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A banalização da genética (por Gabriela Giacomini)

Informação | 05 de Setembro de 2016

Gabriela Giacomini, Gerente de Operações do Programa Montana

Foto: Portal DBO

Touros são insumos muito importantes e ninguém quer insumo de péssima qualidade em sua linha de produção

A palavra genética, segundo o dicionário on line Dicio, significa "a ciência que estuda a transmissão, de pai para filhos, dos caracteres de hereditariedade anatômicos, citológicos e funcionais, cujas primeiras leis foram estabelecidas por Mendel em 1865".

De posse da definição da palavra, de cara podemos perceber que o que se vende por aí sob o rótulo "genética" na pecuária brasileira nem sempre pode ser considerada a genética que os pecuaristas pensam que estão comprando.

O que os produtores de touros deveriam oferecer são animais geneticamente melhorados ou geneticamente avaliados. Infelizmente, na maioria dos casos, o que se vende são animais que possuem escrituração zootécnica pura e simples. Animais que estão gordinhos, bonitinhos e que são filhos de determinado touro da moda.

O geneticista e professor da USP, José Bento S. Ferraz, costuma mostrar uma informação interessante em suas apresentações. Nesse slide a que me refiro, ele nos mostra que o que é feito hoje em matéria de "seleção" de touros para venda é tecnologia (ou a falta dela) dos séculos XVIII, XIX e XX, antes de 1930. Essas "seleções" são baseadas em avaliações visuais, pedigree, medições simples ou ajustadas e provas de ganho de peso. Insisto que são tecnologias de antes de 1930. Pode parecer piada, mas a maioria dos rebanhos de "seleção" e venda de touros ainda está baseada nesses pilares.

Não são raros os catálogos de leilões que informam apenas pai, peso, perímetro escrotal e data de nascimento. Todas as informações são muito pouco relevantes na hora de se escolher um reprodutor. Existem alguns "selecionadores" que investem mais e informam medições de ultrassonografia de carcaça - detalhe que representam informações vazias: pouco importa uma medida de área de olho de lombo de um touro de 36 meses sem comparação estatística com nenhuma outra medida ou, ainda, informar marmoreio num touro de 36 meses que passou a vida toda comendo ração.

Ultimamente tenho visto até seleção de fêmeas, supostas doadoras de embriões, com seleção baseada em prova de ganho de peso, avaliação visual da vulva (!) e quantidade de oócitos por aspiração. Aí já entendo que o que importa é que a fêmea é capaz de produzir um caminhão de embriões, não importando se ela é geneticamente superior ou não.

Voltando à genética, entendo como "melhoramento genético" ou "avaliação genética" aquele processo estatístico conduzido por doutores na área do melhoramento animal, como o Prof. José Bento Ferraz (USP – campus de Pirassununga), com base no Modelo Animal. A partir desse tratamento estatístico que leva em conta todo o pedigree dos animais, desempenho próprio, dos parentes e dos filhos, os grupos de contemporâneos e uma variedade enorme de outros dados é que são calculadas as DEPs, que são as melhores ferramentas de comparação de animais até hoje. O próprio Modelo Animal já tem os seus 25 anos de idade e não é novidade pra ninguém. Atualmente, tem muita gente que já está comparando animais através de seus genes, calculando as novas DEPs genômicas.

As DEPs (Diferenças Esperadas na Progênie) são ferramentas seguras de comparação entre animais de um mesmo programa de seleção. Para características como peso ao desmame, ganho de peso e peso ao sobreano, quanto maiores as DEPs maior a probabilidade de seus filhos serem mais pesados quando comparados com touros com DEPs inferiores. Muitos programas de melhoramento genético combinam as DEPs em Índices de Seleção, que levam em conta as DEPs que seus coordenadores julgam importantes para conduzir o rebanho para determinada direção.

São inúmeras as opções de raças e touros oferecidos ao mercado todos os dias. Dentre todas as opções, procure fazer sempre uma escolha consciente. Animais de programas de seleção sérios, que fornecem as informações genéticas dos animais são os mais indicados.

Uma compra errada de touros leva a um grande erro na fazenda. Veja só: no primeiro ano, você usou o touro, que trabalhou com 30 vacas e produziu 25 bezerros. Enquanto você cria e desmama a primeira fornada de bezerros, esse touro já trabalhou novamente com as vacas e deixou mais 25 bezerros. No sobreano da primeira fornada de bezerros, você finalmente percebe que os filhos do touro não são bons. Enquanto isso, ele já produziu mais 25 bezerros e as primeiras filhas dele já estão entrando em monta. Dá para entender a extensão do engano?

Uma boa ferramenta oferecida pelo Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) é o certificado CEIP - Certificado Especial de Identificação e Produção. Animais com CEIP (independente do registro da associação) são geneticamente superiores, pertencentes a uma faixa que engloba até os 30% melhores animais da safra. É a garantia de estar levando somente animais da ponta da avaliação genética.

Uma última dica: cuidado com produtores que oferecem animais com CEIP e/ou registrados. A cabeceira está sendo vendida com CEIP e registro. No caso de animais que vêm apenas com registro, é possível intuir que não fazem parte da elite genética do rebanho e não tiveram direito ao CEIP.

Sua fazenda é o seu negócio, sua empresa. Touros são insumos muito importantes e ninguém quer insumo de péssima qualidade em sua linha de produção.


Publicado no Portal DBO em Abril/2016
Por Gabriela Giacomini, Gerente de Operações do Programa Montana

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