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Métricas financeiras da pecuária: R$/ano ou Alegria/ha?

Genética, Informação | 15 de Agosto de 2022

Por: Fernando Furtado Velloso

Sou um apreciador dos números. Vivo calculando percentuais, quilômetros, distâncias, consumo do carro, margem dos negócios, períodos em dias, meses, semestres, anos. Dias de pastejo, carga animal, ganho esperado na pastagem. Tudo pode ser visto na forma de um número. Vejo algorismos pela rua ou pela estrada e me lembro de tatuagens de touros, do RP de alguma égua crioula, da taxa Selic, do câmbio em várias moedas. Bem perto da minha casa, tem um prédio identificado com números grandes e chamativos
na Armando Barbedo 1023. Passo ali e sempre falo: Santa Joana 1023 Granlíder! Mentes criativas (ou dispersas) gostam de se distrair com assuntos do cotidiano para se desligar um pouco da rotina, da repetição das tarefas, das datas dos vencimentos. Vejo um 7 e me lembro do FGTS, 20 dos demais encargos sociais e 30 me alegra com o dia do pagamento da folha. Sim, eu sei que o empregador pode pagar até o 5º dia útil do próximo mês, mas tentamos sempre antecipar. É bom pra todo mundo.

Feita essa introdução muito esclarecedora por certo, ingresso no tema que pensei em trazer neste texto: métricas financeiras na pecuária. Como medir se o negócio é eficiente, é bom, é rentável? Não se assustem, não vou entrar nessa área do conhecimento que não domino. Não vou me arriscar a trazer parâmetros, recomendações e dados de benchmark. Temos muitos profissionais que já fazem isso por muito tempo e com muita competência.

Aqui no sul do mundo (popular RS), conheci esse tema ouvindo as palestras do Sr. Ciloter Iribarrem, da Safras & Cifras. Acho que ainda não apareceu um técnico ou uma empresa tão atuante como ele nesse tema. Os top produtivos e os top rentáveis da Safras & Cifras eram os melhores números que possuíamos sobre produtividade e rentabilidade da pecuária de corte gaúcha. Se existem técnicos mais expressivos nessa área por aqui, me desculpem, mas o meu “sentimento” é de que não existem. E contra o sentimento a gente não deve viver. A combinação de razão e sentimento são temas que me interessam sempre.

Nacionalmente falando, creio que o nome mais importante e o que mais tem nos ensinado a analisar os números da pecuária é o de Antonio Chaker El-Memari Neto, mais conhecido por Chaker, do Instituto Inttegra. Com esse nome (e DNA), ele já arranca bem, pois tem, na genética, a ancestralidade de povos que pensam e fazem negócios por séculos. Já assisti a algumas palestras e treinamentos dele e sempre aprendi algo novo e simples para melhor avaliar o negócio pecuária. Lembro que ele comentava que, com uma caneta e um guardanapo, a gente tem de conseguir avaliar o desempenho financeiro de uma fazenda, calculando o resultado sobre o estoque (rebanho) e sobre o patrimônio (terra). Outra forma que ele orienta como boa métrica de avaliar a produtividade de uma fazenda é o GMD global, ou seja, quanto que o rebanho todo ganhou de peso (por dia) ao final de um exercício. O homem é bom de métricas simples e efetivas.

Pois bem, confundi e misturei um pouco os assuntos, mas o eixo do tema que eu gostaria de trazer e conversar com os amigos é como avaliamos a rentabilidade da pecuária de corte, da sua comparação direta com agricultura, do alto valor imobilizado (terra) e os baixos resultados anuais para muitos pecuaristas e também da consideração do custo de oportunidade.

Recentemente, gravamos um episódio do podcast Agronautas em que o tema custo de oportunidade surgiu. Discutimos os possíveis ganhos financeiros com o arrendamento de uma fazenda, do arrendamento para agricultura e até do uso do valor de uma estância no mercado financeiro. Numa roda de conversas vale tudo, pois o impacto na conta é zero. Fica só no campo das ideias. Alguns entendem que a operação tem que colocar nos seus custos a rubrica do valor do arrendamento da área. Outros consideram que esse valor não deve ser contabilizado, pois o valor da terra aumenta ao longo dos anos e ocorre ganho patrimonial. A nossa discussão ficou meio limitada às questões da pecuária aqui do sul, mas a lógica é parecida para qualquer pecuarista que se questiona a respeito desses assuntos. Procure na internet pelo episódio 13, Paradigmas da Pecuária – parte 2.

Pois bem, o custo de oportunidade é o valor do que você renuncia ao tomar uma decisão. Você opta por não receber o arrendamento da área para agricultura ou você opta por não utilizar do valor de seu patrimônio no mercado financeiro e “viver de rendas”. Conversamos bastante sobre o tema e me apeguei em algo que é muito caro para mim: muitos trabalham com pecuária por uma opção de vida, da forma de gastar os seus dias nesta vida terrena. Tem algo mais importante que isso?

Quando a pecuária é uma opção de vida e não somente um negócio ou trabalho, a nossa ótica muda. Desculpem-me os Srs. Ciloter e Chaker, mas as métricas financeiras mudam. Como contabilizar a satisfação de ver um filho no lombo do cavalo longe das telas? Como contabilizar o milagre da natureza que todo dia se apresenta para quem amanhece vendo as lonjuras? Como contabilizar o milagre da vida a cada terneiro, cordeiro ou potrilho que nasce?

Pah, Velloso, mas que conversa louca essa. O país em crise, guerra na Europa, eleições batendo à porta, o fantasma do comunismo assombrando o agro e tu me vem com milagre da vida? Pois é. Não sou da bancada evangélica nem repito incansavelmente “Deus, Pátria e Família”. Até acho curioso tanta gente repetindo e  não praticando nenhum dos três.... Bueno, deixemos a política para outro momento. Mas, como já posso ser chamado de homem de meia idade, passei a valorizar cada vez mais as minhas métricas e não somente as métricas do mercado.

O custo de oportunidade pode ser uma boa oportunidade para uma depressão urbana, para uma vida de saudades, para entregar o bastão da sua vida para um terceiro. Tomara que ele lhe cuide bem.

O tema que trago aqui não é novo e nem técnico como muitos apreciam mais. Em 1985, César Passarinho já cantava esse conflito na obra Arranchado (LP Solito): 

"vende-se um apartamento,
no coração da cidade,
a preço de ocasião,
por motivo de saudade". 

Mas o que falo aqui não é regra para ninguém. Como adiantei, é sobre sentimentos. É sobre opções para melhor bem gastar os nossos dias. Com certeza, não é a forma de pensar de muita gente. Não é incomum a situação de pecuaristas que não fazem questão de dormir na casa de campo. Não posam pra fora como falamos. Estão apurados para ir para o povo. Eles não veem como perda o mate que não foi tomado em um fim de tarde diante do pôr do sol, o tempo na beira do fogo no galpão ou o despertar no campo. Não encilham mais cavalos e, quando o fazem, não se preocupam se o toso está bonito. Esse capricho (ou mania) é coisa de gente de campo. De gente menos preocupada com o custo de oportunidade.

Comprei uma camionete a diesel de um cliente (e amigo) em 2021. Andei por um ano feliz com a economia e o bom consumo que ela me entregava. Deram-me um tombo; o óleo está mais caro que a gasolina. Eu até achava que isso nunca havia ocorrido. Mudaram as métricas. Melhor eu aprender a tosar bem as minhas éguas. 

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Agosto, 2022)

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