Ao dividir a produção internacional de carne bovina em dois grupos, o analista de mercado Simon Quilty identificou uma lacuna crescente na oferta global — um cenário que também permitiu uma previsão clara sobre o ponto em que a expansão dos confinamentos na Austrália deve, eventualmente, estagnar.
Quer entender a situação da oferta e demanda global de gado de corte e o que o futuro reserva?
Aqui está uma perspectiva diferente, que oferece um panorama mais aprofundado do que apenas os números nacionais de rebanho.
Recentemente, ao preparar um relatório de análise abrangente para uma grande cadeia produtiva de carne bovina na Austrália, a equipe da Global Agri-Trends — composta por Simon Quilty e Brett Stuart — adotou uma abordagem distinta.
Eles dividiram a produção mundial de carne bovina em dois grupos, baseando-se, de modo geral, em critérios de qualidade: um composto majoritariamente por gado Taurino (Bos taurus) e outro predominantemente por Zebuíno (Bos indicus).
Embora não se trate de um censo definitivo da produção bovina em cada país, a metodologia foi escolhida pela sua simplicidade, visando destacar a posição que cada nação ocupa no espectro global que vai da carne de maior qualidade à commodity.
De um lado, agruparam países com níveis expressivos de produção de gado taurino, incluindo Austrália, Argentina, Estados Unidos, países europeus, México e Canadá.
Do outro, incluíram nações com grandes rebanhos dominados por zebuínos, como o Brasil e a Índia.
FIG. 1 - Produção global de carne bovina - Zebuínos x Taurinos (2000 a 2026)
“É a primeira vez que consigo apontar nove países que estão, todos, em um processo de recomposição de rebanho”, disse ele ao Beef Central esta semana.
“Portanto, em nível global — considerando tanto zebuínos quanto taurinos —, todos esses países passarão por uma retenção de fêmeas e uma redução no número de abates nos próximos dois anos, até 2028; depois disso, os números começarão a subir novamente.”
De modo geral, ele afirmou que a Global Agri-Trends prevê uma queda de 15% nas taxas globais de abate nos próximos três anos, à medida que essa recomposição de rebanho ocorre em larga escala.
“Isso significa preços mais altos, não apenas para a Austrália, mas globalmente”, disse ele.
No entanto, apesar da recomposição, ele enfatizou que, no geral, “a tendência de longo prazo para taruinos não muda”.
“O taurino voltará aos trilhos, mas aquele declínio de longo prazo de 3% continua; na prática, isso significa que a diferença de preço entre produtos de qualidade e commodities tende a aumentar”, afirmou.
A Austrália respondeu
A Austrália tem sido um dos poucos países a responder a essa mudança, afirmou ele — algo que se reflete na recente expansão de seu setor de confinamento e no aumento da produção de gado das raças Angus, Wagyu, compostas e do tipo "flatback" (gado com predominância de genética zebuína) no norte do país.
“É um excelente exemplo de como ocupar esse nicho em nível global, num momento em que a oferta tem diminuído”, disse ele.
“No panorama geral, nossos números no norte são relativamente pequenos se comparados à tendência global; ainda assim, conseguimos nos adaptar e buscar suprir a crescente escassez de carne de qualidade no mercado mundial.”
Essa tendência, segundo ele, contraria a crença comum de que a classe média continuará crescendo e que a produção de carne bovina de qualidade acompanhará esse ritmo, independentemente de qualquer fator.
“Refiro-me, especificamente, à carne bovina de qualidade; a oferta desse produto tem se mantido notavelmente estável ao longo dos últimos 26 anos, graças ao aumento no peso das carcaças.”
“Se o peso das carcaças não tivesse aumentado, a oferta real teria diminuído. Na verdade, foi o gado zebuíno — voltado ao mercado de commodities — que registrou um crescimento tanto no peso das carcaças quanto no volume de animais, atendendo, assim, à crescente demanda global por proteína.”
Onde a atual onda de expansão de confinamentos na Austrália deve parar?
Ele também acredita que, seguindo essa mesma tendência, o setor de confinamento na Austrália continuará a se expandir pelos próximos três anos — mas, depois disso, o crescimento deverá se estabilizar, em vez de continuar de forma desenfreada.
“Se eu estiver certo quanto aos processos de recomposição de rebanho e ao declínio, a longo prazo, das raças taurinas, prevemos três anos de crescimento bastante sólido para o setor de confinamento na Austrália.”
“Passaremos do patamar atual de 1,6 milhão para 2,1 milhões de cabeças.”
“Acredito que, a partir daí, atingiremos um limite — o que representa um aumento de 30%.”
“Manteremos o patamar de 2,1 milhões e, na sequência, haverá um leve recuo, à medida que ocorram os processos de recomposição de rebanho — sobre os quais mencionei — em escala global.”
Ao projetar o cenário para os próximos 10 anos, o Sr. Quilty afirma esperar que o ciclo siga a seguinte dinâmica:
Previsões do Ciclo Pecuário (2026–2035)
O efeito líquido seria a estabilização do setor em um patamar de cerca de 1,85 milhão de cabeças em confinamento.
“Não acredito na ideia de que o setor de confinamento continuará crescendo indefinidamente, tornando-se cada vez maior”, afirmou ele.
“Acredito que o crescimento atual é uma resposta à demanda global. Prevejo que, por volta de 2028-2029, a demanda global atingirá seu pico e, na sequência, permanecerá relativamente estável, à medida que os rebanhos forem recompostos ao redor do mundo.”
“Tenho, inclusive, dados concretos que sustentam minha visão de que o setor de confinamento australiano ainda tem potencial de crescimento, mas limitado a 2,1 milhões de cabeças.”
“Esse número refere-se ao efetivo real em confinamento; a capacidade instalada, por sua vez, costuma ser superior, podendo chegar a 2,3 ou 2,4 milhões de cabeças.”
“De qualquer forma, ao longo dos próximos 10 anos, a oferta global de gado de qualidade tenderá a ficar mais restrita, enquanto a disponibilidade de gado de padrão comercial (commodity) será maior. Como resultado, o gado de qualidade se tornará mais valioso, ampliando a diferença de preço entre as duas categorias.”
“O rebanho da região norte da Austrália tem respondido de forma excelente a essa tendência global.”
Fonte: BEEF Magazine, por James Nason (15/10/26) - Traduzido e adaptado pela Assessoria Agropecuária
Foto: Divulgação/Assessoria
Foto: Divulgação/Assessoria
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