Foto: Divulgação/Assessoria
O cruzamento industrial teve seu primeiro boom na pecuária brasileira na década de 1990, quando os pecuaristas constataram que o acasalamento entre gado zebu (bos indicus) e gado europeu (bos tauros) conseguia produzir animais com ganho de heterose – fenômeno biológico que faz com que os filhos tenham melhor desempenho que seus pais em diversas características como ganho de peso, resistência a doenças, qualidade da carne e etc.
Mas, antes mesmo do fim da década, a técnica sofreu um grande baque, muito em função da falta de conhecimento dos pecuaristas. Empolgados com a novidade, muitos produtores passaram a cruzar diversas raças aleatoriamente, sem o menor critério.
“Isso era chamado de 'misturamento' e não cruzamento, pois não havia o menor embasamento técnico e muitos produtores não atentaram para a complementariedade que uma raça pode trazer a outra”, destaca Miguel Abdalla, gerente de produto corte taurino da Alta Genetics.
Como exemplo mal sucedido, Daniel Carvalho, gerente de produto corte da CRI Genética, destaca o cruzamento de raças taurinas continentais com matrizes Nelore. “Esse cruzamento falhou por produzir animais de grande porte e de altos níveis de exigência nutricional. Como a produção brasileira é em sua maioria a pasto, os animais eram extremamente tardios e não apresentavam nenhum tipo de grau de terminação na carcaça. Em outro sistema de produção, esse tipo de cruzamento pode até funcionar. Tudo é uma questão de se adequar ao sistema de produção – ele é mandatório”.
Depois de anos de baixa, o cruzamento voltou aos holofotes em meados dos anos 2000, embalado pela expansão da Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) e o surgimento de programas de qualidade de carne por parte de alguns frigoríficos. Atualmente, a técnica se tornou essencial para a produção de animais cada vez mais precoces e que garantam bonificações aos produtores junto à indústria.
Conheça os três cruzamentos mais utilizados na pecuária brasileira no momento.
Angus x Nelore – O cruzamento mas utilizado na pecuária brasileira usa touros taurinos (Angus) em matrizes zebuínas da raça majoritária da pecuária brasileira (Nelore), produzindo animais meio sangue, chamados de F1.
De acordo com Daniel Carvalho, esse cruzamento é utilizado em todo o Brasil, com exceção de Santa Catarina e Rio Grande do Sul e produz animais padronizados em termos de fenótipos, precoces em termos de crescimento e de alta adaptabilidade e rusticidade. “Se bem alimentado, esse animal têm potencial para produzir excelente qualidade de carne e carcaça, podendo participar de diversos programas de bonificação de frigoríficos.
Além de animais para o abate, o cruzamento entre Angus e Nelore se mostrou muito efetivo na produção de matrizes. Segundo Miguel Abdalla, as fêmeas F1 oriundas desse cruzamento tem excelente precocidade sexual e habilidade materna. “Essas novilhas podem ser expostas a reprodução precocemente e produzem bezerros de ótima qualidade, aproveitando o que as duas raças têm de melhor”.
Angus x Nelore x Brangus – Com a produção de matrizes F1, diversos criadores passaram a incorporar uma terceira raça no cruzamento, realizando o chamado tricross. Neste caso, o Brangus, uma raça sintética. Daniel Carvalho explica que esse cruzamento mantém algumas das características do meio sangue, como alto potencial para qualidade de carne e carcaça, se bem alimentado; padronização em termos de coloração e padrão de pelagem e precocidade. “A grande diferença está em relação a adaptabilidade e rusticidade dos animais, que é moderada. Eles também necessitam de uma recria caprichada e terminação em confinamento”, destaca.
Angus x Nelore x Braford – Outro cruzamento tricoss fecha o pódio. Dessa vez, o Brangus cede lugar a outra raça sintética: o Braford. O acasalamento produz animais com boa parte das características do trio anterior, com diferença na coloração e padrão de pelagem, com pelame, na média, mais fino e curto do que o cruzamento com Brangus.
O problema desse cruzamento são os programas de qualidade. “Esse tipo de animal só se enquadra nos padrões do Swift Black, da JBS, que requer recria a pasto e compra de animais provenientes somente do sul do país”, destaca Daniel Carvalho
Menção honrosa: Senepol – além dos três cruzamentos citados, o taurino tropical Senepol tem ganhado espaço na pecuária, com mais uma opção para cruzamento, como destaca Miguel Abdalla. “É uma raça recomendada em rebanhos heterogêneos ou em lugares que existam desafios ambientais, produzindo animais com ótima adaptabilidade”.
Fonte: Portal DBO, por Alisson Freitas