura para o mercado nacional de carne de qualidade ou o mercado internacional mais exigente. Essa já era a minha percepção e pude confirmar recentemente em conversa com o amigo Roberto Barcellos, da Beef & Veal, e, hoje, o profissional mais atuante no segmento de marcas de carne.
Bem no período que estou redigindo este artigo, ocorre a feira de alimentos SIAL na França, e lá está sendo promovida a Carne Angus brasileira para todo o mundo. É um bom avanço e mais passos dados para acessarmos mercados diferenciados, entretanto, precisamos estar mais atentos ao tipo de genética que usamos para que o sistema de produção seja eficiente e o produto final esteja como buscam esses mercados.
* Publicado na coluna "Do Pasto ao Prato", Revista AG (Ed. Novembro, 2014)
Foto: Divulgação/Assessoria
Foto: Divulgação/Assessoria
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