Como pesquisas recentes e ferramentas reprodutivas avançadas ajudam os produtores a identificar touros de alta influência e a melhorar os resultados reprodutivos do rebanho.
Por Briley Richard, 11 de fevereiro de 2026
A fertilidade dos touros tem sido, há muito tempo, um pilar fundamental para a lucratividade da pecuária de corte, mas prever quais touros gerarão prenhezes consistentes continua sendo um desafio. Embora os avanços em genética, nutrição e manejo reprodutivo tenham melhorado os resultados das prenhezes, o desempenho consistente dos touros permanece difícil de prever. Mesmo entre touros que atendem aos padrões exigidos, os resultados reprodutivos podem variar bastante.
Para os produtores de genética, essa variação tem implicações que vão além de uma única estação de monta, influenciando o sucesso do cliente, o progresso genético e a sustentabilidade a longo prazo. Se o seu lucro depende do nascimento dos bezerros, não se deve arriscar.
“A eficiência é um dos principais componentes da sustentabilidade da pecuária de corte”, afirma Saulo Zoca, professor assistente e especialista em extensão em gado de corte da Universidade do Tennessee.
Isso engloba mais do que apenas sustentabilidade ambiental, explica Zoca. Inclui a manutenção de um negócio lucrativo e intergeracional, no qual a fertilidade do rebanho desempenha um papel fundamental.
A função da fertilidade
A fertilidade é frequentemente discutida como uma característica de tudo ou nada, mas pesquisas continuam a mostrar que ela existe em um espectro.
Touros tecnicamente férteis ainda podem diferir substancialmente na eficiência com que estabelecem gestações e na consistência com que essas gestações são mantidas. Touros subférteis são animais que podem emprenhar algumas fêmeas com sucesso, mas que consistentemente alcançam menos gestações no geral e concepções mais tardias.
Além da concepção, a fertilidade também influencia a manutenção da gestação. Pesquisas lideradas por Ky Pohler, professor associado da Universidade Texas A&M, mostram que a contribuição de um touro se estende além da fertilização e chega ao desenvolvimento inicial.
“A questão é como essa contribuição se manifesta na gestação”, diz Pohler. “Quando uma vaca não está prenha ou perde um bezerro, quem paga o preço na maioria das vezes? A vaca. Ela acaba sendo vendida.
Qual é a contribuição do reprodutor nessas situações?”
Essa distinção ajuda a explicar por que touros que atendem aos padrões de qualidade do sêmen ainda podem apresentar diferenças significativas em fertilidade, reforçando a necessidade de avaliá-la como um processo biológico, e não como um único ponto de verificação.
O papel e as limitações do exame andrológico
Quando a fertilidade de um touro é abaixo do ideal, os efeitos econômicos são imediatos. No entanto, a própria fertilidade é influenciada por uma ampla gama de fatores, incluindo doenças, lesões, integridade estrutural, nutrição e estressores ambientais. Essas variáveis tornam a avaliação dessa característica complexa.
O exame andrológico continua sendo a principal ferramenta para o gerenciamento do risco de infertilidade dos reprodutores. Consolidado e amplamente aceito, ele avalia a saúde física do touro, a circunferência escrotal e a qualidade do sêmen, incluindo motilidade e morfologia.
“O andrológico não é apenas o nosso método atual, mas é o padrão e, neste momento, essencialmente o único método que temos para avaliar a fertilidade dos touros”, afirma Zoca.
A avaliação do sêmen concentra-se na motilidade e na morfologia, com limites mínimos de 30% de motilidade e 70% de morfologia normal para monta natural e 60% de motilidade para sêmen de inseminação artificial (IA) antes do congelamento. Realizado corretamente, o exame de aptidão reprodutiva serve como uma ferramenta de gestão de riscos, e não como um indicador de desempenho.
“Quando converso com os produtores sobre os exames de aptidão reprodutiva, eu os incentivo a pensar nisso como uma apólice de seguro”, diz Zoca. “Ao realizar um exame, espera-se que todos os touros sejam aprovados; mas, se um touro não for aprovado, é importante saber antes que ele seja colocado com as vacas.”
Apesar dessas medidas, cerca de 20% dos touros são reprovados nos exames andrológicos por problemas físicos ou relacionados ao sêmen, o que reforça a necessidade de uma avaliação proativa.
Zoca aconselha “examinar os touros antes de cada estação de monta. Mesmo que você utilize o mesmo touro em várias estações de monta no mesmo ano, como nas estações de primavera e outono, ainda é necessário reexaminá-lo antes de cada estação.”
Essas reprovações destacam a importância dos exames, mas também apontam para um problema mais profundo.
Entre os touros aprovados, ainda existem diferenças significativas na fertilidade.
Dados revelam variação entre touros
Dados comerciais destacam a grande variação que a fertilidade pode atingir. Pohler descreve em grupo experimental de inseminação artificial em tempo fixo (IATF) de Angus, na qual as taxas de prenhez variaram de 9% a 64% entre os touros. Igualmente importante é considerar como a fertilidade pode flutuar ao longo do tempo.
“Se um touro consegue emprenhar as vacas até o 24º ou 30º dia, isso significa que essas gestações provavelmente continuarão?”, questiona Pohler. “Estudamos oito touros Angus e analisamos a perda gestacional nos primeiros 24 dias e depois disso. Quatro touros foram responsáveis pela maior parte das perdas gestacionais precoces. Quando analisamos o período mais avançado da gestação, apenas um touro manteve a consistência.”
Dados de programas de inseminação artificial com vacas Holandesas reforçam esse ponto. Um touro testado passou no exame de aptidão reprodutiva, mas, quando colocado à prova, os resultados mostraram outra história. Esse touro alcançou uma taxa de prenhez de apenas 10%, e 40% dessas concepções não chegaram a termo.
“Não há relação entre a capacidade de um touro de emprenhar as vacas e a capacidade dessas vacas de manter a gestação”, afirma Pohler. “Este touro passou por todos os controles de qualidade. Do ponto de vista do sêmen, ele parecia estar bem, mas havia um problema evidente no campo.”
Para os produtores de touros, esses exemplos representam um lembrete crucial de que confiar apenas em exames andrológico padrão ou no sucesso inicial de concepção de um touro pode não ser um bom indicador do desempenho reprodutivo a longo prazo do rebanho.
O acompanhamento dos resultados da gestação ao longo de várias estações de monta e em diferentes ambientes é essencial para identificar reprodutores com desempenho consistente.
Novas ferramentas para avaliar a fertilidade de touros
Os avanços na ciência reprodutiva estão expandindo as formas de avaliar a fertilidade, mas também reforçam uma realidade importante: nenhuma medida isolada captura o verdadeiro impacto reprodutivo de um
touro.
“Costumávamos pensar que, se os espermatozoides estivessem vivos, eram bons”, explica Zoca. “Mais tarde, percebemos que nem todos os espermatozoides vivos são igualmente férteis.”
Tecnologias recentes permitem que os pesquisadores descubram novos conhecimentos. Inovações como a citometria de fluxo e abordagens multiômicas permitem a avaliação de milhares de espermatozoides com maior resolução.
“A chave não é apenas identificar marcadores, mas desenvolver ferramentas que possam ser usadas na prática por centros de inseminação artificial, veterinários e produtores no campo”, afirma Zoca.
Pohler enfatiza que a avaliação da fertilidade deve ir além da fertilização.
“O mesmo touro que emprenha vacas no 24º ou 30º dia não necessariamente mantém essas gestações. Os touros mudam de classificação, e temos observado isso tanto em dados de gado de corte quanto de gado leiteiro.”
Essas observações enfatizam que a capacidade reprodutiva de um touro estabelece o limite máximo para o desempenho do rebanho, mas não pode superar as limitações da fertilidade da fêmea, da viabilidade embrionária ou do manejo do rebanho. É aqui que a atenção se desloca do touro isoladamente para todo o sistema reprodutivo, incluindo as contribuições das matrizes.
Avanços em Transferência de Embriões (TE) e Fertilização In Vitro (FIV)
Embora o potencial reprodutivo do touro defina o que é possível, o sucesso das gestações depende, em última análise, da saúde reprodutiva da fêmea e da qualidade do embrião. Para rebanhos de selecionadores (plantéis), as tecnologias reprodutivas avançadas oferecem oportunidades adicionais para gerenciar a fertilidade e reduzir riscos, por meio de métodos como a transferência de embriões (TE) e a fertilização in vitro (FIV).
“O manejo da doadora tem muito a ver com a qualidade do embrião”, afirma Lee Jones, veterinário sênior de serviços profissionais da Boehringer Ingelheim. “Sabemos que a qualidade do embrião impacta o desempenho e que embriões frescos versus congelados podem, às vezes, afetar o desempenho.”
Por outro lado, o manejo da receptora continua sendo igualmente importante.
“O ideal é que a condição corporal da receptora esteja entre 5 e 6. Normalmente, preferimos que as receptoras estejam com pelo menos 45 dias pós-parto antes da sincronização”, diz Jones.
Mas não termina na concepção. O manejo desses animais influencia fatores que vão muito além, tanto para a fêmea receptora quanto para o bezerro que ela está gestando. “O manejo da receptora também afeta o desenvolvimento fetal, a condição corporal ao parto, a qualidade do colostro, a saúde do bezerro e a fertilidade pós-parto”, afirma Jones. “O diagnóstico de gestação é um ponto de verificação onde podemos avaliar a condição corporal, o estágio da gestação e fazer ajustes, se necessário.”
Ferramentas como o EmVision, criado pela EmGenisys, agora oferecem aos produtores uma maneira de avaliar a viabilidade embrionária com mais precisão. Usando análise de vídeo e aprendizado de máquina (inteligência artificial), o sistema tecnológico classifica os embriões para ajudar a selecionar aqueles com maior potencial para gestações bem-sucedidas e reduzir a perda embrionária precoce.
“Essa pontuação ajuda a classificar os embriões do mais saudável ao menos saudável, e você pode decidir como isso se encaixa na sua prática”, diz Cara Wells, CEO e fundadora da EmGenisys. “Isso capacita os embriologistas com dados objetivos para tomar melhores decisões no campo.”
O sistema funciona em tempo real usando equipamentos simples já disponíveis na maioria das operações de transferência de embriões, como um microscópio e um smartphone. Os vídeos dos embriões são carregados na plataforma, que avalia imediatamente a atividade de cada embrião e atribui uma pontuação de confiança para o potencial de gestação. Ao longo do tempo, a plataforma EmVision foi treinada com milhares de embriões com resultados conhecidos, permitindo que o sistema de aprendizado de máquina reconheça padrões além do que o olho humano consegue detectar.
De acordo com Wells, “Embriões com atividade moderada e equilibrada tendem a gerar as melhores gestações. Nosso sistema ajuda a identificar esses embriões e evita aqueles com baixa probabilidade de sucesso, aumentando a eficiência e as taxas de nascidos vivos.”
Os avanços na transferência de embriões (TE) e na fertilização in vitro (FIV) estão fornecendo aos produtores ferramentas para gerenciar a fertilidade com maior precisão do que nunca. Desde o manejo cuidadoso de doadoras e receptoras até a avaliação de embriões com o EmVision, cada decisão ao longo da cadeia reprodutiva pode influenciar o sucesso da gestação, a saúde dos bezerros e o desempenho do rebanho a longo prazo.
Jones explica que a fertilidade é um ciclo contínuo, que exige comprometimento desde antes da concepção até muito depois do nascimento, independentemente do segmento da pecuária em que se atua.
“Pode ser virtuoso ou vicioso. Tudo se constrói sobre o que veio antes.”
Ao combinar práticas de manejo tradicionais com tecnologias modernas, os produtores estão superando as suposições. Embora essas ferramentas não substituam a experiência, elas permitem que os técnicos tomem decisões mais informadas e repetíveis, além de preparar o terreno para uma abordagem da fertilidade mais focada em dados.
Seleção de fertilidade orientada por dados
A fertilidade é tanto ciência quanto arte. O sucesso depende da seleção de touros, da qualidade dos embriões, do manejo das receptoras e da atenção aos detalhes em cada etapa. Desde a seleção de reprodutores com desempenho consistente até o manejo de doadoras e receptoras, e agora a avaliação de embriões com novas tecnologias, os produtores têm mais ferramentas do que nunca para reduzir riscos e melhorar os resultados.
“Em última análise, queremos que a reprodução se torne um processo quase passivo, monitorado cuidadosamente e ajustado quando necessário, de forma sustentável, eficaz e eficiente”, afirma Jones.
A integração de práticas tradicionais com tecnologias avançadas permite que os produtores tomem decisões informadas e repetíveis, garantindo que a fertilidade proporcione resultados previsíveis e lucratividade duradoura.
Fonte: Angus Journal (11/02/26), traduzido e adaptado pela Asssessoria Agropecuária.