Foto: Divulgação/Assessoria
A estação mais quente para a venda de terneiros já começou. Sob a sombra da crise nacional, que chega, aos poucos, ao campo, o principal entrave para os negócios nas feiras de outono está nas vendas diretas na propriedade e de animais vivos para outros países ou Estados, modalidades que vem crescendo ano a ano. Nesta temporada, com a economia em baixa, a alternativa ajuda a reduzir custos. Diante deste cenário, leiloeiros inovam e oferecem atrativos a vendedores e compradores.
Para conquistar clientes, as estratégias dos organizadores das feiras vão desde a divulgação dos eventos pela internet - maior visibilidade dos terneiros -, divisão ou quitação de custos de exames sanitários e de frete, desconto no valor do brinco para identificação e até no parcelamento para compra de animais.
— Temos o cliente fiel, que conhece nossa qualidade. Para os novos, também tem aquele churrasco que promovemos antes do leilão — brinca o dono da Morungava Remates, o leiloeiro João Valter Medeiros, que investe no relacionamento com o cliente.
Essa mesma fidelidade conquistada fez com que a Trajano Silva Remates optasse por não participar de feiras neste ano, realizando apenas um leilão eletrônico, e concentrando os negócios no meio de campo entre vendedor e comprador na comercialização direta. Segundo o leiloeiro Marcelo Silva, trata-se de uma aposta da empresa, da mesma forma que é para o pecuarista:
— São dois lados da mesma moeda. O produtor pode ir à feira e oferecer seu produto a mais pessoas, mas corre o risco de estar deixando de ganhar mais com uma proposta de compra na propriedade. Assim como pode fechar negócio em casa e depois na feira a média ficar mais alta — pondera Silva.
— Não existe uma tabela, por isso não tem uma receita do que é melhor.
Pecuarista e advogado de Cachoeira do Sul, Edgar Ferreira Lima, 62 anos, utiliza as duas modalidades. Na quarta-feira passada, participou da Feira de Terneiros do município e vendeu quatro lotes de cruzamento de limousin com angus por uma média de R$ 6,70 por quilo — acima da feira, que foi de R$ 6,62, e das próprias expectativas.
— Vendi em casa uma carga com esse mesmo valor, e achei bom, porque os leilões anteriores tiveram médias mais baixas — comentou Lima, provando que o mercado não tem fórmula pronta.
— Gosto de ir à feira para mostrar a qualidade do meu gado, não necessariamente para lucrar mais — diz o produtor.
Acostumado a orientar pecuaristas, o consultor Fernando Velloso, sócio da Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha, alerta que não existe decisão acertada ou equivocada sobre ir ou não a feiras. Ele detalha que o transporte de animais e o comissionamento dos organizadores encarece a venda em feiras de cada terneiro em 3% a 5%. Mas, devido à maior oferta, os expositores conseguem uma margem maior no preço final, lucrando possivelmente mais do que na venda direta. Se houver um corretor na comercialização na propriedade, o custo é de cerca de 2%, aponta o especialista.
Uma das vantagens que costuma ressaltar aos clientes é o planejamento proporcionado pelas feiras. Assim como pode ser ruim ter uma data pré-estabelecida para a venda, "que pode ter algum problema, como um temporal ou até um impeachment", a feira permite ao produtor fazer um cronograma.
— Ele pode calcular: vou ter um determinado número de animais prontos naquele dia, vou liberar tal área para outros ou para alguma plantação. Aumenta a previsibilidade do negócio. Na venda direta, ele pode anunciar, mas pode ter que esperar um mês até vender. E animais têm custo para serem mantidos — salienta Velloso.
Rubens Manoel Terra Lucas, 77 anos, pecuarista e médico de Viamão, só vende seu gado nas feiras. A decisão, segundo ele, é baseada na confiança que deposita nos negócios fechados por meio de leiloeiros.
— Sou um bom comprador e um mau vendedor. Lá, não corro risco de me incomodar — resume.
Bancos prometem crédito para as mostras
A disponibilidade de crédito por parte dos bancos é apontada como uma das principais vantagens das feiras oficiais. Mas é preciso que as instituições ofereçam linhas efetivas e com juro favorável. No ano passado, uma das principais queixas foi a falta de dinheiro e as taxas. Para a atual temporada, os bancos prometem atender à demanda por financiamentos.
— Estaremos presentes em todas as feiras de outono e nas que vierem ao longo do ano — afirma o diretor de crédito do Banrisul, Oberdan de Almeida.
O executivo não abre o total que o banco vai disponibilizar no atual período. Ele explica que os recursos serão compatíveis com o perfil de cada feira, cujo histórico foi analisado. Mas haverá limite por comprador, de R$ 70 mil. Almeida detalham que os recursos obedecem a uma margem, acompanhando a crise político-econômica.
— Limitamos o crédito porque os recursos não são tão abundantes. Se não restringirmos, pode chegar um grande pecuarista e levar toda a verba da feira. Por isso, procuramos pulverizar — explica o diretor do Banrisul.
Os financiamentos do Banrisul têm prazo de até 24 meses e juros de poupança, ou seja, 13% ao ano - quase o dobro do cobrado em 2015. Ainda assim, Almeida garante que as linhas têm tido uma boa procura.
Alvo da maior parte das queixas no outono passado, por oferecer somente a linha de crédito Agricultura de Baixo Carbono (ABC), que atrela a aquisição de gado à apresentação de um projeto de agronegócio, o Banco do Brasil promete para este ano retornar à oferta de modalidades simples. Em 2015, o BB diz que, quando o auge da temporada chegou, já não tinha mais recursos para essas linhas, mas que agora estão disponibilizados R$ 30 milhões.
— A expectativa é atender a toda a demanda dos produtores rurais com recursos e condições acessíveis - afirma o gerente de mercado agronegócios do Banco do Brasil, João Paulo Comerlato.
A taxa de juros é de 8,75% e o prazo fixo, de dois anos. A cota por beneficiário é de R$ 385 mil por ano agrícola, sendo considerado o início em julho de 2015 e o final, junho deste ano.
Desde a semana passada, a exigência para participação em feiras oficiais de terneiros, terneiras e vaquilhonas tem novas regras. A Secretaria Estadual de Agricultura publicou uma nova portaria, atendendo a um pedido dos produtores, que sofreram para engordar o gado devido ao mau tempo. Entre as novidades, reduziu o peso mínimo para participar das exposições.
Principais mudanças