


Escrevo em cima do lance (e do prazo) diretamente da 2ª FENAGEN PROMEBO, Feira Nacional de Genética, em Pelotas (RS). Estive na primeira edição em 2024, e, agora, participo da atual com algumas novidades e “insights” como se diz. Insight é uma palavra da moda. Traz ares modernos pro texto.
A Fenagen tem um objetivo grandioso: promover a genética nacional e o melhoramento genético. Para os zebuzeiros falar em genética nacional pode soar assunto vencido. Mas, aqui no sul do mundo, onde os taurinos são predominantes, a genética nacional é minoritária em várias raças. Especialmente no Angus, que é o grupo genético mais influente na participação do nosso gado comercial. Ou seja, ainda somos importadores e multiplicadores de genética, principalmente dos EUA.
O evento é promovido pela ANC e PROMEBO. A ANC está para nós como a ABCZ está para vocês, e o PROMEBO para o PMGZ. Logo, a FENAGEN é uma tentativa de aproveitar o muito bom modelo da EXPOGENÉTICA, e das mudanças que esta acelerou no melhoramento genético dos zebuínos.
BOI GORDO EM PISTA
O Fórum Promebo na Prática abriu as atividades e foi realizada uma dinâmica com novilhos que mexeu com o público. Mais com a mente do que com os corpos (espero). Foram apresentadas duplas de novilhos na pista, previamente avaliados por ultrassom, com pesos muito próximos, mas com diferenças de carcaça muito grandes. Os lotes eram de animais castrados Cruza Angus, Angus e Hereford com pesos de 700 kgs, mais de 750 kgs e mais de 800 kgs. Em um dos exemplos práticos, a diferença de peso dos novilhos era de apenas 2 kgs, mas em AOL (Área de Olho de Lombo) de mais de 20 cm, e de gordura (EGS) também com grande variação.
A cada dupla de novilhos que passava o público era perguntado: qual tem maior AOL?
As pessoas seguramente erraram várias vezes a resposta. Devem ter concluído que pensavam saber mais sobre bovinos e carcaças do que sabiam. Saíram com menos certezas de lá. Logo, buscar números e dados é a melhor via do que seguir repetindo algumas frases prontas de jurados famosos e gurus da pecuária.
O primeiro ponto muito louvável foi o foco no produto final. Precisamos mostrar mais gado gordo em nossos eventos de pecuaristas, e dedicar mais tempo em compreender o que afeta a composição e a remuneração do produto que vendemos à indústria. Outro ponto que gostei muito foi que a prática contrariou alguns mantras que ouvimos por aí. Um clássico é o seguinte: “com novilho castrado não tem como produzir carcaça pesada”. Já ouviu esse mantra? Se positivo, está em tempo de “trocar o chip” e abrir o horizonte para outras possiblidades. Na prática foram apresentados novilhos com mais de 700, 750 e 800 quilos. Logo, não produzirão carcaças pequenas e leves.
JULGAMENTOS DE CLASSIFICAÇÃO E A LEI DE PARETO
São realizados julgamentos de classificação de reprodutores combinando os dados da avaliação genética e da avaliação visual dos jurados. É uma discussão permanente entre os presentes a pontuação para os dados genéticos e avaliação do jurado. Em 2024, os dados genéticos pesavam 70%. Considerou-se que ficou pesado demais. Em 2025, a importância dos dados caiu pra 60%. E caiu pouco, pois os resultados ainda serão pouco afetados pela pontuação do jurado. Numa relação 60/40 o minoritário pode menos. A matemática é implacável.
Pela simplificação da regra e importância da avaliação visual bem feita (biótipo, estrutura e aprumos, masculinidade, temperamento, etc) defendo que não deve haver divisão de pontos entre os dados genéticos e o visual. Basta estabelecer um parâmetro mínimo para os dados genéticos (ex: Índice Final até TOP 20%) e o jurado classifica a sua maneira. Tendo o passaporte pode viajar e sentar na primeira classe.
Defender “masculinidade” nos dias de hoje pode ser perigoso, mas estou me referindo somente aos touros.
Se algo é bom nesses julgamentos é que o catálogo cheio de siglas, dados, índices e percentis faz com que as pessoas queiram compreender melhor a sua leitura e uso. A informação vai avançando como água pelas frestas da casa (e da mente).
No julgamento da raça Angus, menos de 20% dos animais eram filhos de pais nacionais. Luta feia e desigual nesse campeonato. A genética nacional teve que enfrentar a lei de Pareto. Apesar da pouca probabilidade de conquistas, os dois grandes campeões nos machos foram filhos de touros brasileiros: Bolsonaro e Patriota.
Mesmo com patriotismo em baixa entre os criadores de Angus, aqui deu zebra e os genes selecionados nos nossos campos venceram na FENAGEN 2025. Imagine se o touro nacional não fosse sócio minoritário.
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* Publicado na Coluna "É só olhar e ver", Revista DBO (Julho/2025)