Avanço da idade dos proprietários rurais é desafio para manter os negócios no campo
O envelhecimento da população, antes observado na Europa ou no Japão, já é uma realidade no Brasil. A inversão da pirâmide etária deverá ocorrer no país até 2030, conforme dados do IBGE. No campo, a situação é ainda mais dura, com mão de obra já escassa e jovens optando por outras atividades profissionais, longe do setor e das propriedades rurais. Quando o recorte é feito para o Rio Grande do Sul, o desafio ganha proporções maiores: em torno de 70% das propriedades rurais gaúchas são herdadas, com patrimônio sendo construído ao longo de décadas por produtores que enfrentam com resiliência desafios climáticos, econômicos e tecnológicos.
O agro digital e a modernização do trabalho no campo, trazendo mais conforto e tecnologia, representaram um respiro, mas ainda não resolveram ou apresentaram perspectivas desenvolvidas sobre a sucessão rural. Em vez de simplesmente tentar convencer o jovem a ficar na terra ou estruturar a sucessão, o segredo para superar esse entrar seria apresentando cenários mais concretos, com estratégia para que o modelo de resiliência não entregue vulnerabilidades e, sim, operacional. “Tirar o apego emocional do debate, a partir da apresentação de dados, costuma ser mais eficaz para garantir a sucessão de forma saudável”, afirma Soraya Tanure, médica veterinária, pesquisadora da UFRGS e especialista em análise de dados e estatística.
O processo sucessório sem organização pode ser desgastante, por isso uma visão de longo prazo é necessária. Segundo Soraya, “a falta de planejamento, pode gerar conflitos familiares, insegurança jurídica e fragmentação patrimonial”, com riscos, inclusive, de inviabilidade econômica do negócio. O primeiro passo para quem quer manter seu legado no campo é alinhar expectativas. “É preciso considerar que a transferência de comando não ocorre de forma instantânea e exige preparação gradual de fundadores e sucessores”, destaca. Além disso, é necessário definir papéis, capacitar sucessores e garantir que os futuros gestores participem ativamente da rotina da propriedade, compreendam os desafios da atividade e desenvolvam habilidades de liderança.
Soraya pontua que questões relacionadas às variações técnicas têm sido massivamente estudadas, e ainda são grande preocupação dos produtores. Entretanto, “da porteira para dentro ainda nos falta ampliar os estudos sobre sucessão e considerar a propriedade como empresa, desmistificando tabus que envolvem o tema”. Segundo ela, a sucessão também faz parte da profissionalização do processo produtivo e permite a sobrevivência do negócio ao longo das gerações. “Não é apenas a zootecnia que gera lucro, a administração aplicada às questões sucessórias também deve ser considerada a chave do negócio nos próximos anos”, finaliza a pesquisadora.
Check list da preparação para sucessão rural
1 - Tomar decisão baseada em dados versus apego emocional
2 - Pensar a sucessão como modelagem de longo prazo
3 - Proporcionar alfabetização gerencial para as novas gerações
4 - Observar e colocar no planejamento as tendências de mercado (como ESG, por exemplo)
5 - Contar com apoio de profissionais especializados nas áreas jurídica, contábil e tributária
6 - Cultivar capacidade de diálogo entre geração para construir um projeto comum para o futuro do negócio.
Fonte: Thais D'Avila, 30/09/2026