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Touro no Campo ou no Botijão

Genética | 15 de Novembro de 2018

Touro no Campo ou no Botijão

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

O tema não é novo. Muitos já escreveram sobre ele, inclusive eu, mas é época de entourar (ou inseminar), e o assunto monta natural ou inseminação está na agenda do dia. No Sul do Brasil, quando esta edição chegar aos assinantes, muitas vacas estarão inseminadas, entouradas ou sendo preparadas para tanto. Há defensores do touro, outros da inseminação e repasse com touros e até os mais hi-techs, que buscam ou já trabalham no sistema “Touro Zero”. Vamos discutir esse tema, que não é novo, mas que se renova a cada primavera. Se toda generalização em política é precipitada, em produção animal não é muito diferente. Toda escolha tem suas vantagens e desvantagens. Benefícios “certos” da inseminação artificial

As seguintes vantagens certamente serão obtidas com o uso da inseminação, pois não são afetadas pela eficiência da técnica:

 Uso de raças adequadas aos cruzamentos definidos pela fazenda, sem a necessidade de possuir touros de diferentes raças no campo;

Uso de touros geneticamente muito superiores à média das raças, propiciando melhoramento genético ao rebanho e incremento produtivo;

Uso de touros especialistas para acasalamentos específicos (genética de facilidade de parto para novilhas 12 meses, genética que complementa individualmente cada matriz para acasalamentos dirigidos, especialmente importante em plantéis de selecionadores, produtores de touros etc.).

Vantagens “possíveis” da inseminação artificial

Existem outras vantagens muito importantes no uso da inseminação artificial, mas estas somente ocorrem quando são alcançados bons resultados nas taxas de prenhez nos programas de inseminação ou IATF, sendo a IATF responsável por mais de 80% das matrizes de corte inseminadas no Brasil. As vantagens que são possíveis e que devemos buscar são:

 Incremento da taxa de prenhez final na estação reprodutiva;

Concentração da parição no terço inicial ou metade inicial do período de nascimentos;

Redução do custo final de prenhez comparativamente a sistemas somente com monta natural.

A nossa Embrapa já mostrou, em diferentes estudos, ser possível, com o uso da IATF, tanto elevar o número de vacas prenhes ao final da estação como também fazer isto com genética superior e com custos por prenhez menor, se comparado somente ao uso do touro. Mas, para tanto, são necessárias condições adequadas na fazenda em todos os seus aspectos (nutrição, sanidade, manejo, instalações, mão de obra e nível de envolvimento).

Quando a monta natural pode ser a melhor opção?

A Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF) é, hoje, a técnica mais usada para inseminar matrizes de corte, e com ela concentramos a possibilidade de vários acertos (já listados anteriormente), mas, quando a técnica não é bem realizada, concentramos em um ou dois lotes (leia-seu ma ou duas oportunidades) vários possíveis pequenos erros que podem levar a uma frustração na taxa final de prenhez. Os possíveis erros em manejo (horários), aplicação de hormônios, descongelamento de doses e inseminador/inseminação serão todos concentrados em um momento só e implicarão em erro para 50, 100, 200 ou mais animais do lote. Então é melhor nem mexer com inseminação? Negativo! O importante é saber avaliar se as condições como um todo são adequadas ou não para a realização de um programa de IATF.

Quando existem muitas limitações em relação à mão de obra (quantidade, experiência e qualificação), das instalações (que, sendo inadequadas, não permitem manejo e contenção apropriada de um grupo grande de animais no mesmo turno), da distância e/ou acesso ao campo onde está o lote de matrizes (como na situação de arrendamentos ou campos isolados), da baixa condição corporal do lote que será mais prejudicado com as movimentações do protocolo, da disponibilidade de participação efetiva do dono ou gerente da fazenda no momento da execução do protocolo.

Diante desse cenário pouco bonito, mas que pode ser a situação ou atenção dada para o gado de cria em algumas fazendas, a opção para o entoure, ao invés da inseminação, pode ser uma alternativa que ofereça melhores resultados e menores custos. O touro identifica mais cios e emprenha mais vacas em um sistema tradicional de entoure do que em um protocolo de IATF cheio de limitações ou pequenas falhas que vão se somando.

E o projeto “Touro Zero”?

Exatamente do lado oposto às fazendas que optam ainda pelo uso da monta natural, já temos exemplos de algumas propriedades que conseguem alcançar ótimos resultados em reprodução sem a presença de reprodutores na fazenda. Estamos falando de um nível de excelência possível e que deve ser observado e aprendido pela média dos produtores. A inseminação se dá combinada ao desmame precoce, ao uso intensivo de IATF e Ressincronização (oferecendo 2 IATFs por lote) e ao bom manejo da condição corporal das matrizes, permitindo a observação de cio em matrizes com cria ao pé e ao controle de retorno do cio para inseminação. Observe que estou, agora, comentando um cenário ou nível de organização muito diferente do anterior, pois as dificuldades de mão de obra, instalações e processos já foram superadas ou estão sendo bem cuidadas. Aqui, estamos quase o máximo que a eficiência da inseminação pode nos entregar, alcançando ou superando 85% das matrizes prenhes com apenas 2 IATFs. É possível, e muitos pecuaristas já estão fazendo e colhendo as vantagens certas e possíveis no uso da inseminação.

A nossa empresa e o nosso trabalho está cada vez vivendo mais a inseminação, os touros de central, o melhoramento genético. Somos entusiastas e acreditamos muito nos ganhos possíveis em melhoramento genético e produção animal. Porém sabemos que as diferenças em nível de tecnologia e de organização das fazendas são muito grandes. Não é só retórica dizer que temos casos ainda para monta natural e outros que devem buscar o “Touro Zero”. Provavelmente, neste momento, o equilíbrio está no meio termo e muitas fazendas tenham ótimos resultados com a combinação de IATF e repasse com bons touros. Para os selecionadores, vemos o caso de forma um pouco diferente, pois a maximização do uso da inseminação deve ser buscada para dar ao seu programa de seleção a velocidade que ele merece e para seus clientes, os touros que eles precisam. O touro é a semente da pecuária, tem de ter pureza (consistência) e potencial de “germinação”!

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Novembro, 2018)

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