O hábito de escrever nos leva a ler mais. Lendo mais, escrevemos melhor e temos novas ideias, novas reflexões. Temas antigos e batidos podem ser vistos de formas novas. Conclusões e percepções já fechadas sobre um problema voltam a se abrir com novas informações. O ciclo recomeça e vamos colocando mais camadas de conhecimento (e talvez mais domínio e clareza) sobre uma área. Talvez, estejam aí os motivos para algumas pessoas gostarem tanto de estudar, mesmo sem prova pra realizar. Em maio de 2021, li aqui mesmo na Revista DBO, um texto de Daniel Biluca e Antônio Chaker sobre a necessidade anual de touros para monta natural na pecuária de corte brasileira. O título do artigo é direto: “Qual a demanda de touros no Brasil?”
Os autores calcularam que a necessidade anual de touros era de aproximadamente 300.000 reprodutores. O mercado oferecia cerca de 160.000 touros registrados (zebuínos e taurinos somados). Deste total, apenas 25.000 eram certificados como geneticamente superiores (CSG, CEIP, Dupla Marca etc). Conclusão simples: a produção é bem inferior à necessidade anual. Simplificando, podemos dizer que produzimos metade dos touros necessários. Somado a isto, apenas 15% deles são avaliados e descritos como superiores geneticamente. Logo, ainda se usa muito macho inteiro sem origem ou participação em programas de melhoramento. Semente de bolsa branca. Temos muito chão para nos aproximarmos da agricultura profissional, onde semente de qualidade é assunto do qual não se fala mais.
Desafio da genética
Mais recentemente, em agosto/2026, li outro texto de Fábio Luiz Toral e Antônio Chaker: “O desafio de tornar a produção de genética um negócio atrativo”. Os autores abordam a dificuldade de a produção de touros ser um negócio rentável. Por meio de dados de clientes do Instituto Inttegra, calcularam que a rentabilidade das fazendas de genética ficou 30% abaixo das fazendas de ciclo completo.
Alguns indicadores de produção, reprodução e perdas (mortes) nos ajudam a compreender melhor as causas disso: nas fazendas produtoras de touros, o peso ao desmame, o GMD global, a lotação (UA/ ha) e a produção global (@/ha) são maiores do que em fazendas de ciclo completo. Porém, a fertilidade geral (taxa de prenhez), a taxa de desmame, a perda da prenhez ao desmame e a mortalidade geral têm resultados piores. Parece curioso, pois onde a reprodução é chave, os indicadores são inferiores. Onde o bezerro custa mais e pode valer mais, as perdas são maiores. Vários fatores podem tentar explicar os motivos, tais como o uso intensivo de biotécnicas de reprodução, participação em exposições, algumas “chances” para matrizes que falham na estação etc.
Até aqui, somente revisei e resumi o que li em dois muito bons textos. Acrescentei um pouco de minha visão pessoal com algumas considerações. Recomendo que os interessados neste assunto busquem os artigos para leitura, pois temos poucos dados publicados na área de produção e comercialização de touros e ambos artigos nos ajudam a colocar alguma métrica em nossas conversas.
Por um lado, temos um mercado aberto para ocupar com reprodutores e genética de qualidade. Se produzimos metade do necessário, vamos trabalhar para demonstrar as perdas que a pecuária está assumindo por não usar touros superiores. São verdadeiramente milhares de touros provados que faltam no mercado (mais de 150.000), mas estamos falhando em alguma parte de nossa comunicação, pois o cliente ainda não vê este produto como fundamental e obrigatório, e ainda opta pela opção de menor custo.
Por outro lado, a produção de touros ainda tem ineficiências que a tornam menos rentável em comparação com o gado comercial. É curioso falar disto, pois quem produz genética justifica a sua opção pelo valor agregado possível, argumentando que onde come uma vaca comum pode estar a mãe de um touro etc. Tem sentido em parte, mas estamos patinando no operacional ou nos confundido com tantas opções para praticar o melhoramento genético em nossos rebanhos.
Parafraseei autores que admiro e a leitura deles me faz sempre pensar um pouco diferente. Espero colaborar também contribuindo com ideias que nos façam pensar ou repensar mais sobre como vemos o negócio touros.
Fonte: DBO