O cruzamento de taurinos com zebuínos já foi testado, comprovado e consolidado na pecuária brasileira. Tanto é assim que, em 2025, cerca de 40% do sêmen corte vendido no País foi de taurinos (raças europeias e sintéticas). Há alguns anos, o sêmen para cruzamento chegou a representar mais de 60% do total, ou seja, inseminava-se mais vacas zebuínas em programas de cruza industrial do que com touros zebuínos. Os motivos são bem conhecidos: na produção (+ quilos de bezerros) e no mercado (preços diferenciados para o bezerro cruzados).
Curiosamente (ou não), o mesmo não ocorre na Pecuária Sul, onde se concentram as matrizes taurinas. Lá o cruzamento é pouco realizado ou se dá entre raças muito próximas em sua origem ou genética (Angus x Hereford, Braford x Angus etc). Em 2017, escrevi um texto que brincava no título com o assunto: “Crie, cruze e não faça careta”. Careta, no caso, é o Angus cara branca, mas o trocadilho significava não fazer “cara feia” para outras opções de cruzamento. Os mais afoitos que tiram conclusões só com o título devem me criticar até hoje. Faz parte do ofício de publicar ideias.
Recentemente, neste maio, na Expo Outono de Uruguaiana (RS), o Charolês participou para mostrar como é o padrão moderno da raça, em uma região onde ela praticamente não é vista. Os mais atentos notaram um Charolês com novo biótipo e genética diferente do passado: linhas com baixo peso ao nascer e maior deposição de gordura, mantendo o alto potencial de ganho de peso do continental. Os pecuaristas do Centro e Norte do Brasil já perceberam isso faz mais tempo e a raça vem crescendo anualmente na venda de sêmen para cruzamento com novilhas F1 Angus x Nelore. Quem imaginaria: raça continental para uso em precocinhas?
Na grande pecuária da vaca zebuína, o cruzamento está consolidado, mas, na pecuária Sul, é subutilizado. Tentarei abordar aqui o assunto e talvez gerar reflexões para mudanças.
Por que taurino x taurino?
No cruzamento entre taurinos e zebuínos, podemos aumentar em 15%-20% o peso ao desmame. No caso de taurinos com taurinos, os ganhos são menores, mas pode-se obter cerca de 5% entre raças do mesmo grupo (britânicos x britânicos) e até 8%-10% entre raças de grupos diferentes (continental x britânico). Parece simples demais, porém desmamar bezerros 10% mais pesados é igual (no faturamento) a desmamar 10% de bezerros a mais. Qual criador não gostaria de vender 550 bezerros ao invés de 500?
A preocupação de não “bagunçar” o gado de cria é recorrente. Deve ter origem em cruzamentos desordenados, que causam despadronização. É importante ficar atento a isso e pensar em cruzamentos terminais com continentais, que não afetem a composição do gado de cria.
Para cruzar taurino com taurino, seguem recomendações simplificadas: 1a ) considere cruzar raças mais distantes geneticamente para desfrutar de maior heterose (vigor híbrido) e ter maior impacto em peso ao desmame; 2a ) no caso dos continentais (como o Charolês), o melhor uso se dá em cruzamentos terminais, onde toda a produção é vendida.
Vejamos um exemplo prático, considerando-se um rebanho de 500 matrizes com taxa de 85% de prenhez. A produção será de 400 crias (já descontadas as perdas). Serão necessárias 100-125 bezerras para reposição, então, das 500 matrizes, 350 podem ser destinadas a essa finalidade e as demais 150 matrizes usadas para cruzamento (exemplo: Charolês x Angus, Charolês x Braford etc) e todos os bezerros (machos e fêmeas) serão vendidos com peso ao desmame 5%-10% superior. Desta forma, o rebanho mantém o seu padrão racial inalterado.
E o custo, Velloso?
Esse exemplo pode ser viabilizado com IATF nos lotes de matrizes paridas no tarde ou identificadas como inferiores. Usando sêmen sexado para garantir a reposição de fêmeas, o percentual de matrizes destinadas ao cruzamento pode ser maior. O impacto aumenta e a receita também. O produtor de leite já percebeu isso faz tempo: as vacas superiores são inseminadas com “sexado leite”, para obtenção de matrizes de qualidade, e as inferiores são cruzadas com corte (Beef on Dairy). O custo desta mudança é a tomada de decisão. Não é preciso desembolsar com insumos além dos rotineiros da propriedade. Fala-se bastante que o insumo mais limitado de nossas vidas é o tempo. Logo, tomar decisões que nos façam produzir mais no mesmo tempo parece interessante. Faça os seus cálculos.
Fonte: Publicado na coluna É só Olhar e Ver (Revista DBO, Junho/2026).