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ROAD IN FARM: cruzamento para produzir mais e vender melhor

Genética, Informação, Mercado | 18 de Março de 2021

Por Fernando Furtado Velloso
Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

O assunto cruzamento na pecuária de corte é tema que se renova com as mudanças nos sistemas de produção e no mercado. Já diz uma chamada que aprecio na Band News: em 20 minutos, tudo pode mudar. Pois volto ao tema por provocação do amigo e leiloeiro Lourenço Campo, da Central Leilões, que irá promover nos primeiros dias de março o “Road In Farm – Mapa da Genética”, evento bienal que, desde 2012, é realizado pela empresa. O eixo do Road In Farm é sempre o touro e os seus resultados no campo. A Central Leilões é líder na comercialização de touros no Brasil e tem autoridade para falar sobre o assunto com tantos milhares de touros Zebuínos e Taurinos vendidos. E se é sobre touros, me interessa e fico muito grato pelo convite em participar da mesa de debates da edição 2021. Se é touro, “tou” dentro.
 
O cruzamento é técnica e prática já disseminada em todo o País, e quando nos referimos a ele estamos falando do touro Europeu x matriz Zebuína, pois este é o mais numeroso e mais importante. Mesmo estando no Sul do Brasil, e atuando profissionalmente mais nos estados do Sul, o assunto nos envolve muito, pois os produtores de genética das raças europeias e sintéticas estão concentrados aqui. O mesmo ocorre em grande parte com os touros de central, pois a maioria é produzida aqui ou estão em coleta nas centrais do RS. O trabalho com a nossa central de coleta de sêmen, a CRIO, nos últimos cinco anos, também me aproximou muito mais das necessidades de quem faz cruzamento, pois as empresas e pecuaristas compram os touros mirando o uso em cruzamento em sua maior parte. A inseminação artificial vem crescendo ano a ano no Brasil, e o cruzamento cresce junto. Se nos queixamos que nem 10% das vacas no País eram inseminadas, hoje, já passamos de 20% em média. Em algumas regiões e estados ou percentual é ainda maior. Estamos avançando, estamos avançando.
 
Já passamos do período em que discutíamos se o cruzamento funcionava e se gerava maior produção e melhor comercialização. Isso já é fato sabido, aceito, testado e comprovado por muitos produtores. Sabemos que os animais cruzados são mais pesados ao desmame, têm maior ganho de peso na terminação, maior peso de carcaça etc. Dessa forma, é real que fazendo cruzamento venderemos mais quilos, e possivelmente, mais quilos por maior preço. Lembrar a recomendação de que a realização cruzamento deve considerar o sistema de produção, ambiente e mercado é chover no molhado. Mas, deixa que chova.
 
A semente para o cruzamento, seja touro ou sêmen, está cada vez mais bem mapeada e especializada para o que o mercado pedir: touros para maior crescimento (e possível maior porte), touros para características maternais (ainda pouco procurados) e touros para qualidade carne, leia-se marmoreio (com alguma demanda e algumas críticas de modismo e nuvem passageira). Se temos cultivares de milho e soja para as mais diferentes situações, temos o mesmo disponível ou em desenvolvimento nos touros para cruzamento.
 
As dificuldades de adaptação e uso em monta natural dos touros europeus (Angus, Hereford, Charolês, etc) ou sintéticos (Brangus, Braford, etc) em cruzamento fora do Sul do País são sabidas. A decisão de uso desses reprodutores no Brasil Central ou no Norte deve levar em conta os maiores cuidados necessários e a menor vida útil quando comparados ao touro Nelore. De qualquer forma, são alternativas para as situações onde a inseminação não é viável ou quando se busca maior número de produtos de cruzamento através do repasse da inseminação com estes touros. Os criadores e a pesquisa vêm buscando animais com maior adaptação aos problemas do trópico (tolerância ao calor, resistência ao carrapato, pelo mais fino, etc), e logo teremos touros e linhagens selecionadas para estas características. Parece um norte distante, mas a genômica está nos ajudando a encurtar esse caminho. Se o texto fosse um grupo de Whatsapp caberiam, agora, palminhas ao trabalho da EMBRAPA. Salve a EMBRAPA!
 
Os ganhos produtivos obtidos com o cruzamento são reais e de conhecimento dos produtores. No final da produção, os possíveis ganhos comerciais também são atrativos para a adesão à técnica: maior valorização de bezerros cruzados no desmame (em leilões ou venda particular), ampliação do número de eventos oferecendo “Bezerros Certificados”, preferência por muitos confinamentos por bezerros ou novilhos cruzados, especialização de alguns confinamentos que trabalham só com animais cruzados, especialização de alguns confinamentos que engordam novilhos para abate próprio para marcas especiais de carne de qualidade. Tudo isso, que não é novidade, hoje, tem maior porte. Já não é tão nicho como sempre foi falado. Além das oportunidades comerciais para o segmento voltado a carne de qualidade, temos, também, um outro grande mercado que nos pede animais cruzados (especialmente pretos e mochos) que é a exportação de gado vivo. Esta atividade movimentou muito o comércio de animais de F1 (Angus x Zebuínos) em diversas regiões do Brasil. No Sul, a exportação de gado vivo valorizou animais cruza europeu e sinalizou a necessidade de animais cruza Charolês.
 
Então, vale a pena fazer cruzamento só pelo fato de vender melhor? Sim e não. Nos últimos dois anos de preços muito bons para o gado em geral, a distância dos valores praticados para animais cruzados e zebuínos ficou pequena ou nula em algumas situações. A demanda foi tão grande por bovinos que a “especificação” não importou muito. De qualquer forma, sigo acreditando que produtores com programas de cruzamento bem planejados e organizados têm um produto mais padronizado, mesmo que somente em tipo racial e pelagem (cor), e acabam colhendo maior liquidez ou preferência no momento da comercialização.
 
O mercado é um organismo vivo e não se repete igual a todo o momento. A exportação de carne do Brasil vem ampliando a sua fatia do volume de carne produzida a cada ano. Ficamos por alguns anos exportando algo próximo ou inferior a 20% da carne bovina produzida, mas em 2020 já exportamos entre 25% e 30% da nossa carne. Esta ampliação da participação do produto exportado poderá provocar mudanças em relação às carcaças mais valorizadas. Poderá demandar animais mais pesados, poderá pedir mais animais cruzados etc.
 
Se para o grande Brasil a matriz de eleição é a zebuína, usualmente a Nelore, para o Sul, o causo é um pouco diferente, pois a matriz europeia pura (Angus, Hereford, Charolês, Devon) não é a melhor opção ou a escolha mais produtiva. A afirmação não é nova e o conceito também não: gado puro (europeu) serve para o selecionador (vendedor de touros) e o produtor comercial não pode desperdiçar os ganhos do cruzamento em seu rebanho. Como muitas fêmeas resultantes de cruzamento são retidas para a cria no Sul, pois possuem adaptação a este meio, podem-se aproveitar tanto os benefícios do cruzamento no crescimento dos animais como nas características de fertilidade e maternais das fêmeas cruzadas.
 
As discussões previstas para o Road In Farm 2021 nos ajudarão a compreender melhor todo esse cenário e, seguramente, nos trarão novos enfoques de questões que não tínhamos percebido. O evento trará profissionais que conhecem muito bem as suas áreas de atuação, iniciando pelas perspectivas da pecuária (cenário econômico), passando pelas inovações nos leilões, discutindo seleção animal (precocidade sexual, eficiência alimentar e programas de melhoramento), e no último dia (11/3) discutiremos o assunto que este texto trouxe um pouco aqui: “Carne de qualidade ou commodity” e “impactos produtivos e comerciais do cruzamento”. Se estiveres on line, nos vemos lá de 08 a 11 de março. Se não, podes conferi-lo no canal da Central Leilões, www.youtube.com/ CentralLeiloes ou no site da FF Velloso & Dimas Rocha Assessoria Agropecuária, www.assessoriaagropecuaria.com.br

Clique aqui para acessar o vídeo do evento.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Março, 2021)

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