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Touros: do Colonial ao Genômico

Genética, Informação | 15 de Outubro de 2019

Touros: do Colonial ao Genômico

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Redigo, hoje, influenciado pela atmosfera da temporada de primavera do Rio Grande do Sul, pois já foi dada alargada e ainda estou envolvido com acertos, fretes e documentos de alguns touros adquiridos para clientes no leilão da GAP Genética. Recém-arrancou esse calendário tão intenso de remates de reprodutores no estado. É um ótimo momento para observarmos mais atentamente o comportamento tão variado dos compradores de touros.

As especificações e exigências vão desde o quase zero ao refinamento de informações genômicas. Alguns somente elegem a raça, talvez variedade de cor e o limite de preço, valendo até touros sem registro genealógico ou qualquer tipo de avaliação de desempenho e participação em programas de melhoramento genético. Outros estão dispostos a investir mais e dedicam-se a encontrar o touro “especialista”, com a genética indicada paraus os específicos, buscando informações de DEPs, genealogia, avaliações de carcaça, dados genômicos e até a homozigose para a cor preta.

Causo do touro da carona na estrada
O touro “sem papel” é chamado também no Sul por touro “colonial”, e, fora do estado, é usual a expressão “boi de boiada”. É comum ouvir dizer: “Tal criador tem um gado muito lindo, vou lá tentar comprar um terneiro de ano que ficou no desmame ou algum tourinho dele”.

Gosto de histórias e causos do meio rural. O que relato a seguir ocorreu comigo, ninguém me contou e não é história de pescador. Pois bem, eu vinha  retornando de um serviço de campo na Fronteira-Oeste do RS, rodando numa estrada de chão na minha camionetinha* vermelha de época. Era um dia muito quente, e vi um senhor todo pilchado pedindo carona para a cidade. Parei, confirmei o destino dele, e seguimos charlando no caminho. Ele me relatou que era capataz de uma estância, mas que também tinha um gadinho dele, que estava animado com a cria e com a venda dos terneiros. Ao ver o adesivo da raça Angus no meu para-brisa, ele me indagou: “O senhor cria Aberdeen?”. Respondi: “Sou veterinário, técnico, trabalho com a seleção da raça”. Aí, ele me comentou: “Só uso Angus e Brangus no meu gado”. Opa! Fiquei animado, nosso trabalho de fomento está funcionado, me pareceu. Indaguei: “E onde o senhor compra touros?”. Ele respondeu: “Olha, compro todos os anos de um vizinho. Ele separa algum touro com uma manchinha, um batoquinho ou alguma outra coisinha, me dá o ‘rezistro’ de outro, e eu faço um ‘Pronafinho’”.

Estas situações de uso do touro “colonial” ou “refugo de plantel” por alguns nos mostram a descrença na importância do “insumo touro” e da tecnologia embarcada que ele pode trazer ou não. Falo, repito e insisto, mas ainda não tenho sucesso com muita gente quando afirmo: dois touros da mesma raça, da mesma idade e do mesmo peso podem ser totalmente diferentes, sendo um responsável por mais produtividade nos rebanhos e outro, por produção de refugos.

O touro do outro lado do rio
Do outro lado do rio, vemos um cenário totalmente diferente e exigindo cada vez mais dos vendedores de touros. A demanda por mais e mais informações dos reprodutores parece ser um ciclo sem fim. Quando se atende a uma exigência, surgem novas, e outras surgirão, pois a tecnologia não para, o mercado não para, e quem para pode ficar fora do mercado. Pode parar com leilões e preparar liquidações. O touro registrado e não avaliado vem perdendo cada vez mais espaço e sendo preterido por compradores dispostos a pagar preços acima da média. Observem a mudança que vivemos: a avaliação vem superando em importância o registro genealógico, o pedigree (alerta vermelho para as associações de raça que ainda não agiram nesse sentido; alerta vermelho a quem ainda acha que registro genealógico e dados de performance são documentos de vidas separadas).

Em um passado recente, quase que bastava ser “Dupla Marca” ou “CEIP”, ou seja, participar de algum programa de melhoramento e ficar no grupo dos “positivos/superiores”. Hoje, essa premissa é o ponto inicial, e muitas novas características vêm sendo buscadas: informação de baixo peso ao nascer, superioridade em AOL e marmoreio, testes para eficiência alimentar, teste para homozigoto preto, resistência ao carrapato, testes genômicos para desempenho em cruzamento (vide XBlack), qualidade do sêmen congelado... Não deverá demorar para novas demandas surgirem, como genética desenhada e selecionada para cruzamento com gado de leite, para menores perdas gestacionais, para docilidade, entre outros.

E o produtor de touro me retrucará: “Mas, Velloso, e o custo de tudo isso?”. Não há dúvidas de que os custos aumentarão. Para o selecionador que usar todo pacote tecnológico,  haverá custos adicionais, e estes serão mais altos para os que aderirem primeiro, mas assim é tecnologia. São decisões a serem tomadas por todos aqueles que se dedicam a ofertar touros no mercado: vou tentar me posicionar onde terei que gastar e em quê? Também existe a opção de fazer mais barato e vender por menos.

O mesmo dilema ocorre com os que discutem comigo sobre os custos adicionais para produzir touros que atendam às demandas das centrais  e inseminação. Entendo quando me justificam: é muito custo e muita função para viabilizar a possibilidade de dois, três ou cinco touros de central por ano.

De toda essa reflexão um pouco confusa e bastante real, nos resta refletir, cada vez mais, sobre a atividade “produção de touros”. Uma dúvida não há: cada vez nos exigirão mais. De que lado do rio queremos estar?

*Camionete, camioneta, caminhonete e caminhoneta são todas palavras corretas. Saudades da minha camionetinha vermelha.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Outubro, 2019)

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