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Quero criar vacas (mas não entendo nada do assunto)

Genética, Informação, Mercado | 18 de Dezembro de 2023

Quero criar vacas (mas não entendo nada do assunto)

Foto: Divulgação/Assessoria

O título deste texto não é um plágio, mas uma citação e uma recomendação do livro do Dr. José Carlos Ferrugem Moraes, lançado na Feira do Livro de Bagé, neste outubro/23. O Dr. Ferrugem, como é conhecido no meio da pecuária, é médico-veterinário, atuou na docência e como pesquisador da Embrapa, especialmente em genética e reprodução de bovinos e ovinos. Aos colegas veterinários interessados em andrologia, há uma recente publicação dele, de maio de 2022, sobre fertilidade de touros e qualidade de sêmen. Busquem no portal da Embrapa.

Bom, mas o tema que trago neste texto não é sobre reprodução e andrologia, e já me dispersei ao buscar informações na internet sobre o autor citado em minhas frases iniciais. O assunto que o título desta coluna tenta provocar é sobre como existem pessoas que querem ingressar na pecuária ou acabam ingressando por força de questões familiares, casamentos, heranças, etc. 

Tema que gera interesse - Eu tenho uma vida parecida com os pneus da minha camionete (campo/cidade); muitos amigos urbanos me perguntam sobre investir em fazenda, em gado, etc. Inclusive, recentemente, recebemos uma mensagem de um ouvinte de nosso podcast (Os Agronautas) pedindo recomendações a respeito de como iniciar na pecuária de corte. Em suma: esse é um tema recorrente. Tanto que o Dr. Ferrugem escreveu um livro todo sobre ele. É um misto de real interesse, curiosidade e bastante desinformação de como é o trabalho no campo.

Recordo que ainda recém-formado, ano 2002 ou 2003, assessorei um empresário do meio financeiro que queria investir em pecuária, compra de terra, etc. Parte do plano era desenvolver um negócio para o filho administrar. Na época, a realidade e as facilidades eram bem diferentes (quase sem telefonia rural, muito menos internet) e ainda a presença permanente do assunto MST como risco da atividade. Fizemos uma boa gira em diferentes perfis de propriedades (Bagé, Livramento, Quaraí, entre outras cidades), mas o plano não avançou. Os riscos de invasão somados ao isolamento de comunicação desanimaram o cliente e, especialmente, o filho (jovem).

Atividade produtiva ou ganho patrimonial? - O interesse na pecuária pode ter vários motivos diferentes: mudança das atividades pessoais (estilo de vida), interesse na atividade produtiva ou somente busca por uma poupança segura. Existe a expressão que “pecuarista não quebra” ou tem de ser muito ruim pra quebrar. A afirmação tem lógica, pois a movimentação financeira da atividade é muito pequena relativamente ao valor do patrimônio (terra). Exemplo muito grosseiro: 200 vacas ocupando 260 hectares de campo no RS. O valor do rebanho (estoque) é de R$ 600 a 800 mil. O valor da área deve alcançar algo entre 4 a 8 milhões de reais. Então, fazer alguma barbeiragem na produção não é algo que deve falir alguém muito rápido. Faz sentido? Já na agricultura, a conversa é bem diferente. Havendo caracteres suficientes retomamos esse tema.

Tamanho da propriedade e do rebanho - O mínimo de área e de animais necessários para viabilizar financeiramente a atividade é uma das dúvidas mais frequentes. E tem uma das respostas mais difíceis, pois é cheia de “depende”. Se o pecuarista for trabalhar diretamente na atividade, o módulo pode ser menor (e rentável), mas se for necessitar de vários funcionários, prestadores de serviço, etc, a maior escala é condição obrigatória. Parece um assunto bobo que trago, mas muitas pessoas com 10, 15, 20 ou 50 hectares nos procuram pensando em iniciar uma cabanha (produção de touros) e não consigo visualizar formas de fechar as contas. Logo, pecuária de corte é uma atividade que necessita, sim, de um porte mínimo. E esse mínimo cada vez torna-se maior. Se num passado recente, 500 vacas de cria eram um bom número, hoje, talvez sejam necessárias 1.000 vacas na cria para uma boa margem no negócio. Outro “depende” é se a pretensão é ter uma atividade produtiva com boa rentabilidade ou um patrimônio que seguramente se valorizará bastante no médio prazo. Logo, uma decisão é tornar-se pecuarista e a outra é investir na pecuária mirando na valorização de patrimônio. Observem a forte presença de europeus com fazendas no Uruguai. Acho que a motivação maior não é criar vacas.

Criar vacas é diferente de ter bovinos - As diferenças da cria, recria, engorda e ciclo completo são muito claras para qualquer produtor. Ele entende que são atividades de envolvimento e complexidade diferentes e que as rentabilidades não podem ser comparadas friamente, porque tudo é pecuária, mas são pecuárias bem diferentes uma da outra. As taxas de morbidade e a mortalidade são bem distintas em cada uma dessas atividades e o necessário nível de capacitação da mão de obra também. De outra parte, a recria e a engorda pressupõem alto envolvimento na área comercial, já a cria , alta presença na atividade produtiva. São negócios que requerem competências diferentes.

Comparação injusta: Agricultura X Pecuária - É bastante comum a comparação da produtividade da pecuária versus agricultura. Chego a ouvir: “Velloso, essa área com soja ou milho irrigados teria um faturamento muitíssimo maior do que com esse lotinho de gado engordando”. Concordo, é verdade. Mas é uma comparação muito injusta, pois faz paralelo entre uma atividade muito segura (e de menor rentabilidade) com outra de alto risco (e de possível alta rentabilidade). De outra parte, costuma-se comparar agricultura tecnificada, moderna e com muitos insumos com pecuária tradicional. Sei lá, parece comparar andar de bicicleta e motocross. Até dá pra pôr motor na bicicleta (intensificar a pecuária) e ir pra pista, mas não é bicicleta mais. O exemplo de comparar maçãs com bananas eu não gosto de usar. Muito batido. Não usarei. Vamos ao extremo: o faturamento da produção anual de 1 ha de uva ou oliva vale mais que a própria a terra. Convém não fazer barbeiragens.

Fundos de investimento em pecuária – saldo de gols negativo - Uma forma de colocar dinheiro em pecuária somente para diversificação de investimentos são as empresas do ramo financeiro. Existem empresas que oferecem investimentos lastreados em bovinos, que são comprados magros, engordados em confinamentos parceiros, com contratos de venda futura na bolsa. É uma opção que quase nada tem a ver com o título desta coluna, mas é uma alternativa.

O problema ou desafio dessas empresas da atualidade é que o histórico do setor é bastante ruim, pois muitos devem se lembrar das Fazendas Reunidas Boi Gordo e da Gallus Agropecuária. Ambas foram bem populares na sua época e ambas faliram, mas praticavam pirâmide ou outro tipo de engenharia financeira que não tinha o gado como base principal. Lembra-me até da imagem das torres humanas no concurso do Castelo de Terragona. É normal alguém caindo.

* Publicado na coluna Do Pasto ao Prato, Revista AG (Dezembro, 2023)

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