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Crie, cruze e não faça careta

Genética, Informação | 10 de Outubro de 2017

Crie, cruze e não faça careta

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

O cruzamento entre raças é uma das técnicas mais testadas, pesquisadas e comprovadas em pecuária de corte. A decisão de cruzar diferentes raças pode impactar grandemente o desempenho dos animais, aumentar a produtividade e rentabilidade das fazendas. E qual a melhor parte? Sem custos, ou como dizem os americanos: o cruzamento é o almoço grátis da pecuária.

É aceitável dizer que a heterose resultante do cruzamento entre zebuínos e taurinos pode elevar em até 10 a 15% o peso do desmame. Da mesma forma, pode-se esperar aumento no peso do desmame da ordem de 20 a 25% quando combinamos o cruzamento e o uso de uma matriz cruzada, pois se soma a heterose individual à heterose materna, com elevação da fertilidade (taxa de concepção), produção de leite, etc. O campo e trabalhos de pesquisa já demonstraram estes resultados repetidas vezes.

Os ganhos produtivos obtidos nos programas de cruzamento são resultado do “vigor híbrido” dos produtos de cruzamento, também chamado de heterose. É a superioridade dos produtos cruzados em relação ao desempenho dos pais. Esta heterose se expressa com maior magnitude quanto mais distante forem geneticamente as raças envolvidas. O exemplo que melhor explica esta situação é o cruzamento de zebuínos (Bos Indicus - Nelore, Guzerá, etc) com raças europeias, também chamadas de taurinas (Bos Taurus - Angus, Hereford, Charolês, etc). Nas raças europeias a heterose é maior entre grupos raciais mais distantes, como raças Continentais (Charolês, Limousin, etc) com raças Britânicas (Angus, Hereford, Devon, etc).

No Brasil pecuário tudo que aqui está dito é o dia a dia de tantos produtores que usam intensivamente o cruzamento em seus rebanhos. O mais representativo é o Angus X Nelore e a técnica é comprovada e aprovada, fazendo com que o sêmen de Angus seja mais vendido que o sêmen de Nelore no país. Os ganhos produtivos ocorrem e a esperada mais @/ha é uma realidade obtida com esta decisão. Adicionalmente, os produtos de cruzamento tem maior liquidez ou maior valorização no mercado, seja para o gado de reposição ou de abate.

No sul do Brasil, o clima e o gado são distintos, havendo predomínio de raças europeias. Vem se tornando popular e até um pouco “glamouroso” o cruzamento chamado de “careta” (Angus x Hereford ou Hereford x Angus). Provavelmente, uma das justificativas é a forte influência que sofremos do que ocorre na Argentina e com menor expressão do Uruguai. Por anos a fio, os nossos vizinhos afirmaram que é o melhor cruzamento, a melhor matriz, a melhor carne, o melhor tudo. Por aqui fazemos o careta também considerando a sapiência insuperável dos “Hermanos”. Ocorre que na Argentina, a presença de raças zebuínas é mínima e o mercado deprecia os animais azebuados, seja em função da orientação de preços das indústrias frigoríficas ou de questões culturais fortemente estabelecidas. Outro item nem tão pequeno é que o carrapato não está presente na Argentina ou está em proporções bem menores que no Brasil.

Recentemente visitei um criador de Charolês que discutiu comigo o pouco sentido técnico de se cruzar Angus com Hereford. São duas raças britânicas, tem pouco distanciamento genético, tem pouca complementariedade entre as características produtivas. Enfim, além da mudança de cor (para preto cara branca ou vermelho cara branca), poucos ganhos produtivos deverão ocorrer. Deve haver algum nível de heterose, mas provavelmente é mínimo se comparado ao possível resultado obtido no cruzamento com raças continentais ou sintéticas. Realizando o cruzamento com Charolês pode-se obter um produto com grande heterose, alto potencial de crescimento, ótimo ganho de peso nos confinamentos e altos pesos de carcaça na indústria. Provavelmente a melhor decisão é abater as fêmeas também, em função do alto potencial de crescimento destes animais e a menor eficiência reprodutiva (custo de manutenção) em sistemas pastoris, se comparadas a fêmeas menores. No cruzamento com sintéticos (ex: Brangus x Hereford), aproveita-se a heterose do uso de 3 raças e vantagens adaptativas dos genes zebuínos.

Até as raças sofrem “bullying” e vivem os períodos de modismos. É mais chique usar a raça tal e pode ser sinal social de pobreza usar a raça menos badalada. Em tempos que se fala tanto em pensar fora da caixa, quebrar paradigmas e outras tantas expressões do momento seria uma oportunidade para mudar. Uma corrente de pensamento ou forma de consumir que vem ganhando força é o minimalismo, onde os bens materiais são os necessários e não os impostos pela dita sociedade de consumo. Que tal pensar um pouco diferente da tropa? Que tal avaliar se existem opções mais produtivas? Quem sabe vale a pena discutir sobre os benefícios do cruzamento bem conduzido com produtores que já o utilizam? O Brasil já faz isso em larga escala, mas o sul ainda está muito apegado aos chavões da Exposição de Palermo.

Crie, cruze e não faça careta (cara feia) para novas e velhas ideias. 

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Outubro, 2017)

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