Em recente encontro sobre IATF organizado pela empresa ABS, em Rosário do Sul (RS), discutiu-se um tema muito interessante: Plano Genético e Genéticas Maternal ou Terminal. A proposta é usar algumas linhagens direcionadas à reposição de fêmeas (maternais) e outras à engorda (terminais). Adotar o mesmo touro para ambas a finalidades é exigir demais de um reprodutor ou desperdiçar seu melhor desempenho em uma das frentes.
São bem distintas as características necessárias às duas funções. No lado maternal, buscamos precocidade sexual, facilidade de parto, leite, mães “amorosas”, menor custo de manutenção, adaptação, longevidade e outras virtudes de uma matriz que apresente eficiência reprodutiva, com os menores custos possíveis; enfim, uma "máquina" que trabalhe vários anos sem idas à oficina e pouco combustível. No lado terminal, queremos altos ganhos de peso, ótima conversão alimentar, desempenho em confinamento, animais pesados, bem acabados, rendimentos de carcaça e desossa, tudo que remunere melhor o produtor. Queremos o tal boi 20@ no menor tempo possível.
Levando em conta essas premissas que me parecem bastante razoáveis e realistas, não é algo tão inovador ou
hi-tech pensar em diferentes touros para as diferentes finalidades. Ou seja, ter um plano genético que determine um grupo de matrizes para produzir fêmeas de reposição e outro grupo de matrizes para produzir animais para engorda. A inseminação artificial nos permite realizar isto e o mercado nos coloca, há muito tempo, este produto ao nosso alcance. É mais uma questão de tomada de decisão do que de nova tecnologia ou investimento.
Em gado de leite, esta prática já é bem consolidada no mundo e no Brasil. Nas fêmeas superiores, usa-se sêmen sexado (fêmea) de touros de alto mérito genético, para maior produção de leite. Assim garante-se a reposição de matrizes. As fêmeas medianas ou inferiores recebem sêmen de outra raça leiteira (buscando heterose) ou sêmen de corte (
Beef on Dairy) para a venda de todos os produtos. Com essa estratégia, garante-se alta lactação e um novo produto comercializável (animais para engorda). Em alguns projetos de cruzamento industrial (já me pediram para não usar mais este termo), ocorre situação similar. Nas matrizes zebuínas superiores são usados touros zebuínos de alto mérito genético maternal e, nas demais, sêmen de Angus com genética terminal, onde a totalidade da produção será vendida.
Você, leitor, pode perguntar: Velloso, como identifico as minhas melhores matrizes para uso de touros maternais?
Bom, seguramente é fundamental conhecer as melhores matrizes em rebanhos de cria, mas entendo que nem sempre isso ocorre, porque muitos pecuaristas entram e saem desta atividade ou reduzem/ampliam significativamente seus plantéis o que dificulta um rotina de identificação das melhores mães. Uma dica simples é selecionar as que tem melhores índices para uso de genética maternal e produção de novas “feminhas” de reposição (gosto da palavra feminhas). Não havendo esse controle, buscar aquelas com melhor histórico reprodutivo, considerando-se o número de produtos e intervalos entre partos. Se também não tiver essa informação, você não precisa desistir. Selecione as fêmeas por data de parição e inicie esse processo. Pelo menos você estará usando matrizes potencialmente mais férteis e que vão parir as chamadas "feminhas no cedo", com mais chance de concepção na primeira temporada.
O touro flex ou bombril (1.001 utilidades) é uma exceção em genética ou uma ilusão simplista. É como querer o mesmo carro ou camionete com baixo consumo (20 km/l), alta potência (200 hp), alta velocidade (4 segundos de 0 a 100), silencioso, tracionado, 4x4, alto para bater na estrada rural, estável e agarrado nas curvas do asfalto, e com manutenção baixa. Bonito de ver, talvez nos sonhos. Em bovinos, seria algo como as raças mistas, que, brincávamos, se parecem com sofá cama (ruim de sentar e ruim de dormir).
Acredito que dedicar um pouco de tempo para realizar o tal plano genético é uma tarefa compensadora. Com os mesmos custos, teremos maior eficiência na nossa fábrica, por meio de máquinas melhores - as vacas de cria. Os produtos finais também serão superiores, entregando melhor desempenho na fase de engorda ou melhor satisfação aos nossos clientes terminadores. O cliente satisfeito retornará seguramente.
Publicado na Coluna "É só olhar e ver" da Revista DBO (Setembro 2024)
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