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Motivos do criador: margem de lucro ou coerência pessoal?

Mercado | 18 de Agosto de 2026
Em agosto de 2022, redigi o texto "Métricas financeiras na pecuária: R$ por ano ou alegria por ha?". O tema era simples e tentava traçar algum paralelo entre métricas produtivas e financeiras da pecuária e as escolhas pessoais do produtor, escolhas de vida. Vale à pena abrir mão de parte da margem de lucro do negócio por uma forma de criar mais alinhada como nosso querer?

O oficio de escrever é prazeroso e nos traz diversos ganhos de crescimento e conhecimento pessoais, mas são raros os retornos dos leitores. As ideias são lançadas e pouco sabemos se temos mais parceiros naquele pensar. Do texto que citei, tive alguns interessantes retornos e apoio de pessoas que considero bastante, que dedicaram algum tempo para me estimular a seguir nesta rotina de escrever ideias, quase todos os meses, nestes últimos 15 anos. Recarreguei um pouco as baterias.

Retomo ao mesmo tema porque o considero recorrente, presente, permanente e perene. Os motivos para algumas decisões do pecuarista vão bem além da expectativa de rentabilidade da operação (do resultado financeiro no curto ou médio prazos). Participam das decisões alguns valores pessoais que nem sempre estão visíveis na superficie. Parte dessas decisões, dos investimentos e do trabalho do produtor, são motivados pela busca do fortalecimento do sistema de produção (solo, água, pastos, saúde e qualidade do rebanho).

Parece algo muito simples e lógico investe-se na fábrica para que ela produza mais. Ao passar dos anos, é o que ocorre, mas as respostas não são imediatas. Dependem do clima, da biologia, da maturação de alguns processos biológicos. Nem sempre os resultados produtivos e financeiros se apresentam na velocidade que esperamos, no momento de alta do preço do boi, nas viradas de ciclo.

"Velloso, então investimos para produzir mais e arriscamos ganhar menos neste ano ou no próximo?" Resposta: Sim, muitas vezes fazemos isso. Acreditamos que, no longo prazo, será melhor para a fazenda, para o solo e para o gado. Mesmo, que, no curto prazo, não seja melhor (financeiramente) para o dono. Sincronizar mercado com decisões de investimentos e desembolsos é bem menos simples do que sincronizar o cio das vacas.

Acreditar no processo

O Campo Nativo Melhorado (CNM) é uma prática bem estabelecida no RS. Os campos secam no inverno e queimam com as geadas. A palhada é roçada, é semeado azevém a lanço e adubada a área. O campo fica uma mistura de pasto seco e pastagem de alta qualidade.Ao final da primavera, a área é fechada para o azevém sementar e ir se formando um banco de sementes no solo. No verão ou outono seguinte, o processo é refeito: roçada, semeadura e adubação. E assim sucessivamente por muitos anos.

Ao longo dos anos, as áreas também vão suportando mais animais no inverno/primavera e verão/outono. Para se realizar este procedimento por vários anos e em mais áreas a cada ano, é necessário acreditar no processo e no longo prazo. Entra em campo a coerência pessoal de cuidar daquele local, de seguir na busca por realizar algo melhor e se realizar com isto. Ao final, o sistema estará fortalecido e produziremos alimentos de forma mais eficiente.

Em Livramento, um colega veterinário com o qual fiz estágio, me mostrou com muito orgulho: "Velloso, este azevém é nativo aqui, na Estância do Planalto. O pai plantou faz mais de 40 anos e cuidamos para que fique perene por aqui".

Os motivos dos criadores são os mais diversos. Vão muito além das métricas mais usuais que debatemos em eventos e seminários.

Por algumas vezes, auxiliei na compra de lotes de vacas puras (definidas em uma raça), mas os criadores não deram continuidade ao registro dos produtos. Alguns me explicaram: quero essas vacas pra ficarem no campo da frente da casa: é bonito de ver. 

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Neste agosto de 2026 nos deixou o Leiloeiro Marcelo Indarte Silva. Leiloeiro com letra maiúscula. Fez história e escola para tantos que atuam nesta área. Muito obrigado Sr. Marcelo!


Fonte: Revista DBO, agosto/2026

Motivos do criador: margem de lucro ou coerência pessoal?

Foto: Divulgação DBO