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Céu de brigadeiro para a terneirada

Genética, Informação, Mercado | 15 de Março de 2019

Céu de brigadeiro para a terneirada

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Os analistas de mercado se debruçam sobre séries históricas de preços, estoque, abates, mercado futuro, mercado de grãos, precipitação, cenários políticos e econômicos nacional e internacional para traçar tendências de preço para o nosso produto (bezerro, boi e carne). Admiro os quem têm tamanha capacidade, e sou leitor e ouvinte de seus podcasts.

Estamos bem atendidos por ótimos analistas em nossa pecuária, iniciando pelo trabalho de formação de profissionais da Scot Consultoria, do Cepea, do Imea e de tantos profissionais que queimam pestana para nos ajudar a interpretar o mercado.

Para os que rodam bastante como eu, sugiro assinar o podcast Notícias do Front, do Rodrigo Albuquerque. É uma boa forma de acompanhar o dia a dia do mercado ouvindo as análises dele e as previsões da Mãe Dinah. No Sul do Brasil, onde vivo, somos um pouco carentes de empresas dedicadas a análises de mercado da pecuária, e esse pode ser um bom filão para colegas empreendedores que buscam espaço no mercado de trabalho. Ótimos exemplos e referências de bons trabalhos estão ao alcance do teclado em português, espanhol e inglês.

Muito bem, faço este parágrafo introdutório para comentar a importância desses trabalhos dos analistas (por aqui, tínhamos o Analista de Bagé), e, sem ter a pretensão de ser um deles, me arrisco a fazer algumas considerações sobre o momento de nossa pecuária e as perspectivas para a safra de terneiros que se aproxima neste outono. Falo em safra de “terneiros” – e não de “bezerros” – não por um bairrismo de gaúcho, mas por considerar que meu alcance permite só analisar o que ocorre com o preço desse bicho aqui no Sul, me espraiando um pouco até SC e PR. Por aí já paro!

Fiz uma revisão rápida do desempenho de alguns setores de nossa pecuária em 2018 e me animei. Se permanecerem, em 2019, as condições normais de pressão e temperatura, a terneirada vai valer bem. Vamos aos fatos.

Exportação de carne bovina

O Brasil alcançou a marca de 1,64 milhão de toneladas exportadas em 2018, com crescimento de 11% em volume e de praticamente 8% em faturamento em relação a 2017. Crescemos bastante e firmamos a posição de maior exportador de carne bovina do mundo. Não é nada mal para um ano que tivemos até paralisação no País, com a famosa greve dos caminhoneiros, em maio de 2018, e outros tantos obstáculos diários para produzir e exportar no Brasil.

Exportação de bovinos vivos

O ano de 2018 foi da exportação do gado em pé. O Brasil dobrou a quantidade de bovinos exportados, totalizando mais de 800 mil animais embarcados, alcançando o maior número de animais na série histórica dessa atividade. Somente no RS, onde a atividade é forte, em função das raças europeias, alcançamos mais de 150 mil animais exportados pelo porto do Rio Grande. O navio foi quem segurou as pontas do preço do terneiro e gerou influência positiva para todo o gado de reposição e até para o gado gordo. É exagero afirmar isso?

Carne de qualidade

As marcas de carne e os programas de certificação seguem fazendo um importante trabalho pela carne de qualidade e pela diferenciação do produto. Em 2018, apesar de alguns tropeços e rupturas de frigoríficos com alguns programas, a febre da carne gourmet seguiu alta, gerando demanda por animais de qualidade. Recentemente, o JBS divulgou que a demanda por cortes nobres teve importante crescimento para essa indústria em 2018, com aumento de 45% no ano, especialmente para as marcas 1953 e Swift Black.

Cria e inseminação artificial

Do lado da cria, são bons também os indicadores que nos sugerem investimentos dos pecuaristas. De acordo com a Associação Brasileira de Inseminação Artificial (Asbia), a venda de sêmen de gado de corte alcançou 9,6 milhões de doses em 2018, com crescimento de 19% no ano. Para a IATF (Inseminação Artificial a Tempo Fixo), estudos da USP indicam crescimento de 16%, e a técnica responde por 86% das vacas inseminadas no Brasil. Ou seja, inseminam-se mais vacas no Brasil, e, praticamente, todas em protocolos de IATF, contribuindo para maiores taxas de prenhez e produção mais uniforme de terneiros.

Apesar de ser uma revisão ou análise demasiadamente simples, creio que muitos hão de concordar que temos bons ventos para elevar a demanda e os preços dos terneiros: crescente exportação de carne e de bovinos vivos, ampliação do espaço da carne de qualidade ou do “mercado gourmet”, investimento ocorrendo na cria etc. E, especialmente para o Sul do Brasil – onde estão as raças europeias – ou para produtores que fazem cruzamento, a força desse negócio deve ser melhor ainda. Recentemente, pude acompanhar, em Água Doce/SC, o Dia do Parceiro – Grupo AEME. Evento anual para a venda da produção de terneiros dessa fazenda dedicada à cria intensiva. Pois bem, alinhado às melhores expectativas de mercado para o terneiro em 2019, foram vendidos 610 animais com pista ágil e limpa. Os machos alcançaram média de R$ 8,20/kg, e as fêmeas superaram os R$ 8,40 kg. Observe que lá são vendidos animais pesados e que os machos foram ofertados com peso entre 250 kg e 310 kg, faturando, assim, por animal, valores entre R$ 2 mil e R$ 2,5 mil. Não me parece nada mal vender um “terneirinho” de seis meses por mais de R$ 2 mil. Como já escrevi em outra publicação, vender animais com esse peso e por esses valores deve nos fazer olhar o negócio da cria com outros olhos.

Esse exemplo que trago é, de fato, uma exceção em um estado onde a cria e a pecuária estão valorizadas, mas nos permite considerar que é possível produzir e comercializar terneiros de forma diferente ao que fazemos tradicionalmente. Mas esse não é um terneiro comum, pois é um produto com marketing e marca, tem qualidade superior (raça, cruzamento, genética, sanidade, peso, uniformidade de lotes) e está inserido em um negócio no qual a comercialização é muito bem pensada e trabalhada.

É possível de ser realizado e já vem sendo feito com sucesso, mas necessita dedicação e investimento dentro e fora da porteira. Sem ter a expertise de tantos analistas de mercado de nossa pecuária, tenho a expectativa de um 2019 muito positivo aos vendedores de terneiros, especialmente àqueles que estão atentos em fornecer o produto que o mercado busca, seja para a exportação de animais vivos, de carne ou para o mercado gourmet. Céu de brigadeiro para terneirada! Vamos voar até no piloto automático.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Março, 2019)

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