


Em dia de remate na Estância São Pedro, todos querem um aperto de mão de Eduardo Macedo Linhares. De andar manso e sorriso tímido, o pecuarista recebe novos e antigos clientes da GAP Genética, que cruzam os céus da fronteiriça Uruguaiana em seus jatinhos ou levantam poeira na estrada em suas turbinadas caminhonetes, atrás de gado de qualidade. E encontram.
Há anos a GAP está no topo da lista de faturamento na temporada de remates de Primavera do Estado gaúcho. Não é para menos: Eduardo, que sempre vislumbrou horizontes de vanguarda, estendendo seus tentáculos para o Brasil Central, por exemplo, e invariavelmente de olho nos avanços das tecnologias, é hoje o patriarca de um império que se estende pelo País e lhe confere o status de estar entre os principais criadores do mundo. E o Angus, claro, faz parte desta história vitoriosa.
Aos 84 anos, Linhares lembra de como iniciou a criação. Tudo começou por volta de 1906, quando João Vieira de Macedo fundou a tradicional Cabanha Azul. Porém, a qualificação dos rebanhos de Angus veio entre as décadas de 50 e 70, com o tio, Lauro Macedo, um grande criador da raça. “Naquele tempo toda seleção era feita no olho. Os objetivos eram diferentes, o negócio era ter um Angus grande e produzir novilhos. O importante não era a genética, e sim o tamanho do animal”, lembra. Os animais da legendária Cabanha Azul, que comandou ao lado do primo João Vieira de Macedo Neto (o Macedinho) chamavam a atenção. A cabanha teve projeção internacional, recebendo diversas premiações entre as raças trabalhadas. Foi então que as vendas precisavam ser centralizadas e os primeiros leilões, de Angus e Devon, começaram a acontecer. A cabanha foi pioneirana execução dos remates.
“O Hilton Jacques (um técnico de exceção) era parceiro do tio Lauro, viajavam atrás dos animais. O new type era preferência de criação”, lembra Eduardo. Também se iniciavam as participações em Esteio, RS (hoje Expointer), onde a cabanha foi por centenas de vezes premiada. Neste tempo, Eduardo corria o mundo pesquisando genética. EUA, Escócia eram o os destinos preferidos quando o assunto era o Angus. Para o alegretense, um período de ricas experiências. Nobres, diríamos. Linhares, na década de 70, foi jurado de uma feira britânica onde premiou os animais de ninguém mais ninguém menos que Elizabeth II.
GAP abre caminhos pelo Brasil
Em 1993, acontece a partilha dos ativos da Cabanha Azul e nasce a GAP, com Eduardo a frente dos negócios. Naquele tempo, a criação era voltada
para o Uruguai e Argentina. O Brasil Central era esquecido. “Identifiquei um novo mercado, essencialmente de cruzamento. Era hora do Angus cruzar com o Nelore e haver um melhoramento da carne. Fizemos um programa de relacionamento com o Brasil Central, com a ajuda do amigo Luis Alberto Fries (um dos mais importantes geneticistas do País, criador do Grupo GenSys). Fornecíamos a genética e tínhamos uma produção de animais de carcaça diferenciada”, conta Linhares.
A cabanha ganhou mercados Brasil afora: Dourados, Jaciara, Campo Grande, Três Lagoas (MS), Rondonópolis, Cuiabá (MT), Araçatuba (SP), Londrina (PR), Goiânia (GO) e Salvador (BA). Hoje, são mais de 20 mil hectares dedicados à pecuária: um rebanho de 7 mil ventres, registrados e controlados através do Sistema de Avaliação Natura, dos quais 4,2 mil ventres Brangus, que formam o maior plantel da raça no mundo, 1,5 mil são ventres Angus e outros 1,3 das raças Hereford e Braford, que geram, anualmente, em torno de 6 mil produtos.
“Mudou muito e para melhor, houve uma qualificação na criação. Hoje, temos consciência que o animal bom é o que transfere sua genética e produz mais e mais rápido. Priorizamos animais superiores nos programas de melhoramento genético. Outra questão marcante na nossa criação é que fugimos de artificialismos. Isso não é pra gente".
Fazer dos herdeiros empresários
Eduardo orgulha-se de sua contribuição para o desenvolvimento da carne de qualidade em seus rebanhos. Hoje, quem cuida da parte de genética da cabanha é a filha, a veterinária Angela. “Mas ainda sou bastante solicitado, o que me deixa feliz”, diz. Eduardo vem, aos poucos colocando pé no freio. Na São Pedro, vai uma vez por mês. O resto do tempo fica em Porto Alegre, RS. “O gosto pelo golfe me pegou. Isso me prende aqui em Porto Alegre”, diz ele sentado confortavelmente em uma poltrona estilo século XVIII de seu escritório, há poucos metros da Padre Chagas, uma das ruas mais charmosas da capital gaúcha.
Ele gosta de deixar claro que, mesmo não indo com tanta frequência na estância, sabe, assim como o restante da família, tudo o que se passa. “Gosto muito de relatórios, planilhas. Cada um manda a sua. Temos um Conselho de Família. Para trabalhar conosco não basta ser parente, há critérios. Uns passam pelo processo e ficam. Outros, não. É da vida”, comenta.
Eduardo curte o momento mais “light” sempre ao lado a esposa, Maria Helena, com quem é casado há 58 anos. “Qual o segredo para durar tanto? O mesmo para que tudo dure e prospere, seja um casamento, um negócio... Sempre digo a meus filhos e netos: é preciso saber engolir sapos”, comenta.
São cinco filhos, 10 netos e um bisneto a caminho. Um verdadeiro império do agronegócio construído e contribuições para o setor das mais variadas (bem amplas, inclusive). Embora grande proprietário, em 2000, quando o governo Olívio Dutra enfrentava certa tensão com grandes produtores, Linhares foi escolhido para receber a Comenda Assis Brasil. Também foi integrante do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social de Tarso Genro. Jogo de cintura e diplomacia não faltam.
“Hoje, o mais gratificante para mim é reunir todo mundo. Tentamos, uma vez por ano, fazer alguma viagem internacional. Já fomos para muitos lugares, Costa Rica, Tailândia. Tem que ter surf para os netos e, óbvio, golfe. Esses são os critérios. Vejo que consegui, ao longo da vida, ter esse equilíbrio: sucesso na formação da família e na produção de carne de qualidade. Me sinto extremamente satisfeito”,conclui.
Fonte: Jornal Angus@newS, por Marina Corrêa (Edição Junho/2015)