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Centro de Provas de Touros: fale bem ou fale mal, mas pense nelas

Genética, Mercado | 05 de Junho de 2014

                                                                                                                               Por Fernando Furtado Velloso (Assessoria Agropecuária) 


As Provas de Touros, antigamente chamadas somente de Provas ou Testes de Ganho de Peso, seguem ativas no segmento dos reprodutores taurinos e contribuem com reprodutores provados, renovação nas baterias das centrais de inseminação e um pouco de discussões e polêmicas neste meio. Recentemente (23/maio) participei da apresentação dos resultados da 4ª PAC ANGUS EMBRAPA, Prova de Avaliação de Reprodutores à Campo na EMBRAPA CPPSUL (Bagé), e fiquei motivado a refletir sobre este assunto.  Em linhas gerais, as provas ou centros de teste são locais para comparar o desempenho de reprodutores em condições iguais de manejo, alimentação, instalações, etc. As medidas são tomadas de acordo com a metodologia científica para este fim para que os resultados sejam válidos e não contestáveis.

Vou me restringir a comentar e opinar sobre as diferentes provas em taurinos, pois este é grupo genético onde tenho atuação e vivência. Na atualidade dispomos de dois centros de teste de desempenho ativos: o PAC Embrapa (prova a pasto em Bagé, RS) e o CP CRV LAGOA (prova em confinamento em Sertãozinho, SP). Outras iniciativas com reprodutores taurinos e sintéticos já foram importantes nesta atividade e devem ser citadas as provas realizadas no CAT – Chalet (Uberlândia, MG), no IZ (Sertãozinho, SP) e nas unidades da FEPAGRO (RS). Internacionalmente são referências de modelos de sucesso o Midland Bull Test (EUA), em atividade por mais de 50 anos, e a Central de Prueba de Toros de Kiyú no Uruguai, com mais de 35 anos medindo o desempenho de reprodutores.

Muitos são os “críticos” a este tipo de prova como método de seleção animal, por considerarem que as provas são curtas, por darem muito valor somente ao ganho de peso ou por envolverem número pequeno de animais, diferentemente da avaliação genética (DEP). Parte da argumentação é verdadeira, mas não completamente: atualmente as provas são bem mais completas e analisam outras características além do simples ganho de peso (incluindo medidas de ultrassom para carcaça, eficiência alimentar, padrão racial, etc). Em breve teremos nestas provas até o uso de marcadores moleculares e a genômica fará parte destas avaliações.  Sendo assim muitos avanços estão sendo incluídos nas provas de touros e as tornando mais completas. De outra parte, além da avaliação técnica dos animais as provas tem importante função de fomento às raças e criadores e de valorização comercial dos touros. 

Provas a pasto x confinamento

É bastante polêmica a questão de qual modalidade é mais útil para a nossa pecuária: provas á pasto ou em confinamento. Infelizmente este tema muitas vezes sai do campo técnico e cai em preferências pessoais ou ideológicas e assim as discussões são pouco (ou nada) produtivas. De um lado buscamos animais que produzam de forma eficiente e com baixo custo nos campos nativos do RS e de outro temos a demanda por alto desempenho em confinamento pelos pecuaristas que usam genética de taurinos para cruzamento. 

Na EMBRAPA realiza-se uma prova de touros a campo (Angus e Hereford) buscando mimetizar a situação media do produtor gaúcho, porém muitos criticam que os níveis de ganho de peso alcançados pelos animais são baixos (GMD inferiores a 1,0 kg/dia) e que assim realizamos uma seleção maior para rusticidade do que para potencial de ganho de peso. Já no Centro de Performance CRV Lagoa a prova ocorre em confinamento e a tecnologia de medição de eficiência alimentar (GrowSafe) vem tendo seu uso ampliado. Este teste é contestado por alguns pesquisadores por ser de curta duração, mas também fica no ar um “ranço” entre o que é feito pelo setor público versus iniciativas exitosas da iniciativa privada.

As provas a pasto (com limitação de desempenho) e em confinamento (oportunizando maximizar desempenho animal) podem produzir resultados diferentes, ou seja, o melhor touro em uma pode não ser em outra. Compete a nós (selecionadores) saber explorar bem o mérito de cada prova e eleger para participação a modalidade com mais identidade com o sistema de produção dos animais ou do cliente buscado.

A prova de Kiyú (Uruguai) já alcançou 38 edições com a raça Hereford em sistemas pastoris (campo nativo e pastagens melhoradas ou cultivadas) e os touros são verdadeiramente reconhecidos pelo mercado em seu leilão anual, seja por pecuaristas ou por centrais de inseminação. Os reprodutores ingressam na prova com 11 a 13 meses (de 400 a 450 kgs) e terminam com 18 a 20 meses (pesando 600 a 650 kgs).

Nos EUA, país onde a avaliação genética (DEP) é fortíssima, são avaliados em Midland mais de 1 mil touros por ano em confinamento, porém usa-se alta participação de volumoso para que a dieta (e animal) aproxime-se das condições de produção do criador daquele país. Em 2013 foram avaliados em Midland mais de 580 touros somente da raça Angus (pretos).

Multiplicação de genética nacional

Não há como contestar que as provas são importantes provedoras de reprodutores para as centrais de inseminação e que se tornaram uma das principais fontes de renovação de baterias de touros de algumas empresas, especialmente da CRV Lagoa. No caso da raça Angus, líder de venda de sêmen no Brasil (com mais de 3 milhões de doses em 2013), a genética nacional corresponde por aproximadamente 1 milhão de doses do total e deste grupo muitos são touros selecionados via provas, logo não devemos desconsiderar este assunto. Ainda seguirão alguns “críticos” desmerecendo o valor das provas, porém entendo ser melhor selecionar um touro por este método do que por outros menos objetivos ainda muito usados (somente o fenótipo, premiações, pedigree, etc).

O principal usuário da genética de taurinos no Brasil (especialmente do grupo genético Angus e Hereford) faz cruzamento para produzir uma desmama pesada que será direcionada para sistemas de recria e engorda intensivos (suplementação ou confinamento).  A grande maioria da população de animais ½ Nelore – ½ Angus são engordados em confinamentos e muitos para programas especiais de carne. Assim sendo, é buscado potencial para altos desempenhos e para qualidade de carne.

Outro perfil de usuário, o do sul do Brasil, busca genética para eficiência no rebanho de cria (à campo) e de bom desempenho nos sistemas de recria e engorda. Para estes a escolha de genética é um tarefa bem mais complexa.

Na luta pela valorização de genética nacional, independente de raça, as provas de touros são sim ótimas alternativas para acessar as centrais de inseminação. A necessária aproximação, participação, ajustes e valorização destas provas são as vias para darmos força ao negócio do produtor de genética e uma das vias para prover genética provada para a pecuária brasileira. 
 
Fonte: publicado na Revista AG, coluna do Pasto ao Prato em Junho/2014  

 

 

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