

Especialista no tema, o pesquisador João Ricardo Martins, do Laboratório de Parasitologia do Instituto de Pesquisas Veterinárias Desidério Finamor (IPVDF), recomenda que o criador avalie a sensibilidade dos carrapatos em relação aos carrapaticidas. “Com base nisso, ele vai traçar as medidas de controle”, explica. O pesquisador aponta que a falta de novos ingredientes ativos no mercado é considerada um gargalo, ao mesmo tempo que o manejo incorreto favorece a presença do parasita. “Existe um aumento no índice de resistência e, consequentemente, o produtor tem que fazer mais tratamentos. Se ele utilizava cinco tratamentos, nesse período vai utilizar seis ou sete”, exemplifica.
A preocupação crescente com o parasita levou o Conselho Regional de Medicina Veterinária (CRMV-RS) a organizar um seminário sobre o tema, previsto para ocorrer durante a próxima Expointer, em Esteio. Para o vice-presidente do órgão, José Arthur de Abreu Martins, um dos prováveis motivos para o aumento da incidência é o fato de que “o Estado não tem sido muito efetivo” nesta questão. Outro fator apontado por ele é que muitos produtores fazem uma subutilização dos produtos, o que pode levar a consequências desastrosas. “Um banho carrapaticida, com dosagem errada, a médio prazo vai levar a uma resistência (do carrapato). Muitas vezes o próprio produtor nem se dá conta disso”, adverte o veterinário. O prejuízo para o produtor é ainda mais significativo em tempos de valorização da carne bovina. As perdas, no entanto, não ficam restritas à carne. “O couro bovino de gado europeu é muito mais valorizado. No momento em que está todo picado, ele perde um valor absurdo”, acrescenta José Arthur.
Uma das esperanças do setor é que a indústria de medicamentos trabalhe no reconhecimento de novas moléculas, que possam levar a novas ferramentas de controle. O custo elevado, porém, é um entrave ao desenvolvimento desses produtos. O vice-presidente executivo do Sindicato Nacional da Indústria de Produtos para Saúde Animal (Sindan), Emílio Salani, admite que a indústria não tem conseguido aproveitar a molécula o tanto quanto gostaria, mas alega que o aparecimento da resistência do carrapato aos produtos devese “ao alto nível de utilização e à possibilidade de subdosagem”. Para Salani, nenhuma propriedade do país pode tratar qualquer parasita sem “tratar estrategicamente os animais, recisando ou não”. “O que nós entendemos é que temos que partir para uma nova ordem, que é utilizar moléculas, tentar não subdosá-las e trabalhar com um programa”, define.
Seleção genômica busca superação de gargalos
Associações também organizam programas decapacitação para enfrentar parasita cada vez mais resistente
A alta incidência de carrapatos nos rebanhos gaúchos fez com que associações de raça buscassem alternativas para enfrentar o problema. Com treinamentos e seleções de genes, as entidades visam superar as dificuldades ocasionadas pela oferta restrita de produtos veterinários e a crescente resistência dos ectoparasitas.
Em parceria com uma empresa de produtos veterinários, a Associação Brasileira de Angus deu início, em novembro do ano passado, a um programa de capacitação de criadores e funcionários de cabanhas. Os primeiros treinamentos foram realizados no interior de São Paulo, mas a iniciativa deve chegar em fevereiro ao Rio Grande do Sul, em evento marcado para a Cabanha Umbu, em Uruguaiana. O objetivo é esclarecer os produtores sobre os principais equívocos que têm ocorrido no combate ao parasita. “Esse treinamento trata desde a etiologia do carrapato, como ele se desenvolve na natureza, o seu ciclo de vida, incluindo os programas de controle, além de explicar como funciona cada tipo de produto”, descreve o veterinário Rednilson Moreli Gois, técnico da associação. Ele aponta os três equívocos principais observados em muitas propriedades: falta de conhecimento sobre o ciclo do carrapato, falta de conhecimento sobre a ação de cada medicamento e erros no modo de aplicação.
“Cada propriedade tem uma necessidade diferente, mas o principal método é o controle estratégico, ou seja, é montar um programa de controle”, explica o técnico. De origem europeia, o Angus não tem defesas naturais, segundo Gois, o que aumenta a necessidade de controle. Por isso, paralelamente aos cursos, a associação pesquisa o genoma da raça. “Estamos pegando os animais mais resistentes, fazemos a identificação do genee selecionamos animais com esse perfil genético”, enumera o veterinário. O trabalho é realizado há um ano em conjunto com a Unesp de Jaboticabal (SP).
Iniciativa semelhante é desenvolvida pela Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB), que, em conjunto com a Embrapa Pecuária Sul, deu início a uma seleção genômica que identifica os touros mais resistentes ao carrapato. A iniciativa visa “driblar” a restrição na oferta de novos produtos veterinários no mercado. “É um projeto de longo prazo, enquanto que os laboratórios vêm trabalhando vagarosamente dentro de novos produtos”, explica o CEO da ABHB, Fernando Lopa. Uma das bandeiras da entidade é o estímulo à utilização de sêmen proveniente do rebanho nacional. Acima do Trópico de Câncer e abaixo do Trópico de Capricórnio não há incidência do parasita. Consequentemente, o gado destas regiões é menos resistente ao carrapato. “A associação não é contra a importação, mas ela alerta o produtor para que verifique se o animal vem de locais suscetíveis, porque isso é uma informação importante”, ressalta Lopa.
Segundo o pesquisador Fernando Cardoso, da Embrapa Pecuária Sul, a iniciativa deu origem a um painel de marcadores, que permite verificar a resistência sem expor o animal ao ectoparasita. “A genética é uma das ferramentas, mas ela tem que ser combinada com o bom uso da ferramenta química”, afirma. O especialista aponta, porém, que esta é uma das maiores dificuldades encontradas pelos criadores, uma vez que a maioria dos produtos tem um ciclo de mercado limitado devido à resistência do carrapato. “Se o uso não for correto, o ciclo é mais curto ainda.”
Controle exige atenção aos detalhes
Entre as estratégias dos produtores para cortar ociclo do carrapato estão banhos e uso de medicamentos
Com 4,5 mil animais das raças Hereford e Braford, o produtor Paulo Fleck, de Alegrete, teve parte do seu rebanho acometida por um surto de carrapatos há cinco anos. Na época, perdeu cerca de 15 animais, número pequeno se considerado o total. “Mas a perda subclínica não tem como medir”, observa. De acordo com o produtor, o impacto no peso do animal é de 20 a 30 quilos. “Às vezes, não é que ele vai perder peso, mas ele não engorda”, explica Fleck, titular das cabanhas São Manoel e Sina-Sina.
Após o “susto”, o criador mudou a estratégia de combate ao parasita, a começar pelo princípio ativo do medicamento utilizado. Um banho estratégico é aplicado no final de agosto. Depois, entra o produto avançado, que pode ser uma avermectina. O controle tem continuidade com dois banhos, com intervalo de 21 dias, durante a primavera. “A tendência é cortar o ciclo (do carrapato). E quando chega o verão, sempre damos um banho ou outro”, relata. Hoje, não há incidência de tristeza parasitária no rebanho.
A preocupação com o combate ao parasita fez com que Fleck fosse um dos produtores participantes da avaliação genômica realizada pela Associação Brasileira de Hereford e Braford (ABHB). “Não que vamos erradicar, mas podemos ter famílias menos suscetíveis”, justifica. Desta forma, de acordo com ele, a resistência ao carrapato deve ser transmitida aos filhos desses animais, formando um rebanho menos suscetível a danos.
O custo alto para manter o rebanho saudável, porém, é uma das reclamações dos produtores. O criador Gilberto Marques de Azevedo, de Cidreira, no Litoral Norte, calcula que tenha gastado cerca de R$ 12 mil em controle de carrapato na sua propriedade, que conta com 700 animais da raça Angus — o que representa uma média de R$ 17 por cabeça. Azevedo, no entanto, ressalta ser fundamental fazer o controle, especialmente após enfrentar problemas com o parasita em sua fazenda, em 2014. Hoje o produtor utiliza banho de imersão, pour on e produtos injetáveis. Ele atribui os problemas ocorridos no ano retrasado a erros de manejo. Até então, realizava apenas os banhos de imersão. “Tem que intercalar os métodos. Se fizer muitos banhos, no terceiro o carrapato já começa a ficar resistente”, relata o produtor, que administra a Fazenda Santa Izabel, com foco em gado de cria, ao lado do filho Humberto.
Fonte: Jornal Correio do Povo, Caderno Correio do Povo Rural (10/01/2016)