Tem assuntos que nos perseguem, ou que nós mesmos perseguimos. Não sabemos se eles estão nos puxando ou se nós insistimos em carregá-los. É um conflito entre ser o condutor da carroça, o cavalo que a puxa ou, talvez, a própria carroça. Filosofia e zootecnia têm conexões mais fortes do que pensamos. De tempos em tempos, alguém se lembra de mim quando pensa em genética nacional ou Angus brasileiro. Em 2012, fui convidado a coordenar o Congresso Brasileiro de Angus (Porto Alegre) e participei da programação com o tema: “A genética Angus no Brasil e os diferenciais de nossa seleção”. Ficou claro para a plateia que os touros nacionais estavam desempenhando de igual para igual com os importados. Nada de achismo, somente interpretação dos dados do programa de melhoramento. Os dados também foram validados em apresentações de fazendas que usavam e mediam o Angus em cruzamentos.
Em 2022, mapeamos o número de touros Angus e Brangus em centrais brasileiras. Naquele ano, de 300 doadores Angus em coleta, tínhamos 100 importados (animais americanos em coleta no Brasil). Neste negócio, já tínhamos perdido 1/3 ou mais do PIB teórico. Passados mais de 10 anos do congresso da raça, novamente fui convidado a falar na Exposição Nacional de Rústicos (Bagé, 2023). O título ficou mais provocativo – “Touros Angus nacionais: estamos deixando dinheiro na mesa?”. Ficou claro que estávamos deixando de faturar mais, tanto o selecionador quanto o usuário da raça. Estávamos perdendo dinheiro (ou deixando de ganhar). Aproveitei o momento e lancei o conceito de touro nacional, em destaque no quadro em verde.
“Touro Nacional é o reprodutor nascido em terras brasileiras, desmamado e recriado nesta pátria. Este reprodutor pastejou em nossos campos, viveu em nosso clima e foi infestado por nossos parasitas. Quanto mais gerações de pais nacionais ele tiver em sua genealogia, mais nacional ele será.” (Vellosus, 28/09/23 –Hotel Dalle, Bagé, RS)
Minhas percepções
Nas exposições importantes de Angus, Brangus e Braford, já fiz muita “estatística” dos animais expostos, buscando compreender o uso de pais importados e nacionais. Fui até cobrado por não realizar o mesmo levantamento para o Hereford. Falta minha, mea culpa. Escrevo “estatística” entre parênteses porque produzo a informação de próprio punho, sem o rigor e método científico necessários. O uso de touros importados é tão majoritário por expositores que até neste sistema manual é fácil notar as diferenças. Até brinquei, em um artigo, com o título “Pais nacionais em luta desigual”.
Bem recentemente (semana passada), o colega veterinário Marcelo Beretta (CIA Assessoria, MS) trocou várias mensagens comigo sobre o Angus em cruzamentos. Notei sua “angústia” para que mais pecuaristas entendessem as vantagens do uso de touros nacionais. Ele faz isso na prática. Defende o que acredita: que o Angus e o Brangus nacionais são mais adequados para engorda a pasto; que suas filhas F1 não são tão grandes; que o desempenho (ganho de peso) é similar ou melhor do que o dos importados, em função da genética mais adaptada. Este é o resumo de quem pratica a atividade, utiliza genética em cruzamento, olha, observa, mede e tira as suas conclusões.
Seria muito injusto não citar aqui o colega Antônio Chaves (Mamelle Assessoria), que há mais de 25 anos utiliza em cruzamentos, defende e valoriza os touros nacionais. Busquem conhecer a experiência do Toninho em cruzamento e as suas razões de defender a genética do nosso produto, desde as taxas de prenhez em IATF até os abates com acompanhamento.
Em relação ao mercado do sêmen, segue o predomínio do Angus importado, com 60%-70% das doses vendidas. Dos 30%-40% restantes, temos a produção nacional, onde o touro brasileiro divide espaço com o touro importado que vive por aqui. Das 6 milhões de doses de Angus vendidas em 2026, prováveis 4,5 milhões são importadas e de touros importados em produção no Brasil. Participamos de menos de 20% desse PIB genética.
Neste maio, ocorrerá, na CRIO, um evento da CRV Lagoa, o Encontro Regional RS – Vetlíder. Serão realizados treinamentos, palestras e mostra dos touros taurinos que a CRV tem aqui no Sul. A veterinária Luana Fernandes novamente lembrou do tema: “O importante papel do Angus Nacional na pecuária de cria brasileira”. Então, vamos de novo, tentar reunir e apresentar informações deste assunto no qual acredito tanto.
Características necessárias
Tudo muda muito rapidamente, mesmo que a gente não queira. Algumas verdades do passado não existem mais. O produto Angus nacional já foi defasado tecnologicamente, mas hoje tem o mesmo pacote tecnológico que o produto importado. Utilizamos os mesmos métodos de avaliação e seleção, desde o programa de melhoramento, ultrassonografia de carcaça e genômica. Mas (e um “mas” por vezes muda toda uma conversa), somente o touro nacional tem algumas características muito necessárias no Brasil:
- seleção para nossas condições;
- adequação ao nosso mercado;
- genética para adaptação com animais de menos pelo (pelo fino) e resistência ao carrapato;
Como dizia um candidato em época de eleições: “sinais, fortes sinais”. Sim, sigo ouvindo estes sinais que me perseguem faz alguns anos. Ou sou eu quem os persegue?
Por Fernando Furtado Velloso – Veterinário, produtor rural, mestre em Produção Animal, sócio da Assessoria Agrop. FFVelloso & Dimas Rocha e da CRIO Central Genética Bovina.Fonte: Publicado na Revista DBO (Abril/2026)
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