Posso me considerar um assíduo frequentador de eventos, desde (e especialmente) à época de estudante de veterinária. Coloque pouco mais de 20 anos no que estou falando. Eventos “raiz”, da época da divulgação na página rural dos jornais e nos cartazes nos murais das faculdades, das agropecuárias e sindicatos rurais. Semanas Acadêmicas, Dias de campo, Ciclos de palestras, Simpósios, Congressos, Convenções, Fóruns, Encontros e, mais recentemente, os denominados de Workshops, Summits e similares. O assunto do estrangeirismo me persegue. Eu gostaria de saber a definição e o uso correto de cada um desses nomes. Creio que poucos sabem a diferença entre Fórum e Simpósio, inclusive os promotores dos eventos.
Depois de formado, segui frequentando muitos eventos, mas na condição de palestrante ou representante das entidades ou empresas em que trabalhei. No início, tinha grande entusiasmo e expectativa sobre o evento. Terá bastante público? O tema que vou apresentar interessa às pessoas? Saberei comunicar bem a mensagem de minha apresentação? Com o tempo, as minhas preocupações começaram a mudar.
Será que as pessoas ainda se interessam por este tema? Será que não estou sendo repetitivo e cansativo para quem me ouve? E, mais recentemente, comecei a me questionar: será que faz sentido estar aqui? Será que valeram a pena o tempo, os quilômetros e os reais envolvidos? Pois bem, refletir e conversar um pouco sobre eventos e palestras é a proposta deste meu texto.
Recentemente, gravamos mais um episódio do podcast Os Agronautas, em que o tema era a vida estradeira dos participantes. Batizaram de “On the road” esse episódio. Já estou achando que é provocação comigo, pois sou defensor do “tu” e da língua portuguesa. No referido podcast, acabamos falando mais de nossas participações em eventos do que sobre os desafios das estradas, pois, na data da gravação, vários de nós estavam participando, indo ou voltando de algum evento do agro.
Questionei aos colegas de programa parte dessas inquietações que tenho sobre a validade de tantos eventos, afinal viajamos, nos reunimos em outras cidades e, muitas vezes, falamos o que já foi falado tantas vezes e para as pessoas que já conhecemos. Pode parecer uma perspectiva muito negativa, mas, por vezes, me sinto assim. Olho ao redor e percebo que a grande maioria das pessoas presentes no evento eu conheço e tenho os seus contatos nos meus grupos de WhatsApp. Precisava ter vindo até este evento para vê-las? Se o evento em questão for uma exposição mais verdadeira - deve ser essa fala, pois viajamos e voamos por aí para nos reunirmos com a mesma turma. Vamos a São Paulo, Londrina, Campo Grande e nos encontramos com o criador ou com o cliente que estava a 200 km de nós. Alguns voltam para casa com premiações e algum animal vendido em leilão. A maioria volta com o gado para casa e poucos novos contatos realizados. Troca de cartões de visita já está meio defasado e poucos novos cartões trazemos de uma exposição. Que louco!
E, quando eu não participava de algum evento, ficava também com aquela sensação de ter perdido algo, de conhecer alguém importante para o meu trabalho ou de ter perdido alguma grande oportunidade de negócio, novo cliente, etc. Sensações confusas e que ficaram ainda mais com a vida de Instagram, na qual todos os eventos são de sucesso e todas as pessoas são só sorrisos. “Só alegria”, dizia um amigo meu. Com a transmissão dos eventos, mais em dúvida eu fico e me perguntando se devo participar presencialmente ou não. Os eventos digitais e as lives estão nos fazendo reaprender a fazer e a participar de eventos. Quando estávamos pegando o jeito da coisa, mudou a coisa.
Sobre os palestrantes, seria um bom tema numa roda de conversa entre amigos, pois os perfis são os mais variados possíveis e cada um tem os seus trejeitos e métodos. Partimos dos metódicos, que gostam de nos relembrar sempre sobre o tamanho do rebanho brasileiro à nossa participação no mercado da carne e crescente demanda mundial por alimentos. Até o minuto cinco foi aquecimento (do palestrante), pois a plateia já sabe os números, as fontes e até as divergências entre os números oficiais e as consultorias. Seguramente, muitos se arrependem de gastar algumas “lâminas” com essa informação ao perceberem que o tempo está acabando e algumas considerações ainda não foram feitas (e não serão por limite de tempo).
É frequente também o palestrante provocador, ele quer mexer com a plateia, quer discordar do senso comum. Apresenta poucas (ou nenhuma) solução, mas provoca a audiência sugerindo que estamos fazendo quase tudo meio errado. E não menos frequente temos o palestrante perguntador. Ao invés de nos trazer alguma conclusão de sua vivência e experiência, nos enche de mais dúvidas. Mais ou menos assim: e se este gado fosse confinado? E a que custo? E vendido em que época? Safra ou entressafra? Castrado ou inteiro? E assim ele segue nos enchendo de erudição e talvez nos querendo vender as soluções. É curioso, mas já ouvi muitos palestrantes que mais perguntam do que respondem.
Saí de casa cheio de dúvidas e quase faltou espaço na mala para trazer as novas. Mas nem tudo está perdido, pois, seguramente, muitos palestrantes contribuíram muito com o meu conhecimento através de alguma fala ou de algum raciocínio elaborado. Tenho bem guardadas, em minhas memórias, palestras que foram marcantes, pois conseguiram me levar a outro nível de entendimento a respeito de algum tema. Iniciei essas palestras como ouvinte de uma categoria e, ao final (após o estalo), saí, com certeza, como um novo ouvinte, empolgado em aplicar aquele conhecimento adquirido ou de avançar para um próximo estágio do saber.
É certo que essas situações ocorrem em um a cada cinco ou dez eventos, mas, para que elas ocorram, temos de oferecer essa chance ao destino. Não tem como ganhar na loteria sem jogar.
Hoje, mesmo antes de iniciar a redação deste texto, ouvi mais um podcast do CTPEC sobre a importância do fechamento do ano pecuário. Além da revisão da metodologia a ser aplicada para esse fim, saí motivado em avançar. Concluí o episódio resolvido a logo fazer a orçamentação de nossa propriedade rural no próximo ano pecuário que iniciará neste julho. Que os eventos não sejam palavras ao vento, mas que tenham a capacidade de estimular mudanças. Justiça seja feita aos promotores de eventos, pois nem tudo depende deles.
Recordo que auxiliei na organização de um Congresso Brasileiro de Angus e Curso de Jurados em 2003 ou 2004. O principal palestrante foi o Dr. Roger Hunsley (EUA). Ele iniciou a sua primeira fala grifando que era muito importante que todos estivessem com as mentes abertas para receber o conhecimento que ele trazia, sem resistências, sem pré-julgamentos. Sem essa condição, os dois dias de trabalho seriam em vão. “Open minded” ele pediu e repetiu muitas vezes. Muitos não se atentaram a isso e, provavelmente, seguem participando de eventos, gastando quilômetros e trazendo pouca bagagem nova para casa.
* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Julho, 2022)