

Neste final de julho, participei de um encontro sobre Inseminação Artificial a Tempo Fixo (IATF) no RS e SC. Presentes, majoritariamente, veterinários que labutam na reprodução de bovinos. Aqui no Sul do Brasil, além do clima, as vacas também são diferentes das vacas brasileiras zebuínas, pois os rebanhos são de raças taurinas ou cruzadas. Me tocou apresentar algo sobre os Desafios da Pecuária de Cria no RS. Trago algumas reflexões desta conversa. Fazendo um sobrevoo de drone sobre a cria gaúcha e arredondando a conversa: em um rebanho de 11,5 a 12 milhões de bovinos, nascem 2 a 2,5 milhões de terneiros, exportamos vivos de 50.000 a 250.000 terneiros e abatemos de 2 a 2,2 milhões de bovinos. Esse é o fluxo do negócio anualmente no RS. Na tabela, está um resumo das feiras de terneiros no RS nos últimos cinco anos. Os desafios da pecuária de gaúcha são conhecidos:
1) Na produção – Precisamos de mais terneiros e mais pesados - O nascimento de terneiros x Nº de matrizes nos informa que a taxa de prenhez é baixa, inferior a 70%. A IATF é uma tecnologia que pode melhorar essa taxa em 10%-15% em relação a sistemas tradicionais. As feiras dizem que o terneiro gaúcho estacionou em 170-180 kg. A genética do nosso gado permite peso acima de 220-240 kg (+20% - 25%). Já os cruzamentos podem aumentar o peso ao desmame em 10%-20%.
2) Perdas – O bolso da calça tem furos (grandes) – As perdas de terneiros desde o diagnóstico de gestação até o desmame são de 15% ou mais. Este é o indicador dos grupos que fazem benchmarking no RS. Provavelmente, o número seja maior como média estadual. Perdemos 300.000 terneiros ou mais por ano. O investimento nas pessoas que atendem a parição é um passo para diminui o furo no bolso.
3) Na comercialização – Produto exportação como saldo e pontas – A comercialização de terneiros não teve grandes avanços nos últimos 10 ou 20 anos. As modalidades de venda seguem as tradicionais e são exceções os novos formatos (contratos de parceria, pré-venda, venda futura etc). É “acanhado” o trabalho para diferenciação de terneiros superiores (descrição do produto, certificações, genética, sanidade, protocolos especiais etc). Os catálogos das feiras de terneiros confirmam a afirmação anterior. A descrição do produto é mínima, resumida a raça predominante e o peso.
Em 2025, o terneiro teve valorização de 30%. Precisamos aproveitar esse valor adicional com mais animais e quilos totais. O mercado melhorou em 2025, mas ainda estamos saudosos dos preços obtidos em 2021. A expectativa de preços para 2026 e 2027 seguem muito positivas. A combinação dos ganhos com IATF (10%) mais redução de perdas (5%), mais cruzamento (15%) pode incrementar em 30% a produção de terneiros. No RS, seriam mais 600.000 terneiros. Num rebanho que produz 200 terneiros, seriam 60 extras. Parece bom.
Conclusão
A nossa cria anda em marcha lenta por vários motivos. Um deles é que a “rotulamos” como atividade que deve estar sempre em áreas marginais. Seguindo assim, não podemos exigir muito mesmo da vaca. Nos resta melhorar o processo para reduzir perdas e compensar parte com cruzamentos bem conduzidos. Mas Velloso, vale à pena intensificar a cria e produzir mais terneiros de 250 a 300 kg? Zootecnicamente, sim. Financeiramente, talvez. Cabe a cada produtor conhecer os custos adicionais destes terneiros e vários quilos a mais. Simplificando um tema complexo: é necessário cuidar mais das vacas para desmamar mais terneiros com mais quilos.
Na comercialização, temos um mundo de possibilidades para melhor diferenciar nossa produção. O produto terneiro do RS é diferente do produto médio brasileiro, mas pouco fazemos para apresentá-lo assim. O mercado quer e paga mais por um terneiro premium? Teoricamente, os que fazem recria e engorda intensivas deveriam demandar este produto. Mas, com diria algum frasista: na prática, a teoria pode ser outra.
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* Publicado na Coluna "É só olhar e ver", Revista DBO (Agosto/2025)