Temporada de terneiros: pecuária capitalizada
Mercado | 07 de Abril de 2014
Pecuária Capitalizada (C.Povo)
Foto: Divulgação/Assessoria
Capitalizados pela boa safra de grãos, muitos agropecuaristas anteciparam-se à temporada de outono de venda de terneiros e foram às compras antes do início das feiras oficiais. Eles esperam, com isso, driblar a alta dos preços. A projeção do setor é de que o valor pago pelo quilo vivo sofra um reajuste de 20%, frente a estimativa de uma redução da oferta de animais nas pistas. As primeiras das 90 feiras de outono previstas no calendário oficial da Secretaria da Agricultura (Seapa) até o final de junho tiveram início no dia 1˚. Antes disso, porém, o criador Rodrigo Fialho, do município de Uruguaiana, comprou 500 cabeças, desde o mês de janeiro. Afirma ter pago o que considera um preço justo, 15% a 20% acima do quilo do boi gordo — de R$ 4,80 a R$ 5. Além do custo, está satisfeito com a qualidade dos terneiros adquiridos das raças Brangus e Bradford. “São os terneiros mais pesados, um gado de mais qualidade. Essa é a vantagem de se adiantar”, observa. Segundo o leiloeiro Marcelo Silva, a safra positiva acelerou as compras. “Eles estão buscando completar suas posições comerciais o quanto antes, pois esperam uma disparada na feira. Estão comprando os terneiros hoje na faixa de R$ 5/kg (machos), justamente esperando evitar essa alta de preços”, observa. Com redução de oferta prevista em 20% e demanda em alta, a expectativa dele é que os preços oscilem entre R$ 5,00 kg/vv e R$ 6,00 o kg/vv para os machos, superando a média de R$ 4,80 o kg/vv da temporada passada. Nas fêmeas, a projeção é de que o quilo vivo passe de R$ 4,20 a até R$ 5,50. Para Silva, o fato de a safra de grãos incentivar o produtor a ir às compras comprova que pecuária e agricultura podem
ser complementares uma a outra — ao contrário do que muitos pensam. O presidente da Comissão de Feiras e Eventos da Farsul, Francisco Schardong, não teme o esvaziamento das feiras oficiais, apesar da concorrência da venda direto nas propriedades. “A expectativa é muito boa. É um mercado altamente comprador.”
O presidente do Sindiler, Jarbas Knorr, diz que muitos dos criadores têm demonstrado vontade de ficar com os terneiros para aproveitar a expectativa de boas pastagens. “O produtor rural está muito capitalizado, alguns talvez não precisem vender. Vão deixar para fazer isso com um ano, um ano e meio”, avalia Knorr, que projeta R$ 5 o kg/vv na feiras. A temporada deste ano não terá mudanças nas regras sanitárias do circuito, informa o chefe de Exposições e Feiras da Seapa, Honório Franco. Ele afirma que a compra é uma decisão individual, mas aconselha que seja dada preferência às feiras oficiais, que são fiscalizadas com base em normas rígidas para garantia da qualidade dos animais. O peso mínimo exigido para admissão é de 160 kg para machos nascidos na primavera e de 200 kg para nascidos no outono e de 150 kg para as fêmeas nascidas na primavera e 180 kg para as de outono. Uma das principais feiras, a de Lavras do Sul, terá novidades. Diferentemente do que ocorria até 2013, o evento foi dividido em dois: um em abril, outro em maio. “Estava acumulando muito terneiro e isso é desgastante para o comprador, o vendedor e para quem trabalha”, explica o presidente do Núcleo de Criadores de Terneiros, José Ângelo Etchichury. Na contramão da tendência estadual, a feira deve elevar a oferta, no ano passado de 3,8 mil
animais. Serão, ao todo, 4,3 mil. “Devem estar vindo terneiros de ponta, que são os mais novos que atingiram o peso antes.”
No PR, preço acima de R$ 5 tendência de que o preço do quilo vivo do terneiro ultrapasse os R$ 5,00 é reforçada em feiras já realizadas fora do Estado. No Paraná, os valores apresentaram alta, o que pode ser um indicativo para o comportamento do mercado gaúcho. “Alguns lotes alcançaram R$ 6,00”, diz o consultor da Assessoria Agropecuária FF Velloso & Dimas Rocha, Fernando Velloso. De acordo com ele, embora o volume vendido nas feiras — em torno de 50 mil cabeças — não seja tão representativo do ponto de vista do estoque e do potencial comercial, ele é importante como formador de preço e para que produtores menores possam ofertar sua produção. O preço do terneiro tem como base a cotação do boi gordo. “Em anos bons, em que existe bastante demanda pelo gado, esse terneiro costuma valer de 15% a 25% a mais do que o boi gordo”, explica o consultor. Seguindo o ritmo nacional, no Estado o quilo do boi gordo deu salto do ano passado para cá, de R$ 3,30 para R$ 4,20.
O zootecnista Fábio Schlick, assistente técnico da Regional da Emater em Bagé, explica que a alta é influenciada pelo cenário internacional e pela expansão do agronegócio. “O avanço da soja desalojou muita área de pecuária e isso já está refletindo no mercado.” Apesar do cenário, o reajuste de preços nas feiras não irá se refletir em alta imediata do preço da carne no varejo. “A disponibilidade de terneiro hoje irá impactar o preço da carne provavelmente para 2015 e 2016, quando esse produto vai ser ofertado”, justifica Velloso.
Desmame x renda
No atual estágio de produção ocorre o desmame dos terneiros. Para obter um peso maior, com a meta de incrementar produtividade e renda, o criador deve ter
alguns cuidados. Segundo o professor Júlio Barcellos, coordenador do Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (Nespro)
da Ufrgs, a orientação mais prática é fazer com que os terneiros nasçam mais cedo — por exemplo, entre julho e agosto. “Portanto, quando chegarem ao desmame, geralmente estão um pouco mais velhos. Os terneiros que têm mais idade serão mais pesados”, observa. As vacas devem ser manejadas com bom nível alimentar. Isso significa que elas devem ter um pasto de melhor qualidade logo após o parto. A atenção deve ser reforçada nos primeiros 90 dias de parição. “Nesse momento ocorre maior produção de leite. Consequentemente, o terneiro cresce mais.” Outra alternativa, considerada econômica e eficiente, é utilizar feno de palha de arroz para alimentar
a fêmea antes de dar à luz. Entre as técnicas utilizadas, há ainda o creep-feeding, baseado no uso de cochos cercados onde somente o terneiro tem acesso. Dessa forma, é possível colocar no local uma alimentação específica. As alternativas, porém, devem levar em conta a preservação da função reprodutiva. “Muitas vezes, na tentativa de se
obter um bom terneiro ao desmame, acaba- se prejudicando muito a vaca e com isso ela acaba por não produzir uma nova cria”, alerta Barcellos.
Desmamar um terneiro pesado, acima de 200 kg, pode ser vantajoso desde que a vaca esteja prenhe novamente. O especialista ressalta que existe mercado para
esse tipo de produto. Nos terneiros pesados, o preço pago por quilo é menor, mas o valor por cabeça supera os mais leves. No entanto, o Brasil ainda não consegue produzir terneiros com peso próximo de 300 kg, como ocorre, por exemplo, nos Estados Unidos. “Estes outros países estão numa situação em que as vacas
produzem uma cria por ano. A partir daí, os pecuaristas desmamam terneiros cada vez mais pesados.” Segundo Barcellos, o Brasil precisa ultrapassar o primeiro
degrau: que a maioria das vacas produza um terneiro/ano. Hoje, o índice de desmame no país é próximo de 65%. Adepto do creep-feeding há dez anos, Celso Jaloto, de São Gabriel, consegue aumento de peso entre 15 e 30 kg no desmame. “Isso facilita o animal a desmamar com um peso maior e torna esse animal, que é novo, ruminante mais cedo. Ao deixar de mamar, o terneiro faz com que a vaca perca menos peso, o que beneficia a reprodução. “É no desmame que vai estar toda a produtividade. Se o criador trabalhou mal, deixou de tomar medidas, irá perder”, diz o pecuarista, dono de 600 bovinos Hereford e Braford.
Fonte: Correio do Povo, 06 de abril 2014 (Danton Júnior)