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Comercialização Virtual em Bovinos de Corte

Informação | 06 de Novembro de 2021

Comercialização Virtual em Bovinos de Corte

Foto: Divulgação/Assessoria

Por Júlio Otávio Jardim Barcellos e Sigrid Machado de Paiva
Núcleo de Estudos em Sistemas de Produção de Bovinos de Corte e Cadeia Produtiva (NESPro/UFRGS)

Em 2020, fomos surpreendidos pelo vírus SARSCoV-2, o já “famoso” Coronavírus. Junto com ele, veio o desafio de conviver com as restrições de circulação e de aglomeração, que também atingiram o agronegócio brasileiro. As dificuldades chegaram a muitas etapas do processo produtivo, o que exigiu novas adaptações. Porém, a comercialização se destacou diante da nova configuração adotada. 


Os canais de comercialização de bovinos de forma remota (virtual) já existiam, mas a pandemia forçou a aceleração da adoção e do desenvolvimento com o intuito de reduzir o contato físico entre vendedores e compradores.

A partir daí, surgiram novas plataformas,  aplicativos, transmissão de eventos de comercialização em redes sociais, entre outros, transformando o ambiente virtual em local propício para o fechamento de negócios. 

Nos leilões de animais, a transmissão era vista como ferramenta complementar, utilizada majoritariamente na comercialização de animais de elite. Após quase dois anos de pandemia, transmitir a comercialização de animais de rebanho geral em plataformas digitais passou a ser uma premissa para a condução de um remate. Os lances passaram a ser recebidos por meio de aplicativos de mensagem instantânea como o WhatsApp, chamadas telefônicas ou ainda no próprio chat da plataforma.

Inicialmente a condução dos eventos ainda encontrava dificuldades aos que desejavam comprar seus  animais remotamente. As filmagens possuíam baixa qualidade, os animais passavam rápido demais pelas câmeras e o atraso entre o que acontecia presencialmente e o que chegava aos que acompanhavam os leilões pelas plataformas digitais dificultava o andamento da comercialização. Com o passar do tempo, empresas especializadas na transmissão dessas comercializações surgiram e a maioria dessas dificuldades deixaram de existir ou foram minimizadas.

Com o avanço da internet, as vendas diretas de animais entre produtores rurais também passaram a ser viabilizadas por plataformas digitais. O uso de aplicativos de mensagens instantâneas e publicações em redes sociais para anunciar os lotes animais ganhou dimensão. No entanto, para a compra e venda de animais, independente do ambiente de transação, existem pressupostos que precisam ser mantidos para garantir um bom negócio aos envolvidos.

O comprador precisa se certificar de todos os detalhes do produto que está prestes a adquirir,  como raça, idade, categoria animal, condição sanitária, preço, origem dos animais, qualidade de acesso a fazenda vendedora, reputação do vendedor, etc.

Além disso, o mais importante em uma transação on-line, é que o ambiente de comercialização seja seguro e garanta ao vendedor recebimento do pagamento. Outro atributo importante diante das crescentes fraudes bancárias, é a garantia de proteção dos dados dos envolvidos. Estes requisitos não podem ser assegurados em transações que ocorrem em redes sociais e aplicativos de mensagem instantânea. Com o objetivo de certificar e facilitar a compra e venda de animais, surgiram as plataformas especializadas neste segmento, em que o próprio vendedor pode capturar imagens, unir às informações e anunciar na plataforma virtual.

Estes ambientes são capazes de garantir a segurança dos dados e liberar o carregamento dos animais somente após a confirmação do pagamento. Também existem critérios de avaliação dos usuários, que podem excluir participantes por fraudes e assimetria de informações durante as negociações.

Na plataforma, é possível anunciar e procurar lotes para compra sem custos. Já a remuneração do dispositivo ocorre apenas se a transação for concretizada, sendo que o percentual de comissão atribuído à plataforma é inferior ao percentual praticado nos leilões e transações mediadas por corretores.

Todos os avanços nos processos produtivos proporcionados pelo advento da internet são notórios e certamente este é um caminho sem volta. Acreditamos que cada vez mais contaremos com as tecnologias digitais para o aprimoramento e agilidade do setor primário.

Apesar da ágil evolução da comercialização digital proporcionada pela pandemia, o que parece ser inovação no Brasil já não é novidade em outros países. Nos Estados Unidos, a transmissão de leilões pela rede de televisão já ocorre desde a década de 1980, quando já era possível fazer lances aos lotes por meio de chamadas telefônicas. Na Nova Zelândia, plataformas para a venda direta entre produtores são realidade desde 1995, quando se deu o início de uma plataforma de comercialização de bovinos e ovinos.

Algumas plataformas de comercialização direta existentes possuem algoritmos de visualização, que permitem ofertas personalizadas para cada usuário. Por exemplo, um produtor que usualmente procura terneiros com peso X e já fez compras de lotes a partir da plataforma, ao acessar sua conta encontra ofertas de animais direcionadas de acordo com os seus critérios de compras anteriores. Já estamos acostumados com este modelo de ofertas em comercializações de bens de consumo, como artigos de vestuário, automóveis, entre outros.

Ao analisarmos tudo isso, percebemos que as mudanças ocorridas recentemente não têm raízes apenas tecnológicas, e sim, comportamentais. A possibilidade de comercialização digital já existia, visto que as tecnologias já estavam disponíveis. O pacote tecnológico talvez não estivesse pronto, mas com ajustes relativamente rápidos vivemos um cenário totalmente diferente do pré-pandemia na comercialização de animais. Estas tecnologias, sem dúvida alguma, são capazes de promover melhorias para o setor.

Diante disso, a dúvida que fica é se no pós pandemia ou quando for possível que todas as atividades sejam realizadas de forma presencial, voltaremos ou não a realizar comercializações totalmente presenciais. Segundo os especialistas em marketing, as relações de compra física não serão substituídas pelas transações on-line. 

Existe uma tendência de coexistência, entre os canais de comercialização on-line e off-line devido ao comportamento dos consumidores, que em alguns casos estão exaustos das experiências digitais e procuram experiências no mundo real. No entanto, esses mesmos consumidores não renunciam às facilidades e agilidade proporcionada pelos canais de compra on-line.

Neste sentido, o desafio das plataformas deverá ser a integração da venda on-line e offline, buscando proporcionar uma experiência contínua de compra, sem lacunas perceptíveis entre um canal e outro. Outro ponto importante é tornar a comercialização remota de animais um ambiente confiável aos compradores, reduzindo ao máximo as assimetrias de informações nesse ambiente.

Além disso, as plataformas deverão ter em vista a personalização das ofertas, já que essa é uma facilidade proporcionada pela comercialização digital que pode agilizar as tarefas do pecuarista.

Os profissionais do ramo de comercialização de animais devem se atentar a todos esses atributos para atender as demandas dos novos perfis de pecuaristas que aderem a atividade. Quanto aos pecuaristas, os canais on-line de comercialização podem ser uma oportunidade de redução de custos.
 
Devido às menores comissões praticadas nas plataformas de negociação e, em caso de comercialização em leilões, não há a necessidade de levar os animais ao recinto de comercialização, gerando economias com o frete, por exemplo.

Outra vantagem é a possibilidade de comercializar seus animais para pecuaristas de outras regiões, que devido a distância não poderiam vir até a sua propriedade realizar a transação, aumentando o número de possíveis compradores de seus animais.

Fonte: Publicado na Revista Pecuária Sul - Edição Out/Nov 2021

Baixe o pdf do artigo aqui.

 

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